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“O mundo estava ansioso por ajudar. Mas isso não durou nem um mês”

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Paulo Whitaker / Reuters

Esta sexta-feira faz um ano que deu à costa numa praia turca o corpo de Aylan Kurdi, o menino sírio-turco de três anos que se tornou símbolo maior do drama vivido por milhares de refugiados. À BBC, o seu pai, que também perdeu o outro filho e a mulher na travessia do Mediterrâneo, pede à Europa que mantenha as portas abertas aos refugiados

Faz esta sexta-feira um ano que o corpo de Aylan Kurdi, um bebé sírio-curdo de três anos, deu à costa numa praia de Bodrum, na Turquia, tornando-se num dos mais poderosos símbolos da crise dos refugiados e do falhanço da União Europeia em impedir as sucessivas tragédias no mar Mediterrâneo, onde mais de dez mil refugiados já perderam a vida em perigosas travessias desde 2014, segundo contas da ONU.

Em entrevista à BBC, Abdullah Kurdi, que perdeu os dois filhos e a mulher no fatídico 2 de setembro de 2015, pede esta sexta-feira à Europa que não feche as portas aos requerentes de asilo que continuam a tentar alcançar território europeu fugidos de guerras e perseguições em países do Médio Oriente e África.

"Todos os dias penso neles, mas hoje senti como se eles tivessem vindo a mim e eu tivesse dormido com eles, o que me põe novamente triste", conta o pai, único sobrevivente da família Kurdi na tragédia de há um ano, ao largo da ilha grega de Kos. "No início o mundo estava ansioso para ajudar os refugiados. Mas isto não durou nem um mês. Na verdade a situação piorou."

Depois de perder a família, Abdullah Kurdi instalou-se no norte do Iraque

Depois de perder a família, Abdullah Kurdi instalou-se no norte do Iraque

YASIN AKGUL

Na mesma entrevista, Abdullah Kurdi, que foi viver para o norte do Iraque após enterrar a mulher Rihan e os filhos Aylan e Galib em Kobane, na Síria, diz esperar que os líderes mundiais consigam encontrar uma forma de acabar com a guerra na Síria. "A guerra escalou e mais pessoas estão a fugir [do país]. Espero que todos os líderes mundiais possam tentar fazer o bem e travar as guerras, para que as pessoas possam voltar a ter vidas normais."

A família Kurdi mudou-se de Kobane para Damasco, a capital síria, meses antes de tentarem alcançar a Europa em busca de melhores condições de vida e fugidos de uma guerra que já provocou meio milhão de mortos e milhões de deslocados. A imagem do corpo do pequeno Aylan, como se dormisse, à beira do mar numa praia de Bodrum correu mundo e deu mais uma cara à tragédia que, em 2015, trouxe mais de um milhão de pessoas para a Europa.

Desde 2014, quando o número de chegadas ao território europeu pela Grécia e por Itália começou a subir em flecha, é estimado que mais de dez mil pessoas tenham perdido a vida em travessias no Mediterrâneo — onde, esta semana, mais de dez mil pessoas foram resgatadas em apenas 36 horas numa série de operações conjuntas da Marinha italiana e da Frontex com organizações como os Médicos Sem Fronteiras e a Proativa Braços Abertos, de um total de 16 mil pessoas salvas em seis dias.

ARIS MESSINIS

Só este ano, cerca de 115 mil pessoas já chegaram a Itália partindo em botes de borracha da Líbia, quase sempre sobrecarregados. A maioria destas pessoas é oriunda de países africanos como a Eritreia e a Somália.

Em março, um tribunal turco condenou dois homens sírios a quatro anos de prisão pela morte de Aylan Kurdi e de quatro outras pessoas, incluindo a sua mãe e o irmão de quatro anos. Musfawaka Alabash e Asem Alfrhad foram condenados por tráfico humano, mas acabaram por ser absolvidos das acusações de "homicídio por negligência deliberada", aponta a BBC.

O aproveitamento da situação desesperante de milhares de pessoas por redes de tráfico humano tem sido um dos grandes problemas a que a Europa não tem conseguido dar resposta.

Desde a morte de Aylan, Bruxelas alcançou um contestado acordo com a Turquia que ainda não está totalmente implementado e que, apesar de ter reduzido as chegadas à costa grega, fez disparar o número de chegadas — e de tragédias — na rota que liga a Líbia às ilhas italianas de Lampedusa e Sicília. A ONU prevê que pelo menos 170 mil novos refugiados cheguem a Itália até outubro deste ano.

  • Náufragos da humanidade

    Esta criança recolhida pela polícia numa praia da Turquia não chegou à Europa. Afogou-se a caminho do outro lado do Mediterrâneo, o destino de milhares de refugiados que fogem à morte nos países que abandonam. É uma imagem que está a correr e a impressionar o mundo - e tem um movimento associado à hashtag #KiyiyaVuranInsanlik. Que significa o “naufrágio da humanidade”