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A amargurada confissão do autor dos discursos de Durão Barroso

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Ryan Heath diz que quando foi contratado esperava poder dar o seu contributo para ajudar a projetar a liderança europeia, mas o que se seguiu foi uma tremenda deceção

Num amargurado artigo de opinião publicado no site “Politico”, Ryan Heath relata a péssima experiência que teve quando trabalhou como um dos autores dos discursos do então presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso.

Heath diz que quando foi contratado, em 2011, tinha a expectativa de ajudar a “projetar a liderança europeia para a Primavera Árabe, ajudar a salvar a zona euro, e firmar o Santo Graal da escrita de discursos: o discurso do estado da União”, mas o que o esperou foi uma enorme deceção.

Para começar a comunicação direta (ou mesmo indireta) com Barroso pura e simplesmente não existiu: “Quando eu esboçava algo, eu colocava isso no sistema onde entrava num ping-pong entre os responsáveis de topo. Barroso não aparecia nas nossas reuniões, excetuando em uma ocasião e mesmo nesse caso por breves instantes. O que ele pretendia – se ele o expressava a alguém - nunca me foi comunicado. Senti como se estivesse a escrever para uma caixa negra. De vez em quando, alguém dava-me criticas em retorno ou sugestões, mas não era claro se alguma dessas coisas tinham vindo dele”.

Depois, recorda que havia gente a mais a mexer nos discursos (cerca de meia dúzia de pessoas em 2011), o que levava a que versão final já tivesse muito pouco da eloquência que começara por procurar incutir-lhes: “Na verdade, havia tantas reuniões, com tantos grupos diferentes de pessoas, que pelo menos 16 versões diferentes do discurso eram produzidas antes do presidente chegar a ler uma”.

A somar a isto, Heath relata o infeliz e insólito episódio que lhe sucedeu quando acompanhou Barroso numa viagem a Singapura. Enquanto decorria a reunião primeiro-ministro de Singapura, ficou sozinho na suite de Barroso e resolveu tomar um duche causando uma inundação, um problema que ainda não tinha sido resolvido quando o presidente da Comissão Europeia regressou.

Uma situação que associa à sua queda em desgraça. Depois disso, foi desconvidado para a escrita do almejado discurso do Estado da União e regressou a Bruxelas para ficar relegado para tarefas menores, como escrever tweets. Até que acabaram por colocar fim ao seu tormento, dizendo-lhe que teria de encontrar outro emprego.

O artigo em que o correspondente do “Politico” da União Europeia recorda as memórias enquanto autor dos discursos de Barroso surge na véspera do atual presidente da Comissão Europeia fazer o seu discurso do Estado da União. E a esse propósito termina com um apelo: “Se, na quarta-feira, você ouvirem Jean-Claude Juncker a sair do guião do estado da União 2016 ou virem um jovem de fato a fazer uma careta ao fundo palco – percam um momento a pensar nele. Poderá ser um solitário autor de discursos, a questionar-se se eles alguma vez vão conseguir fazer a coisa como deve de ser”.