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“A família real defendia a paz com a Alemanha, não queria o Churchill”

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ALEMANHA. Adolf Hitler, tendo à esquerda os duques de Windsor e à direita Robert Levy, dirigente da Frente de Trabalho Alemã. Foto tirada em Obersalzberg a 22/10/1937

Heinrich Hoffmann/Getty

Andrew Morton, biógrafo de celebridades e autor de “17 Cravos: A Realeza, os Nazis e o Maior Complô da História” sobre a misteriosa história do duque de Windsor, vem a Cascais participar num debate

Conhecido como “o biógrafo de Diana”, ou seja, coinventor de um dos mitos modernos, Andrew Morton escreveu também biografias de estrelas de Hollywood e de outras celebridades, livros que os biografados nem sempre apreciaram. “17 Cravos: A Realeza, os Nazis e o Maior Complô da História” (Texto) revisita a abdicação, em 1936, do duque de Windsor, que foi brevemente Eduardo VIII, episódio que envolve amantes, aristocratas, historiadores, espiões, e que também passa por Lisboa e Estoril. Com um pé na História e outro no agressivo jornalismo de investigação ao jeito britânico, Morton interessa-se pelo modo recíproco como as instituições moldam as pessoas e as pessoas determinam as instituições, nem sempre de modo benéfico. Num hotel posh em Whitehall, centro de Londres, a dois passos do Parlamento, conversa descontraidamente sobre a curiosidade natural com que interrogamos a vida dos outros, sobretudo quando julgamos que os conhecemos. Conversa acabada, passa por nós, com algum espalhafato, Boris Johnson, o exótico ministro dos Negócios Estrangeiros britânico. “Hello, Boris”, cumprimenta Morton. O ministro, que já teve a sua dose de biógrafos, afasta-se sem responder. Andrew Morton é um dos convidados do Festival Internacional de Cultura, em Cascais, e estará presente no debate “Escrever a própria vida ou a vida alheia”, dia 15 de setembro, que terá lugar a poucos metros da Casa da Santa Maria, antiga propriedade de Ricardo Espírito Santo Silva, onde o duque de Windsor chegou a passar férias.

Basta entrar numa livraria inglesa para percebermos que não há nenhum país que tenha mais biógrafos e biografias.
É a maior contribuição literária que a Grã-Bretanha fez ao mundo. Creio que é porque nos focamos muito no indivíduo. Por exemplo, os retratistas ingleses também têm fama internacional. E a biografia tem que ver com o nosso fascínio pela História, é uma maneira de compreender e apreciar a História de uma forma não demasiado filosófica.

Há casos muito conhecidos, como o de Richard Ellmann que escreveu biografias sobre Joyce e Wilde que ainda são as biografias-padrão, muitos anos depois. E políticos, como o Roy Jenkins, também escreveram grandes biografias. É mais fácil trabalhar numa cultura que valoriza tanto os biógrafos ou a fasquia é muito alta?
É uma pergunta muito interessante. Estive no Quénia há uns anos, e escrevi a biografia do Presidente Daniel arap Moi. O que me fascinou foi que quando se escreve uma biografia acerca de alguém famoso, no Ocidente, há uma espécie de reticência instintiva. As pessoas estão cientes dos jornais, da televisão, quando respondem às nossas perguntas. No Quénia, quando entrevistei as pessoas, falavam do Presidente (que, se acreditarmos nos seus opositores, era um ditador implacável) de uma forma muito aberta. Foi uma coisa que me impressionou.

BEN STANSALL/AFP/Getty Images

Há muitas discussões sobre biografias “autorizadas” e “não-autorizadas”, e as pessoas têm tendência para rotular imediatamente uma biografia autorizada como um trabalho publicitário e a não-autorizada como uma empreitada maldosa.
Eu prefiro sempre dizer “biografia independente”, mais do que “autorizada”. Para ser honesto, descobri que assim que nos dedicamos a um assunto, e já escrevi biografias autorizadas e não-autorizadas, acabamos por seguir a mesma trajetória. Porque as entrevistas que fazemos, o trabalho que fazemos, tende a levar-nos a um determinado caminho. E é um caminho que não podemos evitar. Por exemplo, a minha biografia do Tom Cruise foi decididamente independente pela simples razão de que ele é um cientologista, e os cientologistas são propagandistas. E naquela altura ele estava a trabalhar para promover as ideias da Cientologia dentro do Governo americano. Tinha reuniões com senadores, com congressistas. E eu queria olhar para aquilo, recuar um pouco. E creio que tive bastante sucesso, porque as pessoas tiveram a oportunidade de o ver sob outra luz. Por exemplo, ele disse que não conseguia ler quando tinha 18 ou 19 anos, e que só aprendeu a ler corretamente quando se juntou à Cientologia. Bom, isto é de loucos. Contactei antigos professores dele, que me disseram: sim, ele era disléxico, mas a sua dislexia terminou quando tinha 12 ou 13 anos. A história toda é absurda. Agora, eu não estava a ser maldoso, estava apenas a seguir as entrevistas, a informação, a retirar conclusões. Muitas vezes descobri que somos arrastados para estas conclusões quase contra a nossa vontade.

Começa por simpatizar ou antipatizar com o biografado que escolhe?
Depende. No caso do Tom Cruise foi: este homem, que foi a maior estrela de Hollywood, o que é que o impeliu a juntar-se a esta organização? Eu estou interessado na trajetória da vida de alguém. Pode ser uma celebridade, um político, um membro da família real. Estava interessado em saber por que motivo alguém que estava no caminho ascendente, no topo, porque sentiu necessidade de se juntar àquela organização? Com a Angelina Jolie, é uma trajetória diferente, como é que se passa de alguém que está afastada do pai, toxicodependente, a embaixadora das Nações Unidas? O material da Diana foi o mais difícil de todos. Foi o livro mais autorizado que já fiz [risos]. E tinha de parecer que não era autorizado [risos].

E como se sente quando os seus biografados o criticam ou ameaçam com processos?
Bom, os cientologistas ficaram muito zangados, mas eles ficam histéricos em relação a todo o tipo de críticas.

Mas quando os biografados ficam incomodados sente que fez bem o seu trabalho?
Não. É inevitável. Se espicaçar um crocodilo ele vai abrir a boca. Mas há pessoas sobre as quais se pensa duas vezes quanto a escrever uma biografia. Putin, por exemplo.

Recentemente houve um caso no Brasil em que vários artistas tentaram basicamente que os tribunais transformassem todas as biografias em biografias autorizadas. E perderam. Eles diziam que os biógrafos estavam a invadir a vida privada. Isso mostra como as celebridades, as estrelas, os políticos, se sentem muito ameaçados. Consegue sentir empatia com essa apreensão? E consegue imaginar ser o alvo de um biógrafo e não querer ter nada que ver com isso?
Aí há duas questões. Uma é que na Grã-Bretanha a biografia de celebridades está morta porque as leis de difamação são tão ferozes que os meus últimos livros, sobre o Tom Cruise e sobre a Angelina Jolie, não foram publicados. Na Grã-Bretanha agora só há biografias autorizadas, porque os publicistas dos famosos usaram os tribunais para ameaçar quem tente escrever biografias independentes. As leis são muito favoráveis aos queixosos. Portanto, desapareceram as biografias e apareceram os escritores-fantasmas das celebridades. Alguns são bem-sucedidos, mas a maioria é um fracasso. Sinceramente, acho que as biografias mais bem-sucedidas, tanto autorizadas como não-autorizadas, são aquelas em que os biografados não interferem. Dou três exemplos das coisas que já fiz. A Monica Lewinsky não interferiu, e o livro é bastante crítico do seu comportamento. O Daniel arap Moi não tentou alterar nada. E a Diana até leu o manuscrito.

Seria interessante para si escrever uma biografia sobre alguém que não fosse conhecido?
Já me fizeram essa pergunta algumas vezes. Já tive vários candidatos ao longo dos anos, mas acaba sempre por me parecer pouco estimulante. Tenho alguns amigos que são personagens extraordinárias e que me dizem: “Quando for a altura certa, podes escrever a minha biografia.”

Todos os seus livros são, obviamente, sobre pessoas, mas também são sobre instituições, como Hollywood ou a monarquia. A parte institucional dessas vidas tão diferentes interessa-lhe?
Sim, absolutamente, essa é a questão. Alguém que não vivia num palácio passa a viver num palácio, como é que se adapta? E não é apenas uma questão para a princesa Diana, foi uma questão para Fergie, duquesa de York, foi uma questão para Catherine Middleton. Podemos traçar a mudança na instituição pela forma como estas pessoas, que nunca viveram daquela forma, lidam com a instituição. E com a adulação, com a publicidade.

Este seu novo livro, “17 Cravos”, trata um tema bastante famoso, mas centra-se num aspeto menos conhecido, o de uns ficheiros desaparecidos. Foi o encobrimento que suscitou o seu interesse?
O ponto de partida era a descoberta das caixas, uma lata de alumínio numa floresta. Havia referências vagas a isso nas biografias oficiais, e isso sempre me intrigou. O meu livro ia ser sobre a descoberta dos ficheiros. Mas passados os primeiros meses percebi que a história, a verdadeira história, estava encoberta, e era sobre como é que o Governo britânico tentou impedir que esses documentos respeitantes ao duque de Windsor fossem conhecidos. Isso levou-me a pensar na relação dele com Hitler. Hoje há uma geração que já não sabe nada sobre o passado recente. No outro dia uma mulher perguntou-me: “Escreveu um livro sobre a princesa Diana? Quem foi ela?”

Um aspeto interessante do livro é percebermos como algumas coisas se repetem: um príncipe que quer ser um modernizador, uma crise na instituição real por razões sentimentais. Mas também há um aspeto totalmente diferente, que é o papel da imprensa. A imprensa britânica da época evitava estes assuntos.
Desde fevereiro de 1935 que a Scotland Yard estava a observar Wallis Simpson. O público em geral não sabia nada sobre o que se estava a passar no seio da família real, nada sobre o que se passava com Wallis. O choque aconteceu com a abdicação. Essa é uma primeira camada. A segunda camada foi o que se pode chamar a sociedade londrina, que estava consciente da existência da senhora Simpson. E depois temos a camada superior, que eram aqueles amigos de Eduardo e Wallis, os cortesãos, os políticos. Uma mão-cheia de gente que sabe realmente o que se passa. Uma camada de pessoas que estão rodeadas de rumores. E a maior camada de todas, os britânicos comuns, que não sabiam nada.

O duque de Windsor, antes de ser rei por uns meses, é uma espécie de estrela de cinema, um príncipe da idade do jazz, um melancólico que gosta de se divertir. Enfim, é uma personagem interessante. Mas depois, na segunda metade da vida, começa a interessar-se apenas por jardinagem, bisbilhotices e golfe. Era ou não um homem interessante?
Foi-se tornando desinteressante à medida que o tempo passou. E acho que isso aconteceu porque ele não fez mais nada o resto da vida. Vivia aterrorizado pela ideia de pagar impostos e por isso instalou-se em França. Depois da abdicação ele parecia decidido a ser um agente político mundial. Foi à Alemanha, bem ou mal, investigar as políticas de habitação social alemãs. Era para ter ido à América fazer a mesma coisa. E depois à Finlândia e à Rússia. Ele via-se muito como a Diana se via a si mesma, já não era a princesa de Gales mas, como me lembro de lhe dizer, “a princesa do mundo.” E o duque via-se um pouco como um embaixador ambulante. Mas depois da guerra só jogava bridge e póquer, a vida dele transformou-se numa triangulação enfadonha entre o sul de França, Paris e Palm Beach.

Há muitos aspetos na crise da abdicação, os políticos e os privados. E os privados também são políticos, no caso de um rei. Por um lado temos a simpatia para com a Alemanha, a crença de que o nacional-socialismo era bom para as classes trabalhadoras. Convicções arriscadas...
Nem por isso, porque ele não era o único, de maneira nenhuma.

Mas para o Governo isso foi muito problemático, especialmente no início da guerra.
Sim, claro, se fosse rei. Se tivesse permanecido rei, sabe Deus o que teria acontecido. O Churchill ter-se-ia tornado primeiro-ministro? A família real defendia um apaziguamento com a Alemanha, não queria o Churchill. Toda a narrativa da história da Grã-Bretanha podia ter mudado se Eduardo VIII tivesse ficado no trono. Pergunta-me porquê a importância da biografia: aí tem a resposta. Estas decisões individuais podem ter um enorme alcance.

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Ofereceram a Eduardo todo o género de princesas da Europa como noivas, incluindo uma candidata alemã, porque Hitler queria cimentar a relação entre a aristocracia alemã e o trono inglês.
Isso foi uma jogada antiquada, foi um regresso à rainha Vitória.

Mas depois ele escolheu uma plebeia, uma americana divorciada duas vezes. E uma mulher pouco atraente. Acha que esse aspeto é importante? Se ela fosse bonita a história seria diferente?
Penso que tem razão, e isso ressoa através da História: se uma mulher não era bonita, qual era a atração?

Quando as pessoas falam do príncipe Carlos e de Diana, não conseguem evitar dizer coisas desagradáveis acerca do aspeto físico de Camilla Parker-Bowles.
Correto. As mulheres são julgadas pelo seu aspeto, os homens são julgados pelo que dizem. A Wallis não era atraente à primeira vista, mas tenho filmes caseiros dela, quando está em Balmoral, quando está num cruzeiro na Irlanda, e, como disse muito bem o fotógrafo Cecil Beaton, quando ela sorri toda a cara se ilumina. E isso é difícil de transmitir. Ela torna-se muito atraente quando se movimenta. Quando está sentada não é particularmente atraente, mas quando se movimenta, quando se anima, tem qualquer coisa que se afirma, está cheia de vida, de alegria, de divertimento. Está sempre bem-disposta, está sempre pronta a desatar à gargalhada.

A oposição ao casamento levou ao estonteante discurso em que o rei anuncia: se não posso ficar com a mulher que amo, abdico. Era a primeira vez que tal coisa acontecia. Isso tem que ver com um aspeto que aparece sempre mencionado a propósito da princesa Diana: os membros de uma família real podem ter expectativas normais quanto à felicidade pessoal, ou devem cumprir o dever acima de tudo?
Essa foi a primeira crise do género. Ele queria ser ele próprio, em vez de seguir o dever e o sacrifício. O dever e o sacrifício eram as normas de comportamento, estavam no ADN da família real. Mas Eduardo VIII sentia-se como que dissociado da sua família e da instituição. E embora tenha feito o trabalho que lhe competia, quando viajou à volta do mundo, sentiu sempre que estava a representar um papel. E já não queria representar esse papel. Diana não quis seguir esse caminho. O príncipe Carlos esperava que ela sacrificasse a vida para que ele pudesse usufruir da sua com Camilla. E ela ficaria em casa a tomar conta das crianças e ocasionalmente teria os seus amantes, de uma forma muito antiquada. Essa é a grande fratura entre Diana e Carlos. O príncipe Carlos, certo ou errado, estava conforme à tradição; Diana, à sua maneira, era uma mulher mais moderna. Por muito ingénua que fosse na altura, evoluiu rapidamente para essa posição.

O duque de Windsor manteve conversas e exprimiu opiniões discutíveis, visitou a Alemanha, mas nada que se aproxime da ideia de “traição”. Mas as pessoas viam Wallis como traidora, espia. Não há verdadeiramente provas disso...
Não há provas. Mesmo o título, os “17 Cravos”: [o ministro nazi] Ribbentrop enviou-lhe 17 cravos? Pode ter enviado um bouquet. Pessoas que trabalhavam para Wallis foram citadas pelos jornais dizendo que ela recebeu braçadas de flores. Mas o ponto que queria sublinhar, tanto com o título como com esta coisa de ela ser uma bruxa, uma espia, de saber técnicas sexuais chinesas, tudo isso, bem, isso é o medo do arquétipo da mulher. Ela é um arquétipo, é uma sedutora, uma Cleópatra. Na altura as pessoas ficaram perplexas pela razão que mencionou há pouco: o que é que ele via nela? Não era bonita, e hoje sabemos que nem tinha sexo com ele. Era como se ele se casasse com a governanta. Ela estava mais preocupada com os puzzles e com os menus.

E a questão não é apenas ele ter casado com ela, é a perceção que todos tinham de que ela era muito influente. De que ele fazia o que ela o mandava fazer.
Exato. E que tinha acesso às “caixas vermelhas” dos documentos oficiais. As pessoas do establishment não tinham ideia do que é que se estava a passar. Pensavam: “O que é que o príncipe está a fazer com esta mulher, que não é de lado nenhum, não é uma de nós, tem um marido que está sempre em Hamburgo. Estará a chantageá-lo? Porque é que ele está com ela, o que vê nela? Não é uma lady, não é uma duquesa, não faz parte da nossa sociedade. Quem é esta pessoa, que influência tem?” Como não sabiam, puseram um detetive atrás dela.

Isso lembra outro episódio da vida britânica no qual a vida privada e a vida pública colidem: o caso Profumo. É uma situação diferente...
Bom, ele mentiu no Parlamento, isso é totalmente diferente.

Mas é outro caso em que a vida privada de uma figura pública se tornou um assunto de Estado.
Claro. O duque de Windsor foi completamente ingénuo ao pensar que tinha uma vida privada. Toda a noção de privacidade, para qualquer figura pública, para um aristocrata, especialmente para um soberano, era uma ideia relativamente nova, uma ideia muito burguesa. O Henrique VIII, quando teve sexo na primeira noite, com a sua primeira mulher, toda a corte estava à volta da cama. Quando a rainha teve um bebé, todo o séquito estava lá para ver o bebé nascer. Desde o momento em que nasciam até ao momento em que morriam eram observados, porque eram figuras públicas. Os astecas escolhiam uma pessoa que podia ter tudo o que queria durante um ano, e ao fim de um ano o seu coração era arrancado e sacrificado ao deus Sol. Sempre pensei na realeza assim. Eles, sem saberem, renunciam a tudo, a todos os aspetos da privacidade, porque as suas vidas são públicas. E o duque de Windsor recusou-se a acreditar nisso. Ele genuinamente pensava que de segunda a sexta podia ser rei, e que aos fins de semana podia estar com a senhora Simpson. E na verdade isso podia ter funcionado se ele não quisesse casar com ela. Se ele tivesse simplesmente dito: “OK, não casamos mas vais ser minha amante.” Isso não teria problema.

A crise gerou duas reações, ambas, a seu modo, tentativas de proteger a monarquia. Temos a família real que considera Eduardo uma ovelha negra, que não vai ao casamento, que não quer nada com ele. E temos Churchill, que tinha um fraquinho por ele, e tenta defendê-lo, por vezes muito embaraçado.
Nessa altura, o Churchill estava relegado às filas de trás do Parlamento. Era um estadista sénior que tinha perdido o seu caminho. Tinha nascido num palácio, o pai era da aristocracia, conhecia reis, rainhas. E pensou que era o homem que ia salvar a Grã-Bretanha, a monarquia e o seu amigo Eduardo, que via como um segundo filho.

Imagina um cenário de história alternativa em que Eduardo fosse um ditador “benigno” tendo como primeiro-ministro [o líder fascista britânico] Mosley?
Bom, não é assim tão rebuscado. Tenho a certeza de que [o ex-primeiro-ministro liberal] Lloyd George faria de Pétain.

Aliás, cita Lloyd George, que disse que Hitler era um George Washington germânico.
É por isso que acho este período tão interessante. Se tivéssemos feito as pazes com a Alemanha, Eduardo podia ter voltado ao trono, Lloyd George seria primeiro-ministro, o apaziguamento teria triunfado. Acho que podia ter sido assim. A política internacional alemã nos anos 30 era brilhante. Era muito direta mas inteligente. Tentaram levar as elites para o seu lado, usando nomeadamente o antissemitismo crescente.

Podemos perceber que o rei abdicasse para estar com a mulher que amava, mas é muito difícil aceitar a visita à Alemanha, mesmo considerando a simpatia que Hitler tinha em certas partes da sociedade britânica. Ele não estava consciente de que estava a criar uma enorme crise? Ou não queria saber?
Estava consciente. Ele foi à Áustria e ficou lá como convidado por seis meses, em 1936, até ao seu casamento, e quando Hitler marchou sobre a Áustria ele não levantou um dedo, e continuou a visita à Alemanha. E eu digo-o no livro: foi porque queria mostrar à mulher como era ser rainha.

É curioso porque nas suas viagens, já depois da abdicação, Eduardo era tratado como se ainda fosse rei.
As pessoas não sabiam bem o que fazer. Em França, Wallis era sempre apresentada como “Sua Alteza Real”. E, na Alemanha, as pessoas faziam vénia. Era mais vezes tratada como realeza fora da Grã-Bretanha do que dentro.

Depois chegamos ao episódio de Lisboa, que é como uma história de James Bond. Aliás, Ian Fleming andava pelo Estoril nessa altura. Fala-se de um complô para um rapto, um complô para matar Eduardo, fala-se de um encontro com Rudolf Hess.
Temos os documentos do Ministério dos Negócios Estrangeiros, temos as comunicações do embaixador alemão em Lisboa, e do embaixador alemão em Madrid. E há os memorandos que se encontraram nos arquivos russos. Esses complôs existiram. Mas como digo no livro, isso do Hess são os historiadores a apimentar um caso que já era suficientemente apimentado.

O anfitrião do duque em Portugal foi Ricardo Espírito Santo Silva. Em Portugal, como em todo o lado, havia empresários e banqueiros que estavam com a Alemanha por razões ideológicas, mas outros que apenas queriam fazer negócios.
É a realpolitik. O dr. Silva era um homem de Salazar mas apoiava também os britânicos.

As autoridades portuguesas cuidaram bem do duque em Lisboa. Mantiveram a imprensa à distância, o diretor da polícia política encarregou-se pessoalmente da segurança. Isto espelha um pouco a ambiguidade do regime português, que tinha germanófilos, anglófilos, e que mantinha uma posição oficial de neutralidade.
É isso. Portugal estava financeiramente de joelhos, não tinha exército, a última coisa que queria era atrair a atenção dos alemães. Toda a Península temia a guerra. E Salazar foi muito inteligente no sentido de que não queria atrair atenções. Se tivesse sido muito barulhento sobre o seu apoio ao duque de Windsor podia ter atraído os nazis e nunca saberíamos o que teria acontecido. Ele viu o que aconteceu noutros países onde a fação pró-Alemanha colocou todo o tipo de problemas e derrubou o regime, como aconteceu na Áustria.

O duque de Windsor tinha responsabilidades especiais, mas a sua opinião era mais representativa do que podemos pensar. Havia bastantes pessoas pró-alemãs entre os seus amigos aristocratas, pessoas que não estavam interessadas em entrar na guerra, que estavam mais preocupadas com o comunismo do que com o fascismo.
Tudo isso é verdade. Mas creio que se sentiram sobretudo desapontados. É quase como o Usain Bolt, o melhor corredor do mundo neste momento: “Consigo correr 100 metros em cinco segundos, mas não vou fazê-lo. Desculpem, tenho mais que fazer, vou dedicar-me à jardinagem.” Ele era um homem que tinha sem dúvida o carisma, os dotes, a preparação. Tinha feito grandes viagens pelo império, era venerado, e basicamente era-lhe permitido fazer o que queria. E, no entanto, quando chega a altura diz: “Não, não quero ser rei. Sorry, guys. Ponham o gago no trono, o tipo que não é muito esperto”. Em vez do glamour, uma sombra. Por isso é que a família real ficou tão furiosa, porque se sentiu dececionada. E depois, para quê? Conheceu esta mulher, mas ela não é a mulher mais bonita do planeta. Havia um grande sentido de desapontamento no establishment. E depois, ele não foi o único, como disse, que era pró-Alemanha. Era pró-Alemanha e era antissemita, como muita gente na aristocracia britânica.

Parece que não é tão importante quem é que tem direito a ser rei, mas quem tem carisma para isso. Mas o carisma é uma virtude, digamos assim, democrática.
Sim. De vez em quando agora fala-se em “saltar uma geração”. O príncipe Carlos não é tão carismático como o príncipe William ou até como o príncipe Harry. Mas isto não é um concurso de beleza. Temos o que temos. No caso de Eduardo, havia a sensação na boa sociedade de que este homem, que tinha tantos privilégios, não queria fazer o seu trabalho, não cumpria o seu dever. Queria ser governador das Bahamas? Não, achava que era uma Santa Helena [a ilha em que Napoleão esteve preso]. Quando esteve no Norte de França, passou mais tempo a tentar libertar um chef francês do que a trabalhar para o exército.

É um paradoxo porque ele também não quer comportar-se como uma pessoa normal. Ele gostava de uma vida boa, faustosa.
E isto leva-nos àquela sua pergunta: ele torna-se menos interessante à medida que os anos passam. Ela torna-se interessante porque o governa a ele. Ela é a rainha daquele domínio, ele encolhe. Assim que tira o manto de monarca, encolhe fisicamente, e encolhe a sua presença no mundo. Ele não fez nada depois da guerra. De 1945 até à sua morte, o que é que fez? Escreveu um par de livros, jogava golfe religiosamente, podia ter feito muito mais. Pensemos na princesa Diana. Quando já não queria fazer parte da família real, tentou usar a sua posição e o seu estatuto para fazer alguma coisa positiva. E estava a fazer. O tema das minas terrestres desapareceu quando ela morreu, foi ela que o suscitou. Eduardo tinha carisma na Grã-Bretanha mas também na Alemanha, onde o viam como o homem que traria a paz. E na América foi usado pela direita que era contra a entrada na guerra.

Lindbergh, o aviador, também era pró-nazi.
Sim, e a estrela dele caiu muito rapidamente por causa disso. Eduardo tinha tremendas possibilidades, não era um tipo normal, substituível. Ele foi o primeiro príncipe da época da celebridade. Quando tinha 21 anos e comprou um bilhete para Nova Iorque, as pessoas ficaram mortificadas. Os príncipes sempre atraíram esse tipo de atenções, mas não na Grã-Bretanha vitoriana, em que, como disse o próprio Eduardo, o monarca chegava de carruagem, cortava uma fita e ia-se embora.

O encobrimento das atividades de Eduardo nasce de um acordo entre o Governo britânico e o departamento de Estado americano, embora nem tivessem a mesma visão sobre o secretismo. Mas houve historiadores que também ajudaram a silenciar esses episódios.
Falámos da herança tão grande dos biógrafos, e aqui temos grandes historiadores britânicos a tentarem encobrir factos importantes sobre uma figura importante. Ao passo que os historiadores americanos não tinham a mesma deferência para com a monarquia... Para mim isso foi fascinante. Estou a fazer um livro sobre Wallis Simpson e tudo anda à volta da fundamentação: uma informação vem de documentos que existem realmente, ou de um livro que tenta falsificar a verdade? Essa é a questão. Os britânicos queriam destruir documentos do duque de Windsor, e se tivessem jogado com mais inteligência era o que deviam ter feito. Não teriam nada escrito. A partir do momento em que os memorandos oficiais foram conservados, começou um problema.

As autoridades temiam que acontecesse um apocalipse se essas histórias fossem descobertas, mas quando, mais tarde, foram conhecidas, não aconteceu nada de especial.
Mas nessa altura, novembro de 1945, o duque de Windsor podia ter passado por um Quisling [nazi norueguês, que liderou um governo-fantoche]. Era igual.

Não era bem igual.
Bom, era quase igual. A grande diferença entre Quisling e o duque de Windsor foi que Quisling andou a visitar a Alemanha e quando voltou para o seu país tomou o poder. Mas, antes disso, eram percursos semelhantes. No caso de Eduardo, não creio que se tratasse de uma traição, mas foi muito desleal. E a minha questão para si seria: se um oficial militar normal, de Portugal, num conflito com a Alemanha, tivesse em segredo tentado contactar com os alemães para tomar conta das suas posses, ele seria sujeito a algum tipo de disciplina militar? Se estamos em guerra com alguém, estamos a escrever cartas sobre a roupa de cama e as pratas? Na verdade, descobri que os Windsors já tinham escondido todas as suas posses no sul da França, nas montanhas. Portanto, porque é que tinham de contactar os nazis? Se não havia nada para proteger, porquê contactar os nazis? Essa, para mim, é uma pergunta intrigante.

A monarquia é, historicamente, uma ideia pré-democrática, e tem tentado adaptar-se às democracias. Mas estranhamente, uma das suas maiores crises não tem que ver com a questão da democracia política mas com o facto de os monarcas não terem a mesma mundividência de toda a gente. Quando Diana morreu, a rainha pareceu fria, desligada, e as pessoas não compreendiam isso. E no entanto, vinte e poucos anos depois, ela é muito popular, muito respeitada, e não ficou manchada por esse episódio. Tal com Eduardo não ficou grandemente manchado. O casamento e a abdicação são os aspetos mais lembrados da história.
Ele é definido por uma mulher, não por uma coisa que tenha feito. Quanto à rainha Isabel, sempre argumentei que ela não estava a cumprir o arquétipo de mãe. E assim que recuperou o papel de mãe, num discurso, toda a crise... [estala os dedos]. Não era uma coisa de “odiamo-la, queremos que seja destronada”, era “queremos que nos console, que nos diga que não é verdade”.

Coisa que Blair fez.
Blair fê-lo brilhantemente. Balmoral [residência de férias da rainha] é literalmente outro mundo. É como voltar ao tempo da rainha Vitória. Ela ficou lá, com os rapazes, a caçar, enquanto Londres estava febril. Tenho uma tremenda simpatia pela rainha e pelo dilema que enfrentou. Ela tinha de agir como avó em Balmoral, mas tinha que ser a mãe da nação em Londres. E acabou por fazê-lo. O facto de a bandeira não estar hasteada a meia altura, o ter sido retirado o título a Diana, todos esses gestos, as pessoas sentiram-se muito desapontadas com a rainha e com a sua reação.

Há uma citação no seu livro que define a monarquia como uma ilusão que funciona. Tanto a monarquia como a celebridade são de certo modo ilusões que funcionam. É esse o paradoxo que o atrai para todas estas personagens?
Interessa-me o que se passa por trás da máscara. Wallis Simpson usava uma máscara. Mas o que é que se passava atrás da mascara? Curiosamente, Wallis era mais real [royal] do que Eduardo. Era mais contida, sacrificou a vida dela pelo dever de tomar conta dele. E não dizia nada, não contava nada nem às almofadas.

Isso é supostamente uma marca da realeza.
Sim, e nesse sentido ela era bastante real.

O Expresso viajou a convite do Festival Internacional de Cultura

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 27 agosto 2016