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Escolha do próximo líder da ONU gera tensões entre Berlim e Moscovo

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JOHANNES EISELE

Governo russo acusa a chanceler alemã de estar a tentar convencer a Bulgária a trocar a sua candidata ao cargo ocupado por Ban Ki-moon, para que seja Kristalina Georgieva, atual vice-presidente da Comissão Europeia, e não Irina Bokova a disputar a liderança da organização

O Governo russo condenou esta segunda-feira as tentativas da Alemanha de influenciar a corrida ao cargo de secretário-geral das Nações Unidas, atualmente ocupado por Ban Ki-moon e na qual o antigo primeiro-ministro português António Guterres tem conseguido ficar consecutivamente bem colocado até à data.

De acordo com informações do site EurActiv, as tensões entre Moscovo e Berlim por causa da escolha do próximo líder da ONU agravaram-se há mais de uma semana durante a cimeira do G20 na China, quando Angela Merkel tentou convencer Vladimir Putin a apoiar a candidatura da búlgara Kristalina Georgieva, atual vice-presidente da Comissão Europeia, em detrimento de Irina Bokova, a política que a Bulgária escolheu para disputar o cargo máximo da ONU.

Irina Bokova é a tual diretora-geral da UNESCO

Irina Bokova é a tual diretora-geral da UNESCO

Paco Chuquiure/EPA

A 10 de setembro, a imprensa búlgara assegurou que Putin tinha declarado o seu apoio aos planos de Merkel – uma informação de imediato desmentida pela porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros russo Maria Zakharova. Esta segunda-feira foi avançado que o primeiro-ministro búlgaro Boyko Borissov estava igualmente a ponderar substituir a sua candidata oficial, na sequência de uma conversa telefónica com a chanceler alemã.

Este domingo, entre uma notícia e outra, Zakharova assegurou que as informações eram uma "falsidade", classificando de "inaceitável" a alegada tentativa alemã de influenciar a escolha de um candidato de outro país. "[Vladimir Putin] disse clara e categoricamente a Angela Merkel que a nomeação de um candidato ao posto de secretário-geral da ONU por um país depende exclusivamente do poder soberano desse Estado e que todas as tentativas diretas ou indiretas de influenciar essa decisão são inaceitáveis." A opinião foi apoiada por Dmitry Peskov, porta-voz do Presidente russo.

O Governo búlgaro anunciou a candidatura de Bokova, atual diretora-geral da UNESCO, antes de 12 de julho, quando a lista final de candidatos foi anunciada, altura em que declarou que Georgieva ia continuar a ser o número dois de Jean-Claude Juncker. Contudo, a especulação sobre uma eventual candidatura da vice-presidente do executivo comunitário à ONU voltou a ganhar força na passada sexta-feira, depois da quarta votação para o cargo, na qual Guterres ficou em primeiro lugar e Bokova caiu do terceiro para o quinto.

A vice-presidente da Comissão Europeia está interessada no cargo de Ban Ki-moon

A vice-presidente da Comissão Europeia está interessada no cargo de Ban Ki-moon

EMMANUEL DUNAND/AFP/Getty Images

Para além de ser quase inédito alterar um nome da lista numa fase tão avançada do processo de escolha, o Código de Conduta dos comissários europeus não permite, à partida, que procurem novos empregos ou se candidatem a outros cargos durante o seu mandato. Apesar disso, diz-se que Juncker apoia as aspirações da sua vice a substituir Ban no cargo.

No Twitter, o porta-voz do Presidente da Comissão Europeia, Martin Selmayr reagiu às recentes notícias com algum pesar mas também entusiasmo, dizendo que se Georgieva for escolhida para a ONU isso "será uma grande perda" para Bruxelas mas um "motivo de orgulho para os europeus".

Em entrevista ao EurActiv, o antigo ministro irlandês dos Assuntos Europeus Dick Roche disse, por sua vez, que apoia Bokova e lamentou o que se está a passar em torno da sua candidatura. "Irina Bokova está a ser vítima de uma campanha de rumores maliciosos lançada pelos aliados de centro-direita de Kristalina Georgieva", disse Roche sobre a ex-deputada comunista búlgara, antes de acusar a vice-presidente da Comissão de ter "recrutado poderosos aliados, aumentando a pressão sobre o Governo búlgaro" e de ter elogiado Bokova por estar a aguentar-se "com grande dignidade".