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“A Al-Qaeda está de volta”

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Richard Clarke, antigo coordenador de contraterrorismo dos Presidentes George W. Bush e Bill Clinton e ex-conselheiro de Barack Obama

Alex Wong

Em entrevista exclusiva ao Expresso, Richard Clarke, o “Czar antiterrorismo” das administrações de George W. Bush e de Bill Clinton e ex-conselheiro de Barack Obama, nega que a Al-Qaeda “e muito menos o Estado Islâmico” constituam uma ameaça existencial para os EUA, 15 anos depois dos atentados de 11 de Setembro de 2001 e do início da Guerra global contra o terrorismo. Criticando o intervencionismo de W. no Iraque e, por oposição, a excessiva cautela de Obama na Síria, o autor de “Against All Enemies” teme a eleição de um Trump “medonho”

Escreveu no livro “Against All Enemies” que George Tenet, o diretor da CIA na altura dos atentados de 11 de Setembro (11/9), “caminhava com o cabelo a arder”, ignorando a ameaça terrorista, mesmo depois do alerta de um ataque iminente da Al-Qaeda com aviões comerciais, três meses antes da tragédia. Não acha isso estranho?
Havia a tentativa de coligir informação e perceber onde é que os ataques poderiam ocorrer. Avisámos todas as companhias aéreas. Mas, na altura, a CIA estava convencida de que a Al-Qaeda planeava uma coisa muito diferente, algo parecido com o sequestro de aviões e troca de passageiros por presos de alto valor como Omar Abdel-Rahman, ou o “xeque cego”, acusado de gizar um ataque contra Nova Iorque.

Porque acusou a Administração Bush de “surdez intencional” para com a ameaça da Al-Qaeda antes do 11/9?
Eles formavam uma equipa que se preservara desde os tempos em que o Presidente Bush pai deixou a Casa Branca. Quase oito anos depois, quando regressam para educar o novo Presidente, Bush filho, trouxeram a mesma agenda, com os mesmos assuntos e prioridades. A ameaça da Al-Qaeda não estava nessa lista. Recordo que Condoleezza Rice me disse que tudo estava na mesma, excepto eu que tinha servido Bill Clinton, assim como Bush pai e Ronald Reagan. Eu concordei e respondi-lhe que muita coisa tinha de facto mudado em oito anos.

Num documentário da PBS, em 2002, disse que havia um debate sobre se a Al-Qaeda era uma ameaça existencial para a América. Hoje pergunta-se o mesmo sobre o auto-intitulado Estado Islâmico (EI). São ameaças semelhantes?
Não acho que Al-Qaeda represente uma ameaça existencial para os EUA, muito menos o Estado Islâmico. Eu cresci durante a Guerra Fria e nesse tempo, aí sim, tínhamos o perigo de um conflito nuclear e de uma ameaça existencial. A Al-Qaeda ainda quer destruir os EUA, mas não tem capacidade para tal. O mesmo se aplica ao Estado Islâmico. É certo que vão ser uma espécie de praga, vão matar, vão incomodar, mas não podem destruir os EUA.

A morte de Bin Laden mudou muita coisa na guerra global contra o terrorismo?
Teve um impacto simbólico, para nós e para os terroristas. Para nós, porque Bin Laden era uma espinha atravessada na garganta há dez anos que nos enfurecia, fazendo com que duvidássemos das nossas capacidades. Era um símbolo da força e resistência terrorista, dava moral, embora já não fizesse muito. Ele achava que ainda dirigia a Al-Qaeda, mas acho que isso só se passava na cabeça dele.

A Al-Qaeda ainda é uma ameaça?
A Al-Qaeda está de volta. A Al-Qaeda na Península Arábica (AQAP, sigla em inglês) está tão forte que resistiu a três campanhas aéreas com drones nas últimas três semanas. No início do ano, no Iémen, conquistaram a cidade de Mukalla que tem mais de meio milhão de habitantes. Em África, desde o início do ano, levaram a cabo quatro grandes atentados, em países como o Burkina Faso e o Mali. No leste do continente africano também estão muito ativos, mais do que a própia Al-Shabaab. Ayman al-Zawahiri, o sucessor de Bin Laden, criou um novo grupo, Al-Qaeda no Sub-Continente Indiano, cujo objectivo é combater os governos da Índia, Paquistão, Bangladesh, Myanmar e criar um Estado islâmico naquela região. Não lemos isto nos jornais, mas posso garantir que as secretas americanas estão muito preocupadas. Elas sabem o que se está a passar, mas têm dificuldades em acompanhar com detalhe. Olhe-se, também, para a Jahbat al-Nusra ou Al-Qaeda na Síria.

O que é que os EUA podiam ter feito para evitar a metamorfose da Al-Qaeda em Estado Islâmico?
Deviam ter disponibilizado mais cedo serviços secretos, drones e forças especiais. Além disso, se tivéssemos apoiado a oposição moderada na Síria em 2012, tal como o nosso embaixador naquele país aconselhou, os terroristas acabariam por perder gás.

Chegou a acusar a Administração Obama de nada ter feito para evitar o crescimento do Estado Islâmico.
Obama foi mal aconselhado. Disseram-lhe que o EI era uma espécie de equipa de juvenis do campeonato terrorista. Ele próprio não queria envolver-se no Médio Oriente, porque achava, e se calhar ainda acha, que sempre que nos metemos no Médio Oriente f… tudo! Ele preferiu uma espécie de negligência benigna. Dedo fora do gatilho.

Disse, também, que tamanha cautela se deveu a uma reacção exagerada aos erros da Administração Bush. Como assim?
Obama olhou para o que Bush tinha feito no Iraque e concluiu que ele tinha boas intenções, mas acabou mal informado. Bush não tinha a intenção de destruir o Iraque e pensava que tudo terminaria numa vitória rápida e que uma democracia tipo Suíça ou Suécia iria florescer.

Quem foram os maus conselheiros?
Dick Cheney, certamente. Rumsfeld.

Ainda acredita que Cheney deveria responder por crimes de Guerra?
É possível sustentar uma acusação, mas eu não gostaria de vê-lo no Tribunal Penal Internacional. Não acho que seria útil. Mas insisto que é possível sustentar a acusação, porque continuo a achar que a Guerra do Iraque violou o Direito Internacional.

Escreveu que, logo no dia 12 de Setembro de 2001, o Presidente Bush pediu-lhe que encontrasse provas que relacionassem o Governo do Iraque com os terroristas. Porque é que a Casa Branca quis, imediatamente, seguir a pista iraquiana e as alegadas armas de destruição em massa?
Diferentes pessoas na Administração tinham diferentes razões. Conheço essas razões, mas não consigo associá-las a indivíduos em concreto. Existiam pessoas que achavam que tínhamos de acabar a missão deixada a meio na Guerra do Golfo. Outras tinham a certeza de que aquela era uma oportunidade histórica para plantar a semente da democracia no Médio Oriente - um disparate. E também havia aquelas que queriam entregar os poços de petróleo iraquianos às empresas americanas.

Demite-se em 2003 e acaba por denunciar publicamente as políticas de Bush. A Casa Branca não lhe perdoou. Como é que viveu esse tempo, sabendo que estava a ser alvo de ataques constantes de algumas das pessoas mais poderosas do mundo, Presidente dos Estados Unidos incluído?
Não estava preocupado. Queria pôr a verdade cá fora. Corri esse risco, assumindo que iria pagar um preço em termos do que poderia fazer no futuro. Confesso que acabei por não pagar um preço muito alto.

Tinha medo do quê?
De que não conseguisse arranjar um trabalho no futuro e que destruíssem por completo a minha reputação.

Após o 11 de Setembro, houve políticos que quiseram trocar liberdade por mais segurança. Que liberdades perdemos?
Brincámos com a Constituição, por exemplo. Foi o caso do cidadão americano José Padilla, um terrorista capturado nos Estados Unidos, enviado para uma prisão militar e detido sem culpa formada. Fazer isto a um cidadão americano, não respeitando os seus direitos, é matar a Constituição. O programa de monitorização de todos os telefonemas no país, não do conteúdo mas dos dados (quem liga a quem, a que horas, etc.), também ilustra essa atitude.

Teme que em caso de um novo ataque, parecido ou pior do que o de 11 de Setembro, o retrocesso nessa matéria seja ainda maior. Que forças negras são essas que querem atacar as liberdades dos americanos?
São pessoas que acreditam que a prioridade é a segurança do país, mesmo que para tal tenham de suspender algumas liberdades. Note-se que quando se soube do programa de escutas, muitos americanos não se preocuparam, dizendo que não faziam nada de mal e que, por isso, não tinham nada a temer. Desde que um terrorista fosse apanhado, estava tudo bem. Há mesmo pessoas que não se importam que alguns inocentes sejam indevidamente presos, desde que isso garanta segurança absoluta. O problema é que criamos um precedente. A partir do momento em que começamos a desgastar o quadro das nossas liberdades, mais cedo ou mais tarde o Estado virá à nossa procura.

Há dois anos e meio, a pedido direto do Presidente Obama e na sequência das revelações de Edward Snowden, elaborou um relatório sobre liberdade e segurança - The NSA Report. Considera aquele jovem foragido traidor ou herói?
Ele não é certamente um herói e provocou enormes danos. Ao mostrar como nós detectamos terroristas e cibercriminosos fragilizou a segurança interna – nós sabemos, por exemplo, que após as revelações de Snowden os terroristas mudaram a sua forma de comunicação, o que complicou a captura de muitos deles. Ele não tinha de revelar tudo aquilo, podia ter ficado pelas escutas ilegais aos americanos... Mas deitou tudo cá para fora, indiscriminadamente. Além disso, acho que ele entrou em delírio, continuando a dizer que era um oficial da secreta. Não! Ele era um informático. Tenho pena dele e gostava que enfrentasse a Justiça.

Snowden e o ex-diretor da NSA Michael Hayden - numa estranha aliança - concordaram que o FBI abusou dos seus poderes ao exigir que a Apple desbloqueasse o telemóvel do autor do ataque em San Bernardino. Concorda com ambos?
Sim. O FBI não tem o direito de obrigar a Apple a fazer o que seja, muito menos de entrar numa espécie de porta das traseiras que lhe dê acesso a todo o software secreto da Apple.

Episódios como este fazem lembrar o que disse no passado sobre a NSA e o FBI, quando os acusou de serem capazes de transformar os Estados Unidos num Estado policial.
Seria um passo nesse sentido e tenho a certeza absoluta, tal como o senador Frank Church disse há 40 anos, quando liderou um comité de inquérito ao caso Watergate, de que ambos os organismos têm de ser supervisionados porque guardam a chave da porta de entrada para um Estado policial.

Estamos em plena campanha eleitoral, não sei se já reparou…
(risos)

Afirmou há pouco que fomos do extremismo de Bush, marcado pelo intervencionismo pós-11 de Setembro, para o extremismo cauteloso de Obama. Caso Donald Trump vença em Novembro, que tipo de extremismo é que podemos esperar dele?
Não há forma de saber o que ele irá fazer porque ele muda de opinião todos os dias. Ele não tem ideias sólidas sobre nada e isso é medonho! Estou muito preocupado com a possibilidade de ele vencer em Novembro. Tal afetaria, e de que maneira, a democracia americana.

Trump garante que sabe mais sobre o Estado Islâmico do que os generais… Teme que alguém com este tipo de atitude possa ser facilmente manipulável pelas tais forças negras de que falávamos há pouco?
Ele pode ser manipulável por toda a gente porque desconhece as matérias. Ele diz mil coisas diferentes num dia. Não há um fio condutor. É uma confusão.

Se Trump for eleito acha que estamos em apuros ou concorda com pessoas como o general Michael Hayden, que nos disse há pouco tempo que os europeus não devem entrar em pânico, visto que os Estados Unidos são uma democracia consolidada?
Concordo em parte, mas acho que Trump faria tudo para pôr em causa o nosso sistema de checks and balances (controlos e equilíbrios que ajudam a harmonizar os poderes legislativo, executivo e judiciário).

Por falar em campanha eleitoral e em segurança nacional, qual é a maior ameaça no capítulo da cibercriminalidade?
Há várias, desde logo a possibilidade das nossas armas não funcionarem num eventual conflito, visto que russos e chineses terão a capacidade para viciar o nosso software militar. Outro problema é a possibilidade de importantes sistemas, como a rede elétrica, deixarem de funcionar depois de um ataque cibernético. E nem sequer precisamos de pensar nestas crises de grande dimensão, porque todos os dias perdemos milhões e milhões de dólares de propriedade intelectual devido a ataques de ciberespionagem.

O Congresso americano votou ontem uma provisão que permite, finalmente, às famílias das vítimas dos ataques de 11 de Setembro processarem o Estado saudita. Acha que iremos descobrir algo mais sobre um eventual papel de Riade nos atentados de há 15 anos?
Não acho que a Arábia Saudita tenha desempenhado qualquer papel nos atentados de 11 de Setembro. O que o Congresso fez é um enorme erro. Permitir que o Governo saudita seja processado cria um enorme precedente, minando o conceito de imunidade soberana, pilar do Direito Internacional. A partir deste momento pessoas de todo o mundo irão poder processar os Estados Unidos, porque esta estrada tem duas vias. Além disso, os sauditas irão retirar imenso dinheiro dos EUA com medo de ficar sem ele por causa desses processos.

Mas não acha suspeito que dois dos piratas do ar que se instalaram na Califórnia um ano antes dos ataques de 11 de Setembro se tenham encontrado, nesse período, com um membro dos serviços secretos sauditas e com um funcionário da embaixada saudita simpatizante da Al-Qaeda?
Tenho informações de que o agente saudita estava a procurar transformá-los em agente duplos, o que daria acesso direto ao plano da Al-Qaeda. Esse mesmo agente estava a trabalhar em cooperação com a CIA.

Mas isso é ilegal.
É verdade. É por isso que a CIA não disse nada a ninguém.

  • “Parecia que a cidade estava coberta de neve. E de repente as torres caíram”

    Com elas ruiu uma era e começou outra. Um homem em tempos apoiado pelos EUA na guerra contra os soviéticos mobilizou células para desviar os aviões que embateram contra as Torres Gémeas e o Pentágono, faz este domingo 15 anos. Foi a primeira vez na História que o território norte-americano foi atacado. Morreram quase três mil pessoas. Tudo o que aconteceu a seguir, da invasão do Iraque ao surgimento do Daesh e à fuga de centenas de milhares de pessoas do Médio Oriente para a Europa, é uma herança daquele dia. Ao Expresso, sobreviventes recordam o que sentiram há 15 anos e especialistas enquadram a instabilidade dos nossos dias no calendário da “Guerra contra o Terrorismo”, que Bush lançou logo em 2001