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O homem condenado a perpétua que Obama perdoou

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Ouviu o tribunal condená-lo a perpétua quando tinha 25 anos. Obama acaba de o perdoar: a lei que condenou Timothy a uma vida inteira na prisão é “datada”. Quando sair em liberdade - só daqui a dois anos - terá 50

Aos 48 anos, Timothy Tyler e a família já não acreditavam que houvesse um final feliz para uma história cheia de percalços e possíveis injustiças. O caso remonta a 1992, quando Tim era um jovem sem objetivos e seguia a sua banda preferida, os Grateful Dead, em digressão, inserido na “cultura das drogas” que existia a par da música. Apanhado pela polícia a vender pequenas quantidades de LSD, à terceira condenação (e sem nunca ter passado um dia na prisão) recebeu a pior notícia da sua vida: devido a uma lei que a Casa Branca descreve como “datada”, teria de passar o resto dos seus dias na prisão. Agora, Obama decidiu libertá-lo – a família espera que ele possa recomeçar, depois de meia vida atrás das grades.

Quando decidiu confessar-se culpado, Timothy Tyler não percebeu os efeitos que aquela declaração teria na sua vida. Estava consciente de que poderia enfrentar muito tempo na prisão – “21 a 27 anos”, confessaria depois – provavelmente com possibilidade de sair em liberdade condicional. O que não esperava era receber uma sentença de prisão perpétua, ele que era um jovem de apenas 25 anos com tudo para viver e um feitio pacífico, sem registo de crimes violentos.

A história remonta a 1994 e tem que ver com uma série de leis específicas, aprovadas pelo Congresso americano durante a “epidemia do crack” da década de 1980, que condenam igualmente quem infringir algumas leis por três ocasiões. Essas leis não salvaguardam circunstâncias como a idade e a saúde mental – caso contrário, todas elas poderiam ter ajudado Timothy a sair mais cedo da prisão. A batalha parecia perdida até esta semana, uma vez que o presidente Obama acaba de garantir a redução da pena a Timothy, hoje em dia com 48 anos – e meia vida passada atrás das grades.

Em 1992, quando foi apanhado a vender LSD a um suposto amigo, Timothy não tinha um emprego ou um objetivo de vida – “procurava qualquer coisa”, confessava em 2015 à “Vice”. Apesar de sempre ter sido bom aluno, era impopular e isolava-se, contando com poucos amigos e acrescentando-se a agravante de sofrer de doenças mentais como psicose e bipolaridade.

Foi num concerto dos Grateful Dead que Timothy pensou ter encontrado o seu rumo, como se a banda e os seus fiéis fãs formassem “uma família que o resto do mundo ainda não tinha encontrado”. Naquela altura, ainda Timothy desconhecia o trabalho daquela que hoje continua a ser a sua banda preferida, testemunhou o ambiente entre os fãs, a forma como montavam um acampamento descrito pela “Vice” como um “mercado de drogas aberto” e lhe ofereciam uma dose gratuita, a ele e a quem passasse.

Uma cultura das drogas

Timothy tomou essa dose. “Foi como entrar numa máquina do tempo.” Ao princípio, nem sequer entrou nos concertos da banda, limitando-se a consumir drogas naquele ambiente que rodeava os locais onde eles tocavam, uma vez que, acrescenta a “Vice”, “o legado musical era tão importante como a cultura das drogas que os rodeava”. Depois, decidiu juntar-se aos fãs da música e cedo aprendeu cada verso de cada canção, juntando-se aos autocarros de hippies que seguiam o grupo para todo o lado e ganhando dinheiro como podia – primeiro a vender bebidas, depois comida (“Até a polícia lhe comprava comida”, garante Carrie, a sua irmã mais nova) e finalmente LSD, à semelhança de muitos dos fãs que igualmente seguiam a banda para todo o lado e faziam disso um estilo de vida.

Não é que Timothy, Tim para os amigos, fosse um dealer conhecido – vendia droga a amigos, família e conhecidos daquele meio, sem vender grandes quantidades, assegura a irmã. No entanto, após duas detenções relativas ao tráfico de droga em pequenas quantidades que resultariam em sentenças de liberdade condicional, Timothy foi apanhado a prometer a um amigo – que, após ser também apanhado pela polícia a vender marijuana, se tornara um informador e trazia consigo escutas – a venda de uma quantidade maior de LSD do que o habitual.

Testando os limites que Timothy infringiria, a polícia instruiu o amigo para dizer que o primeiro pacote de droga se teria perdido no correio e pedir uma segunda dose de igual tamanho. Timothy obedeceu – enviou a segunda dose, dobrando a quantidade que lhe fora inicialmente pedida, e com essa remessa e as 26 conversações telefónicas gravadas pela polícia federal acabou por ser detido e julgado em tribunal.

A partir daí, nada o favoreceu. O advogado do Estado, designado para o defender, “acabara de sair da Faculdade de Direito” e foi denunciado pela inexperiência, relata a irmã Carrie, sem sequer informar o cliente de que se se confessasse culpado poderia enfrentar uma pena de prisão perpétua. Para mais, Timothy recusou-se a denunciar cúmplices, o que o poderia ter salvado – afinal, uma das pessoas que o ajudara neste golpe fora o seu próprio pai, também ele Timothy, que trabalhava num negócio de fogo de artifício na Florida. O pai acabou por ser condenado a dez anos de prisão, mas acabaria por falecer oito anos e meio depois, ainda atrás das grades, por complicações cardíacas.

Depois, é claro, havia as leis de sentença obrigatória após três condenações, que se aplicavam sobretudo a crimes relacionados com drogas, armas ou pornografia sem olhar a antecedentes e atenuantes. Se houvesse esse cuidado, talvez Timothy se tivesse livrado de uma sentença tão pesada – afinal, a sua vida nunca foi fácil e a sua saúde sempre precisou de cuidados.

Psicose, bipolaridade e depressão: uma infância difícil

Nascido no Connecticut, Timothy viveu uma infância feliz com a sua mãe, Laru Morris, e a irmã 11 meses mais nova, Carrie, que ainda hoje se refere a ele como o seu “melhor amigo”. Depois de o pai ter deixado a esposa e a família quando Tim contava apenas três anos, foram vários os padrastos que Tim e a irmã conheceram, mas houve um em particular, chamado Sal, que conviveu muito com as crianças enquanto Laru trabalhava a tempo inteiro.

“Nós tivemos o pior padrasto do mundo. Ele batia no meu irmão, batia a cabeça dele contra a parede e quando eu dizia para o deixar em paz, vinha atrás de mim”, recorda Carrie, hoje com 47 anos e a viver em Las Vegas, mas sempre em contacto regular com o irmão. Foi então que a mãe dos dois meninos começou a notar “comportamentos impulsivos, hiperativos e depressivos” nos dois, mas sobretudo em Tim, que seria mais tarde diagnosticado com psicose e bipolaridade.

Tim foi apanhado a vender droga aos 23 anos, altura em que considerava os concertos dos Grateful Dead “a sua casa”; hoje, aos 48, continua a ouvir a banda no MP3 que lhe permitem usar na prisão desde 2012. Apesar de ter passado muito tempo em isolamento, o que segundo Carrie terá piorado a sua saúde mental, Timothy distrai-se com a música, com os jogos de andebol e com as cartas da irmã, que fez da libertação de Tim uma verdadeira missão.

Ele já viu violadores e assassinos a deixarem a prisão

“O meu irmão tinha apenas 25 anos quando foi sentenciado a morrer na prisão. Ele já viu violadores e assassinos a deixarem a prisão enquanto ele não tem qualquer hipótese de sair. Agora tem 45 anos e quero trazê-lo para casa”, pedia Carrie há três anos, quando começou uma petição para a redução da pena do seu irmão em que lembrava que Tim “cometeu um erro há muitos anos” e não é “uma pessoa violenta nem uma ameaça para a sociedade”. Desde então, a petição reuniu 423 mil subscritores – e conseguiu esta semana cumprir o seu objetivo, com a decisão de Obama de reduzir as penas de 111 prisioneiros americanos, Timothy incluído.

A decisão diz respeito a “sentenças injustificadamente duras por causa de leis datadas, devido sobretudo a crimes de drogas não violentos”, explica a Casa Branca no documento em que revela que Timothy poderá sair da prisão em agosto de 2018, após um programa de reabilitação de 9 meses. É um alívio tardio para a família, mas não espanta que chegue agora: afinal, Obama já reduziu a pena a 325 prisioneiros só neste mês, e em agosto já libertou mais prisioneiros do que qualquer presidente em qualquer ano do passado século (além de as penas serem demasiado pesadas, argumenta a irmã, Tim já custou ao Estado norte-americano mais de meio milhão de dólares desde que foi preso).

“Estou aqui mas não estou. Simplesmente vivo. É a única vida que tenho”, dizia Timothy à “Business Insider” em 2013, quando as hipóteses de ser libertado eram estimadas pela irmã em “15%” e o seu maior motivo de esperança era o MP3 que possuía há cerca de um ano, cheio de canções dos Grateful Dead. Agora, aos 48 anos, Timothy vai tentar renascer: não será fácil, porque já viveu metade da vida na prisão, mas uma petição começada por Carrie tenta ajudá-lo a recomeçar, e em dois dias já foram recolhidos mais de 7 mil dólares (6200 euros) para dar ao presidiário uma vida nova.