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Internacional

Reino Unido é agora o segundo maior exportador de armas do mundo

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NARENDRA SHRESTHA

Theresa May tentou pressionar os sauditas na cimeira do G20 por causa das violações de direitos humanos que estão a cometer no Iémen, no mesmo dia em que o "The Independent" revelou como a indústria britânica de armas continua a ter no reino sunita um dos seus principais clientes. Este fim-de-semana também viu ser revelado que Donald Trump recebeu dinheiro saudita, um ponto que o magnata tem criticado na rival democrata

A Grã-Bretanha é atualmente o segundo maior fornecedor de armas do mundo e a maior parte das armas que produz e vende está a ser usada nos conflitos sangrentos que estão a varrer o Médio Oriente e que já trouxeram para a União Europeia mais de um milhão de refugiados em desespero.

De acordo com dados governamentais citados numa reportagem exclusiva do "The Independent", desde 2010 o Reino Unido vendeu armas a 39 dos 51 países considerados "não livres" pela Freedom House no seu relatório anual "Liberdade no mundo", sendo que entre eles se contam 22 dos 30 países que o Estado britânico tem incluídos na sua lista de nações que violam direitos humanos.

Durante este período, dois terços do total das armas comercializadas pelos britânicos foram vendidos a países do Médio Oriente, onde a instabilidade política e social aumentou de tal forma nos últimos anos que conduziu à maior onda de refugiados a chegar à Europa desde a II Guerra Mundial.

De acordo com outras estatísticas citadas pelo mesmo jornal e compiladas pelo UK Trade and Investiment, um organismo do Governo que tem como missão promover as exportações britânicas no estrangeiro, o Reino Unido vendeu mais armas nos últimos dez anos do que a Rússia, a China ou França, sendo ultrapassado apenas pelos Estados Unidos.

Os ministros responsáveis pela emissão de licenças de exportação de armas dizem que o atual sistema funciona e que já revogaram as autorizações de exportação de equipamentos de defesa no passado, por exemplo para a Rússia e para a Ucrânia. Mas entre os principais clientes da indústria de armas britânicas continua a contar-se a Arábia Saudita, um regime que é acusado por vários Governos internacionais e organismos transnacionais como a ONU de crimes de guerra e de graves violações de direitos humanos no contexto da guerra no Iémen.

Arábia Saudita é acusada de bombardear deliberadamente hospitais e fábricas de comida no Iémen

Arábia Saudita é acusada de bombardear deliberadamente hospitais e fábricas de comida no Iémen

KHALED ABDULLAH / REUTERS

Tanto o Parlamento Europeu como o Comité de Desenvolvimento Internacional da Câmara dos Comuns já exigiram formalmente ao Reino Unido que suspenda a exportação de armas para os sauditas, mas o Governo continua a dizer que não tem provas de que o regime sunita esteja a cometer crimes de guerra no país da península arábica onde tem estado a apoiar o Governo no exílio e a combater os rebeldes xiitas hutis.

Este domingo, no mesmo dia em que o "The Independent" revelou o peso do Reino Unido nos jogos de guerra atualmente em marcha, a primeira-ministra britânica fez uso do seu encontro com os líderes sauditas na cimeira do G20 na China para pressionar o regime sobre as violações de que é acusado — mas segundo fontes citadas pelo mesmo jornal apenas num contexto "mais abrangente de direitos humanos".

De acordo com a ONU, mais de 6400 pessoas, na sua maioria civis, já morreram desde que os sauditas começaram a bombardear o território iemenita há mais de um ano. A campanha já levou também a que 2,8 milhões de pessoas fugissem das suas casas, deixando mais de 80% da população vulnerável e em urgente necessidade de ajuda humanitária.

A coligação liderada pelos sauditas é acusada de bombardear hospitais internacionais geridos pelos Médicos Sem Fronteiras, bem como escolas e festas de casamento. Fábricas de produção alimentícia também têm sido alvos preferenciais da coligação, numa altura em que a fome está a generalizar-se e a matar milhares no Iémen. Ativistas no terreno dizem que estes têm sido alvos "deliberados" dos ataques sauditas.

David Becker / Nancy Wiechec / Reuters

Do outro lado do Atlântico, a Arábia Saudita também fez manchetes este fim-de-semana após o "Daily Beast" revelar que Donald Trump recebeu dinheiro do reino. De acordo com um artigo publicado no site da revista norte-americana, o magnata do imobiliário tornado candidato republicano à Casa Branca vendeu ao regime saudita o 45.º andar da sua Torre Trump, em Nova Iorque, em 2001, por 4,5 milhões de dólares, uma série de apartamentos que seriam mais tarde utilizados pelo país para albergar os seus diplomatas da ONU.

A revelação vem manchar ainda mais o currículo do populista xenófobo, que tem aproveitado as revelações de que a ex-secretária de Estado Hillary Clinton, recebeu dinheiro da Arábia Saudita — através da fundação que criou com o marido e ex-Presidente dos EUA, Bill Clinton — para lançar ataques à rival democrata.