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Saúde de Clinton já é (realmente) um assunto de campanha

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Justin Sullivan

Candidata democrata foi diagnosticada com pneumonia na sexta-feira, mas a informação só foi conhecida no domingo depois de ter de ser retirada da cerimónia do 11 de setembro por "desidratação". Viagem que tinha programada para esta segunda-feira já foi cancelada. A menos de dois meses das eleições, o que era apenas um objeto de teorias da conspiração e arma de arremesso dos rivais passa a ser um assunto sério na corrida à Casa Branca

A candidata democrata às presidenciais norte-americanas está a receber tratamento para uma pneumonia, informou a sua médica após Hillary Clinton ter sido retirada por dois agentes secretos da cerimómia de homenagem às vítimas dos atentados de 11 de setembro de 2001 em Nova Iorque, na manhã deste domingo.

Em comunicado, Lisa Bardack diz que Hillary foi diagnosticada com uma infeção pulmonar na sexta-feira, para a qual lhe receitou um antibiótico, dois dias antes de sofrer de "desidratação" durante a cerimónia que este domingo marcou os 15 anos dos atentados contra as Torres Gémeas e o Pentágono.

No mesmo comunicado à imprensa, a médica diz que a candidata já estava a sentir-se melhor e "a recuperar muito bem" em casa da filha, Chelsea. Mas esta segunda-feira de manhã, a sua campanha informou que, por causa da doença, a candidata foi obrigada a cancelar uma viagem de dois dias que tinha programada para a Califórnia, onde ia fazer um discurso sobre economia aos seus apoiantes naquele estado e participar em eventos de angariação de fundos.

"A [ex-]secretária [de Estado] Clinton tem estado a sofrer de tosse por causa de alergias", disse Bardack. "Na sexta-feira, durante uma avaliação de rotina por causa dessa tosse prolongada, foi diagnosticada com pneumonia. Foi colocada a antibiótico e aconselhada a descansar e a alterar a sua agenda e planos."

Numa outra nota à imprensa, o porta-voz de Clinton, Nick Merrill, disse que a candidata "assistiu à cerimónia de comemoração do 11 de Setembro durante apenas uma hora e 30 minutos para prestar homenagem e cumprimentar algumas das famílias das vítimas" dos atentados. Durante essa cerimónia, acrescentou, "sentiu-se desidratada, pelo que partiu para o apartamento da filha e está a sentir-se muito melhor". Pouco depois de ter abandonado o Ground Zero, foi divulgado um vídeo em que se vê dois agentes a ajudarem uma Clinton combalida a entrar para um carro.

Há várias semanas que os seus rivais têm questionado as suas capacidades físicas para se candidatar à presidência dos Estados Unidos, com o candidato republicano à Casa Branca, Donald Trump, a dizer no mês passado num discurso aos seus apoiantes que Hillary Clinton "não tem o vigor físico e mental" necessário para liderar o país e lutar contra o autoproclamado Estado Islâmico (Daesh).

Há um mês, Bardack tinha garantido que Clinton está "de excelente saúde e capaz de servir como Presidente dos Estados Unidos", após ter "recuperado totalmente" de uma cirurgia a que foi submetida em 2012 por causa de um coágulo sanguíneo, informou a médica.

Até agora, a campanha da democrata tem acusado os seus opositores de estarem a criar e a alimentar "uma conspiração demente sobre a saúde de Clinton", sobretudo após a candidata ter tido um ataque de tosse durante um evento de campanha no Ohio na semana passada e ter sido filmada a expelir alguma expectoração para um copo de água.

Na imprensa e blogues conservadores, muitos questionaram-se sobre a "substância misteriosa" que a candidata tinha cuspido para o copo, com algumas pessoas a criarem longos debates em fóruns na internet dedicados a analisar até se a candidata teria cuspido ovos alienígenas.

Num artigo publicado este domingo à noite, um jornalista do "Washington Post" refere que, embora tenha sido um dos primeiros a criticar e a desmistificar as teorias da conspiração recentemente surgidas em torno da saúde da aspirante presidencial, o facto de ter sido diagnosticada com pneumonia — e de isso só ter sido tornado público dois dias depois, quando se sentiu mal numa cerimónia pública — vem ajudar e muito os rivais republicanos, a menos de dois meses das eleições presidenciais convocadas para 8 de novembro.

"Quer Clinton goste quer não, o seu episódio de 'desidratação' surge numa altura muito má para a sua campanha", escreve Chris Cillizza, referindo um facto que muitos têm apontado, sobre a temperatura registada em Nova Iorque à hora em que a candidata quase desmaiou ser bastante amena. "Graças a gente como Rudy Giuliani [republicano ex-autarca de Nova Iorque] e uma base pequena mas audível de elementos republicanos, a conversa sobre a sua saúde tem estado em ebulição na última semana, por causa de um episódio de tosse durante um comício no Labor Day. Essa conversa tem estado largamente confinada a um grupo de republicanos convencidos de que Clinton está, há muito, a esconder uma doença séria. Escrevi com desdém sobre essa teoria da conspiração nesta coluna de opinião na semana passada [...]. Tossir, escrevi, simplesmente não é prova suficente de qualquer grande doença que Clinton pudesse estar a esconder. Muito menos, claro, é a 'desidratação'. Mas essas duas coisas acontecerem no espaço de seis dias a uma candidata que tem 68 anos torna as conversas sobre a saúde de Clinton em mais do que teorias da conspiração."

Cillizza e vários outros jornalistas e analistas referem que, se até agora, Clinton e a sua campanha podiam rir-se das questões sobre a sua saúde, o episódio de 'desidratação' torna quase impossível continuarem a fazê-lo. "Não só isto surge numa altura em que existem crescentes conversas — com base em muito poucas provas — sobre a sua saúde ser um problema, como aconteceu no evento de homenagem do 11 de setembro, um momento incrivelmente mediático cheio de câmaras e jornalistas por todo o lado", sublinha o jornalista do "Washington Post".

"A sua campanha bem pode tentar diminuir esta história a nada mais que um incidente isolado sem qualquer significado. [...] Clinton até pode estar bem e espero certamente que assim seja. Mas estamos a 58 dias de escolher a pessoa que vai liderar o país durante os próximos quatro anos e ela é um dos dois candidatos com reais hipóteses de vencer. Acreditar na palavra da equipa de Clinton sobre a sua saúde, à luz do episódio de domingo de manhã, já não chega. Pessoas razoáveis podem e vão ter questões reais sobre a sua saúde."

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