Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Chefe da ONU diz que demagogos como Trump usam as mesmas táticas que o Daesh

  • 333

Zeid Ra'ad Al Hussein é o alto comissário da ONU para os Direitos Humanos desde 2014

FABRICE COFFRINI

Numa conferência sobre segurança mundial em Haia, Zeid Ra'ad Al Hussein pediu que sejam encontradas respostas globais contra o populismo e concentrou grande parte dos seus ataques em Geert Wilders, o líder da extrema-direita holandesa cujo partido vai à frente nas sondagens para as eleições de 2017

O alto comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos usou o palanque na inauguração de uma conferência sobre segurança em Haia para pedir mais esforços no combate ao populismo que está a crescer em vários países, chamando “demagogos e fantasistas” a líderes políticos como o holandês Geert Wilders e o britânico Nigel Farage e ao candidato republicano à presidência dos EUA, Donald Trump.

No discurso que abriu o encontro da Fundação para a Segurança, a Justiça e a Paz, Zeid Ra'ad al-Hussein direcionou as suas críticas sobretudo contra Wilders, o líder do Partido da Liberdade (PVV), a extrema-direita holandesa, que neste momento lidera as sondagens de intenção de voto para as eleições gerais de 2017.

No manifesto eleitoral que publicou no mês passado, Wilders promete encerrar todas as mesquitas e proibir o Corão e a imigração de muçulmanos para a Holanda caso vença as eleições legislativas de março. Para Al-Hussein, o líder do PVV usa a “intolerância e fanatismo” como armas políticas, tal como outros populistas que têm conquistado espaço, atenção e fortes apoios do eleitorado no Ocidente.

“Este discurso é dirigido a Geert Wilders, aos seus acólitos e a todos os que são como ele — os populistas, demagogos e fantasistas políticos”, disse Hussein, destacando o líder do PVV, que vai começar a ser julgado a 31 de outubro em Amesterdão por incitamento ao ódio contra marroquinos. “Eu sou um muçulmano que, para confusão dos racistas, também tem pele branca, mãe europeia e pai árabe. E também estou zangado, por causa das mentiras e meias-verdades do sr. Wilders, das suas manipulações e tráfico de medo.”

Sondagens prevêem 37 dos 150 lugares do Parlamento holandês para Wilders o seu PVV, seguido de 23 assentos para o Partido Liberal do primeiro-ministro, Mark Rutte

Sondagens prevêem 37 dos 150 lugares do Parlamento holandês para Wilders o seu PVV, seguido de 23 assentos para o Partido Liberal do primeiro-ministro, Mark Rutte

LASZLO BALOGH/REUTERS

No mesmo discurso, o chefe dos Direitos Humanos descreveu o manifesto do PVV como “grotesco” e disse que Wilders tem muito em comum com o aspirante à presidência dos EUA, Donald Trump, com o primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, com a líder da Frente Nacional francesa, Marine Le Pen, e com o ex-líder do Partido para a Independência do Reino Unido (UKIP), Nigel Farage.

Tanto Wilders como Farage participaram recentemente em comícios de campanha de Trump nos EUA. Primeiro foi a vez do líder da extrema-direita holandesa, que discursou aos apoiantes do magnata xenófobo tornado candidato republicano, em Cleveland, no Ohio. A seguir foi Farage quem viajou até ao Mississippi no final de agosto para declarar a uma plateia de 15 mil americanos que “tudo é possível se suficientes pessoas decentes estiverem preparadas para se erguerem contra o sistema”.

Jonathan Bachman

As táticas usadas por eles, diz o chefe da ONU, são as mesmas que o autoproclamado Estado Islâmico (Daesh) usa para atrair militantes à sua ideologia extremista. “Todos [estes líderes políticos e candidatos eleitorais] tentam recuperar o passado em diferentes níveis, um passado calmo e tão puro na sua forma, em que campos iluminados pelo sol são criados por povos unidos pela etnicidade ou a religião, um passado que, na realidade, certamente nunca existiu em lado nenhum”, disse esta segunda-feira o alto comissário da ONU. “Que não haja dúvidas: certamente não equiparo as ações destes demagogos às do Daesh, mas no seu modo de comunicação, no seu uso de meias-verdades e simplificações, a propaganda do Daesh usa táticas semelhantes às daqueles populistas.”

Para Hussein, esta atmosfera “engrossada pelo ódio”, em que a “discriminação nos locais de trabalho está a acelerar”, em que “crianças estão a ser humilhadas e rejeitadas pelas suas origens religiosas ou étnicas”, pode rapidamente escalar para situações de “violência colossal”.

“Há uma década, o manifesto de Geert Wilders e o seu discurso em Cleveland teriam gerado fúria em todo o mundo. Agora? Agora eles recebem pouco mais que um encolher de ombros e, fora da Holanda, as palavras e planos malignos [do líder do PVV] nem sequer são um assunto. Vamos continuar parados a assistir a esta banalização da intolerância até que alcance a sua lógica conclusão?”