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Governo de Hollande promete "desbloquear Calais" até ao próximo ano

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IAN LANGSDON / EPA

Em entrevista ao jornal "Nord Littoral", ministro do Interior diz que autoridades já estão a trabalhar para encontrar outros locais de acolhimento em França onde realojar os quase dez mil requerentes de asilo atualmente presos no campo improsivado conhecido como "a selva"

França vai desmantelar gradualmente a chamada "selva de Calais", o campo de refugiados improvisado que o Governo francês criou naquela cidade frente ao canal da Mancha em abril de 2015 e onde quase dez mil refugiados e migrantes estão atualmente a viver em condições degradantes.

Em entrevista ao jornal regional "Nord Littoral", citada pelo britânico "The Guardian", o ministro francês do Interior, Bernard Cazeneuve, diz esta sexta-feira que vai trabalhar "com a maior determinação" para encerrar totalmente o campo de refugiados naquela fronteira com o Reino Unido até ao final de 2017, desfazendo-o em várias etapas, até que os refugiados ali presos tenham sido reinstalados em várias zonas do território francês e possivelmente no país vizinho.

Os planos para "desbloquear Calais" surgem quase um ano e meio depois de o Governo ter reunido todos os requerentes de asilo acampados ao redor da cidade fronteiriça num terreno baldio sem abrigo nem condições. Há menos de seis meses, as autoridades francesas demoliram uma enorme área da parte sul do campo improvisado, sob o argumento de que é preciso "reduzir radicalmente" o número de pessoas ali concentradas.

A maioria delas quer alcançar o Reino Unido para pedir asilo no país, mas o Tratado de Touquet, criado para gerir aquela fronteira entre França e o país vizinho, dita que só quem chega ao território britânico é que pode candidatar-se a vistos de residência.

PHILIPPE HUGUEN

No início desta semana, os Governos dos dois países deram início a negociações para potenciais alterações a esse acordo bilateral, ainda que fontes do Executivo de Theresa May digam que a emenda proposta por governantes locais franceses, para que os refugiados possam candidatar-se a asilo no Reino Unido a partir de Calais, não está em cima da mesa.

Apesar de parte do campo ter sido desmantelado, este mês o número de pessoas refugiadas na "selva" alcançou o recorde de quase dez mil, de acordo com dados de organizações não-governamentais no terreno. As autoridades francesas mantêm que o número oficial de residentes temporários do campo ronda os sete mil e dizem que, ao longo do último ano, cerca de cinco mil requerentes de asilo deixaram a cidade do norte de França após terem sido redistribuídas por 161 centros especiais de acolhimento criados em várias partes do país.

O novo plano de Cazeneuve passa por garantir o acolhimento de quase oito mil requerentes de asilo ainda este ano e de milhares de outros em 2017. O ministro diz ainda que o objetivo é conseguir que estas pessoas abandonem Calais voluntariamente.

Na semana passada, o responsável por um centro de assistência médica dos Médicos Sem Fronteiras (MSF) naquele campo improvisado, Daniel Barney, acusou os Governos francês e britânico de estarem a fazer vista grossa aos crescentes problemas ali registados. Aos jornalistas, Barney condenou as autoridades francesas por terem desmantelado a parte sul do campo, dizendo que a decisão de março só piorou a situação no local.

"Metade do campo foi desmantelado então agora temos o dobro da população a viver em metade da quantidade de espaço que existia, com acesso à mesma quantidade de pontos de distribuição de água e casas-de-banho. Existe um problema extremo de sobrelotação. As condições no campo estão a piorar progressivamente", disse o funcionário da ONG.

Esta sexta-feira, à mesma hora em que um grupo de ativistas, líderes religiosos, celebridades e políticos britânicos vai estar a entregar uma petição ao Ministério do Interior para que o Reino Unido acolha quase 400 menores não-acompanhados, Cazeneuve vai visitar Calais. Na segunda-feira é esperado um grande protesto de camionistas, lojistas e agricultores da região de Calais no porto da cidade, para exigirem a demolição do campo.