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“Parecia que a cidade estava coberta de neve. E de repente as torres caíram”

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11 DE SETEMBRO DE 2001. O momento em que a segunda torre é atingida pelo avião

FOTO SARA K. SCHWITTEK / REUTERS

Com elas ruiu uma era e começou outra. Um homem em tempos apoiado pelos EUA na guerra contra os soviéticos mobilizou células para desviar os aviões que embateram contra as Torres Gémeas e o Pentágono, faz este domingo 15 anos. Foi a primeira vez na História que o território norte-americano foi atacado. Morreram quase três mil pessoas. Tudo o que aconteceu a seguir, da invasão do Iraque ao surgimento do Daesh e à fuga de centenas de milhares de pessoas do Médio Oriente para a Europa, é uma herança daquele dia. Ao Expresso, sobreviventes recordam o que sentiram há 15 anos e especialistas enquadram a instabilidade dos nossos dias no calendário da “Guerra contra o Terrorismo”, que Bush lançou logo em 2001

O ano letivo acabou de começar e, pela primeira vez, restam poucos ou nenhuns alunos no ensino básico americano que já fossem nascidos quando, há 15 anos, células da Al-Qaeda desviaram dois aviões contra o World Trade Center, o cérebro financeiro dos EUA, horas antes de um terceiro avião atingir o Pentágono e de um outro ter sido desviado pelos próprios passageiros até um descampado na Pensilvânia.

Como milhares de outras crianças regressadas à escola esta semana, os filhos de Célia Valente eram demasiado pequenos para compreenderem o que se passou a 11 de setembro de 2001. Faltava pouco para as 9h da manhã naquele dia quando a portuguesa de 44 anos, que emigrou com a família de Aveiro para Newark quando tinha 16, ouviu uma explosão a caminho do trabalho. "Estava a sair do metro no cruzamento da Broadway com Wall Street, nenhuma das pessoas naquela rua viu o avião embater, pensámos que era uma bomba.”

pETER MORGAN/REUTERS

Célia trabalhava no Millennium BCP, no distrito financeiro de Manhattan. Quando chegou ao banco, o segundo avião embateu na outra torre. “Já estava sentada à secretária quando vimos estilhaços de vidro a voar por todo o lado.” Quem estava na rua começou a correr pela vida, muita gente refugiou-se na sede do banco português. “Pensei que as janelas do nosso edifício iam explodir. Lá fora estava tudo branco, a cidade parecia estar coberta de neve, não se via nada. E de repente caiu a primeira torre.”

Esta sexta-feira é provável que, nas salas de aula americanas, os alunos ouçam falar do fatídico dia. Domingo marcam-se 15 anos dos atentados, mas como referia há uns dias ao “USA Today” um professor de uma escola do Tennessee, para os jovens de hoje são só mais um evento histórico “como o Pearl Harbor” — fruto da renovação geracional que veio dividir o mundo em dois grupos: os que não viveram para assistir e contar a História e os que têm respostas prontas à pergunta “Onde estavas no 11 de Setembro?”

A herança do dia que mudou tudo

Para esses, os mais velhos, o dia foi e será para sempre inédito. “Foi um acontecimento que mudou a vida em todo o globo”, explica ao Expresso Dias Farinha, grande especialista português em assuntos do mundo árabe e islâmico. “Foi o primeiro grande atentado contra um território até então praticamente inviolável, que marcou o fim de uma certa ideia de supremacia dos EUA, o fim da ideia dos EUA como polícia do mundo, capaz de regular a atividade internacional e de controlar organizações terroristas.”

Com isto veio também o que Farinha define como uma “refundação da NATO”, que acabou por intervir no Afeganistão em apoio aos aliados americanos, e o início do fim da desagregação do antigo império soviético, quando países da antiga esfera de influência russa, “não propriamente aliados do Ocidente, em particular o Cazaquistão”, colaboraram na ofensiva contra o antigo protetorado dos EUA durante a invasão soviética nos anos 1980.

PETER MORGAN/REUTERS

Foi o início da famigerada Guerra contra o Terrorismo, lançada pelo então Presidente George W. Bush, que com base no argumento comprovadamente falso sobre a existência de armas de destruição em massa no Iraque acabaria por ordenar a invasão de um país que, sublinha Farinha, “na altura e no contexto do Médio Oriente, era completamente contrário às lutas ideológicas do fundamentalismo islâmico” que os EUA diziam querer combater.

Ao Expresso, Alberto Mora diz que existem poucas palavras para descrever como os EUA mudaram faz este domingo 15 anos. “Horror talvez seja a melhor.” O professor do Instituto Kennedy de Harvard estava no Pentágono quando o voo 77 da American Airlines embateu na lateral do edifício. “Quase ninguém lá estava naquele dia. Para quem sentiu o edifício a tremer como eu, para quem estava no Ground Zero ou nas ruas do sul de Manhattan e viu os escombros do World Trade Center, é impossível esquecer as emoções que se geraram, entre elas um choque incompreensível. Era e continua a ser impossível assimilar totalmente o homicídio em massa que foi cometido naquele dia. A morte tocou todos e o país sofreu.”

O pior erro

As réplicas desse choque fazem-se sentir até hoje em todo o mundo, numa sucessão de ações e reações com impactos profundos, por vezes devastadores. “Naturalmente os Estados Unidos ficaram feridos no seu amor-próprio, abalados pelas milhares de mortes, e esse sentimento de fragilidade deu lugar a um desejo de vingança, só que a vingança traz sempre enormes dificuldades”, explica Dias Farinha. No caso, “os EUA foram muito além do que pretendiam nas respostas ao ataque” e, aí, “a invasão do Iraque em 2003 foi seguramente o maior erro de todos”.

Antes disso, veio a ofensiva contra o Afeganistão, lançada naquele mesmo ano. “A fúria veio com a selvajaria dos atentados e um profundo empenho em prevenir outros ataques e em encontrar e acabar com os responsáveis”, explica Mora. “Às 7h da manhã de 12 de setembro foi-me entregue um briefing dos serviços de informação da Marinha que identificavam a Al-Qaeda e as suas bases principais no Afeganistão. O país estava em guerra.” E “tragicamente” em guerra ficou até hoje.

SEAN ADAIR/REUTERS

“Apesar de a intervenção no Afeganistão ter sido necessária e inevitável, muito do resto não era”, explica o professor de Relações Internacionais e antigo adido na embaixada dos EUA em Lisboa entre 1975 e 1977. “No que deveria ter sido um esforço militar totalmente focado na Al-Qaeda e nos seus apoiantes, como os talibãs, o inimigo como o sentíamos metastizou-se para incluir um conceito amorfo de ‘terrorismo’ e para, mais tarde, incluir o Iraque. Hoje é evidente que houve pouca ou nenhuma visão estratégica, sabedoria ou prudência ao selecionar os alvos.”

Farinha concorda. “A intervenção no Iraque foi pelos motivos errados, sabemos hoje falsos, e fez cair o prestígio político dos EUA, o país perdeu a autoridade.” Mora acrescenta: “Hoje é evidente que a motivação primária de Bush, [Dick] Cheney e [Donald] Rumsfeld, os grandes arquitetos da estratégia, não era erradicar as armas de destruição em massa que Saddam Hussein alegadamente tinha, mas sim transformar à força o Iraque e todo o Médio Oriente, um objetivo ilusório que nunca teve reais hipóteses de ser alcançado. Em vez disso, os EUA destabilizaram a região, com resultados terríveis que todos estamos a testemunhar, incluindo a ameaça real à estabilidade da Europa”, entre outros motivos por causa do “fluxo massivo de refugiados” que, às centenas de milhares, têm desembarcado nas costas do continente desde 2013.

Ciclo de vingança e ódio

No total quase três mil pessoas perderam a vida nos EUA num só dia. Nas horas que se seguiram ao embate na torre 1, nem Célia nem os colegas e clientes presos no BCP durante horas perceberam que o mundo como o conhecíamos tinha acabado de mudar. “No momento é tudo tão irreal que só quando chegas a casa, tomas banho e ligas a televisão é que percebes a dimensão do que se passou, começas a ver a contagem de mortos, imagens de pessoas a saltar de prédios…” Ninguém estava preparado para o cenário de guerra que se instalou.

“Quando nos deixaram sair do banco, às 11h e tal, fizeram-nos andar até Midtown para apanharmos o ferry para fora da ilha, para a seguir nos mandarem voltar para Wall Street, de onde apanhámos o barco para Jersey City e dali um autocarro para a estação de comboios de Newark.” Célia chegou à cidade por volta das 17h, coberta pelo mesmo pó branco que desabou sobre o sul de Manhattan como um manto de neve. O marido estava cobrir os atentados em direto para a televisão portuguesa, sem saber se a mulher tinha sobrevivido. Quiseram mangueirá-la como fizeram com a maioria dos sobreviventes que ali chegavam. “Como não se sabia bem o que se estava a passar, tinham medo que o pó fosse antrax. Disse-lhes que não me molhassem, que se fosse para me acontecer alguma coisa, provavelmente já não estaria ali.”

BRAD RICKERBY/REUTERS

Célia só acabaria por voltar ao trabalho passados seis meses, mas alguns amigos quiseram retomar a normalidade dos dias quase de imediato. Foi o caso do padrinho do seu filho do meio, que apanhou um comboio para Manhattan dois dias depois dos atentados. “Disse-me que, todos os dias, toda a gente viajava em silêncio. Não interessava se eras branco, indiano, negro, árabe, havia trocas de olhares e muita desconfiança. E silêncio.”

O clima de desconfiança saiu do comboio para se instalar em todos os recantos do país até hoje. “O 11 de setembro mudou a maneira como pensamos sobre a segurança, das comunidades e a segurança individual de cada um”, explica-nos John Tirman, diretor do Centro de Estudos Internacionais do MIT. “Essa mudança foi quase totalmente desnecessária porque os atentados terroristas são raros e normalmente pequenos. Só que engrenámos o nosso exército, o nosso aparato de espionagem, as nossas leis e tribunais para confrontar estas ameaças como se fossem gigantes. Isto tem custos financeiros, mas também outros, como definir prioridades erradas ou as atitudes de profunda desconfiança em relação aos muçulmanos e aos imigrantes, como se pode ver com a atual histeria por causa dos refugiados sírios que estão a vir para os EUA. Este receio sem fundamento transformou-se num medo irracional de todos os imigrantes, uma ansiedade subjacente sobre um mundo ‘lá fora’, inseguro, que é uma ameaça aos americanos.”

Para Tirman, é uma ansiedade semelhante à da Guerra Fria, só que nessa altura o medo era outro, “ligado a uma ameaça de aniquilação nuclear, que era muito mais realista” do que as supostas ameaças que hoje ensombram o país. “É tudo muito triste, porque os EUA e a Europa, a América do Sul e na verdade todo o mundo à exceção do Médio Oriente é seguro e no geral está a tornar-se mais próspero. A verdadeira ameaça latente são as alterações climáticas. O nosso medo do terrorismo distrai-nos da nossa capacidade para dar resposta a problemas reais.”

Terapia de grupo

O professor do MIT diz não ter dúvidas de que o trauma coletivo há de ser superado. O tempo, diz, “cura tudo e vai voltar a curar”, mas não será para já. Em parte por causa da instabilidade no Médio Oriente, onde aos mais de 300 mil mortos provocados pelas invasões do Iraque e do Afeganistão (entre civis, soldados e militantes extremistas) se juntaram já meio milhão de vítimas da guerra na Síria desde 2011 e muitas mais perdas em todo o Médio Oriente, berço do temido fundamentalismo islâmico, ao mesmo tempo causa e efeito do 11 de setembro.

Como explica Dias Farinha, foi há 15 anos que “o terrorismo político deu lugar a um terrorismo de natureza religiosa, pela mão de organizações não propriamente ligadas a Estados, como foi o caso da Al-Qaeda — que, devemos lembrar-nos, foi apoiada pela CIA [durante a invasão soviética do Afeganistão] — e mais recentemente com o autoproclamado Estado Islâmico, o Daesh.”

O emaranhado complexo de ideologias, ações e reações, o medo e o extremismo que se alimentam mutuamente, são os grandes legados do 11 de setembro e até o tempo fazer o seu trabalho, assim continuará a ser. Em novembro, existe a possibilidade de Donald Trump, candidato pelo Partido Republicano, ser eleito Presidente dos EUA, guiado por promessas irracionais que capitalizam o ódio, a dor, a desconfiança e o tal medo. Quer criar um diretório de muçulmanos, expulsar milhões de imigrantes, construir um muro na sua fronteira sul e pôr o México a pagá-lo. É tudo o que muitos americanos, os que não esquecem e não perdoam, querem ouvir desde o 11 de Setembro. E, de certa forma, o sucesso da sua retórica de ódio também está ligado aos atentados de há 15 anos.

reuters

“Os ataques causaram danos profundos nos nossos valores partilhados e na arquitetura do Estado de Direito e direitos humanos”, refere Alberto Mora com pesar. “A administração Bush perdeu a noção de que o objetivo estratégico dos EUA é não só proteger vidas como também proteger valores e liberdades. Quando adotou a tortura como arma, por exemplo — como fez deliberadamente em Guantánamo, Abu Ghraib e em inúmeras prisões secretas da CIA em todo o mundo — repudiou expressamente a crença nacional profunda de que cada indivíduo em qualquer parte do mundo tem direito a ser livre e a estar protegido da crueldade. E apesar de a atual administração Obama ter acabado com estas práticas ao segundo dia de mandato, ninguém foi responsabilizado por elas e isso arruinou a capacidade do país para continuar a liderar a luta pelo respeito dos direitos humanos a nível global.” Foi o fim de uma era e o início de outra, cheia de medos e incertezas. Não é só do tempo que depende o que diremos às crianças daqui a 15 anos. Mas só ele e as gerações vindouras serão responsáveis por julgar-nos.

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