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Reino Unido sob pressão para acolher quase 400 crianças presas em Calais

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PHILIPPE HUGUEN

Ativistas que trabalham na "selva" da cidade francesa, na fronteira com o Reino Unido, já identificaram 387 crianças elegíveis para asilo no país vizinho, muitas das quais com familiares a residir em território britânico

Membros de organizações não-governamentais que trabalham na chamada "selva de Calais" dizem já ter identificado quase 400 crianças refugiadas que estão a viver no campo de acolhimento improvisado naquela cidade francesa e que são elegíveis para obterem vistos de residência no Reino Unido.

Os ativistas já lançaram uma campanha para pressionar o Governo de Theresa May para que as crianças sejam aceites no território britânico, muitas das quais têm já familiares a viver no país, avança a BBC. Uma lista com os nomes de todas elas será entregue esta sexta-feira no Ministério do Interior britânico, liderado por Amber Rudd, no dia em que se marca um ano do afogamento de Aylan Kurdi, refugiado sírio-curdo de três anos, que morreu afogado no Mediterrâneo com o irmão de quatro anos, a mãe e dezenas de outras pessoas a 2 de setembro de 2015, ao largo da ilha grega de Kos.

De acordo com fonte do Ministério do Interior, já há planos para transferir 150 destas crianças para o Reino Unido ainda este ano. A campanha pelo acolhimento de mais menores não-acompanhados está a angariar apoios de celebridades como a atriz Vanessa Redgrave, líderes de instituições religiosas e políticos locais, que hoje vão estar reunidos frente ao Ministério em Londres para exigir que o gabinete de May retire imediatamente estas crianças do campo de migrantes.

A atriz britânica Vanessa Redgrave, agora com 79 anos, protagonizou clássicos do cinema como "Blow-up", do realizador italiano Michelangelo Antonioni

A atriz britânica Vanessa Redgrave, agora com 79 anos, protagonizou clássicos do cinema como "Blow-up", do realizador italiano Michelangelo Antonioni

Pascal Le Segretain

De acordo com o grupo da sociedade civil Citizens UK, há pelo menos 800 menores não-acompanhados entre os cerca de sete mil refugiados que estão atualmente a viver em Calais. Dessas, 387 já foram consideradas elegíveis para transferência para o Reino Unido.

Entre elas contam-se 178 cuja situação se enquadra na regulação conhecida como Dublin III, que prevê o acolhimento de menores que tenham ligações familiares ao país em questão e outras 209 elegíveis para visto permanente no Reino Unido sob a chamada Emenda Dubs — uma provisão acrescentada à legislação de imigração britânica proposta pelo trabalhista Lord Dubs e aprovada pela maioria dos deputados do país em maio deste ano, que exige ao Governo que garanta a transferência para o Reino Unido e a prestação de apoio a crianças refugiadas que chegam sozinhas à Europa.

Ativista de longa data pelos direitos dos refugiados, Dubbs chegou ao Reino Unido enquanto criança fugido da perseguição nazi no âmbito do programa Kindertransport e é um dos líderes da campanha em marcha. "Estou profundamente entristecido que, apesar dos meus repetidos pedidos e de outras pessoas, o Governo continue a arrastar os pés no que toca aos compromissos feitos quando a emenda com o meu nome foi aceite", disse à BBC. "Agora que o novo Governo já teve algumas semanas para se instalar após o referendo à União Europeia, deixou de haver desculpas para adiar mais isto. Theresa May e Amber Rudd têm de agir imediatamente."

Esta semana, os Governos do Reino Unido e de França começaram a negociar possíveis alterações ao Tratado de Touquet, que regula as passagens fronteiriças entre os dois países na fronteira do canal da Mancha, onde Calais fica situada, para que a maioria dos requerentes de asilo presos na "selva" possa candidatar-se a vistos britânicos a partir do território francês.