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Wagner Moura: “O meu país está a viver o pior momento desde a ditadura”

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Maarten de Boer/Getty Images

Os novos episódios de “Narcos” chegaram esta sexta-feira ao Netflix. Mas, mais do que interpretar vilões, o ator brasileiro gosta de refletir sobre o que está por trás de cada período da história. por isso, vai realizar um filme sobre a resistência à ditadura no Brasil

João Miguel Salvador

João Miguel Salvador

em Londres

Jornalista

Como é que se preparou para o papel de Pablo Escobar?
O que eu tentei fazer no início, quando o papel me foi entregue, é algo que julgo ser o mais correto quando se lida com uma personagem que existiu na vida real. Não o quis julgar, quis entendê-lo. Claro que eu já tinha uma forte convicção quanto a este homem, já sabia a sua história e o que ele tinha feito, mas ainda faltava perceber a sua dimensão humana. Ele era uma pessoa muito interessante e complexa. Não me pude esquecer, em momento algum, que se tratava de uma alguém muito mau, com uma ambição sem limites, mas que olhava pela família.

Pegar numa personagem real que existiu há muitos anos é mais fácil do que entrar numa história cujas repercussões ainda se sentem...
Claro. Trata-se de algo muito recente — aconteceu tudo há apenas 25 anos — e desde aí que a história da Colômbia se divide em dois períodos: antes de Pablo e depois de Pablo. As pessoas que sofreram às mãos de Escobar e dos seus sicários têm de ser respeitadas. Houve famílias destruídas, muita gente morta de forma cruel. O país ficou desfeito com esta guerra e embora “Narcos” não seja um documentário, é ficção, teve de ser construído como tal. Fizemo-lo com todo o respeito pela história do país.

Mas as reações à série na Colômbia não foram as melhores...
Eles estão fartos de histórias sobre droga, estão fartos de mostrar o passaporte num aeroporto e lhes dizerem: “Oh, Colômbia, cocaína.” O país de hoje não tem nada a ver com o desse tempo. Desde o fim da guerra que foi completamente reconstruído. Bogotá era a cidade mais perigosa do mundo nos anos 80 e transformou-se numa cidade vibrante, cheia de cultura e de coisas boas para fazer e aproveitar. Não podem rejeitar o passado, mas voltar a um passado negro não é fácil e tiveram de se reerguer.

A série mudou a forma como olha para a Colômbia?
Sim, mas mais do que isso mudou a forma como olho para mim próprio. Aprendi muito durante esta série, foi uma grande experiência na minha vida. E digo vida, não falo de carreira. Nascer no Brasil é ser brasileiro e nada mais. O Brasil está muito isolado dos países vizinhos, vive à margem, mas eu agora já não me sinto apenas brasileiro, sinto que faço parte de algo muito maior. Sou latino-americano.

“Narcos” não é apenas sobre Pablo Escobar, é sobre a forma como o tráfico cresceu em determinado momento. Como vê a questão das drogas na atualidade?
Sempre achei que as drogas deviam ser legais e ao estudar o início do tráfico de droga em grande escala e a forma como foi combatido só fiquei com mais certezas. Estou 100% seguro de que todas as drogas deviam ser legais. Como é que isso pode ser feito eu não sei, até porque não sou nenhum especialista na área, mas é muito claro para mim que o combate às drogas foi um grande flop. Especialmente nos países que produzem e exportam. A guerra às drogas não acontece nos Estados Unidos ou nos países em que são consumidas. A luta é travada no México, na Colômbia, no Brasil, no Peru, na Bolívia. É lá que os jovens são mortos em bairros pobres. E isso é horrível.

Ganhou muito peso para se transformar em Pablo Escobar. Ele passou a fazer parte de si?
É verdade e já estou a tratar disso agora. Mas perder peso não é apenas perder peso e voltar às minhas formas normais. É livrar-me de Pablo. Tirá-lo de dentro de mim. Vivi dois anos com este corpo que não é o meu, com esta energia que não me pertence. Mas nunca me senti como alguns atores descrevem. Dizem que levam a personagem para casa, que não se conseguem desligar. Não me aconteceu, continuei a conseguir ir beber uma cerveja no final do dia de filmagens e agir naturalmente, como Wagner.

E depois desta limpeza, o que se segue?
Vou realizar um filme no Brasil, algo que já estava a produzir antes de entrar em “Narcos”. É a história de Carlos Marighella, um guerrilheiro da resistência à ditadura brasileira nos anos 60 e 70 que chegou a ser considerado o inimigo número um do regime. É a minha primeira longa metragem e agora é essa a minha prioridade. O guião tem sido a maior dificuldade porque não quero começar a gravar com inseguranças.

É possível fazê-lo no Brasil, num momento como este?
É claro que preciso de financiamento para avançar e não é fácil encontrá-lo, especialmente num momento difícil como o que o Brasil está a atravessar agora. Ainda por cima quero fazer um filme sobre um comunista.

Como vê a atual situação brasileira?
Não está nada fácil. O meu país está a viver o pior momento desde a ditadura e não nos podemos esquecer que o Brasil é uma democracia muito jovem. Só nos livrámos da ditadura militar em 1985. É tudo muito recente e a democracia é frágil. Desde esse tempo, houve grandes melhorias e não posso deixar de reconhecer o esforço dos governos de Lula da Silva e de Dilma Rousseff. O maior problema dos países latino-americanos, especialmente do Brasil, são as diferenças sociais e estes dois políticos tiraram milhões de pessoas da miséria.

Continua a apoiá-los?
Não, eu não os apoio neste momento. Não acho que Dilma seja uma boa Presidente e nem sequer votei nela, mas o que aconteceu no Brasil nos últimos meses é algo muito próximo de um golpe. A diferença está na forma, pois tudo aconteceu sem a força, sem os militares e sem a violência de outros tempos. Destituíram uma Presidente sem qualquer motivo. Reforço que não era uma boa Presidente, mas este é um golpe demasiado grande para uma democracia tão frágil.

Como é que o Brasil está a reagir?
Através da resistência. A primeira medida do governo de Michel Temer foi acabar com Ministério da Cultura e sabe porquê? Porque os artistas são a maior força de resistência ao golpe. A resposta não se fez esperar e decidiu-se que era preciso ocupar as instalações do Ministério nas maiores cidades brasileiras. O governo voltou atrás com a decisão, mas agora só saímos quando Michel Temer sair do poder.

O Expresso viajou a convite da Netflix