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Exército de jovens em fuga para norte

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Um dos botes que transportam dezenas de pessoas no Mediterrâneo vindas da costa da Líbia. No mar alto, esperam ser resgatados pelas operações europeias

GIORGOS MOUTAFIS / REUTERS

Negócio. Milhares de adolescentes rumam à Europa ficando à mercê das redes de tráfico

Rossend Domènech, correspondente em Roma

Roma, estação ferroviária central de Termini, 22h35. O Intercidades noturno 774 parte para Milão. É o comboio dos fugitivos sudaneses, eritreus, afegãos, sírios. São todos crianças e adolescentes entre os 14 e os 16 anos. Todos clandestinos. Viajam em grupos e trazem mochilas com um telemóvel, o dinheiro que lhes resta, apontamentos com os seus nomes e os contactos que encontraram pelo caminho, unindo-os o objetivo comum de alcançar “o norte da Europa”. Ouvem músicas dos seus países e viajam com um bilhete normal, com desconto para menores. Alguns escondem-se entre os assentos ou debaixo deles. Chegarão perto das oito da manhã.

Roma Termini, um pouco além do Intercidades 744, perto do túnel rodoviário que passa por baixo da via férrea, outros grupos de adolescentes esperam que cheguem os adultos ocidentais. Vão passar um bocado com eles, comer um prato em sua casa e voltar, à noite, para o centro de acolhimento. Nenhum deles é clandestino. No dia seguinte, através do serviço Money Transfer, enviarão às famílias o que ganharam. Tal como os que embarcaram no comboio, agem como se tudo fosse uma gestão ordinária, inevitável, incluída. Não sorriem e vão à sua vida.

Os franceses encerraram a fronteira de Ventimiglia e os suíços a de Chiasso, que controlam com drones. Por isso, ao chegarem a Milão, os adolescentes que viajaram durante a noite vão entrar para pequenos autocarros e carros disponibilizados por uma rede de mais de 100 paquistaneses e afegãos, com rumo a Como, na fronteira italiana com a Suíça. Em alternativa, ficam na estação milanesa. As duas cidades funcionam como tampões que os impedem de “chegar à Europa”. Há 500 em Como, metade dos quais menores, 3200 em Milão (30% deles adolescentes) e todos os dias chegam mais.

Em 2014, Itália foi atravessada por 13 mil menores não acompanhados. Todos eles, um dia, a cinco ou sete mil quilómetros de distância, foram entregues pelas suas famílias, vendidos ou cedidos a troco de um empréstimo, a traficantes que prometeram levá-los “até ao barco que vai para Itália”, como explica uma aluna oriunda do Níger, que se sacrificou pela família. Em 2015, chegaram 12.360 menores a Itália, segundo dados da UNICEF. Desde janeiro já chegaram 11.520, isto é, mais de mil por mês. Na Líbia esperam outros 235 mil fugitivos e imigrantes, um terço dos quais são menores de idade a viajar sós.

Os menores imigrantes, refugiados e desaparecidos em todas as zonas hoje afetadas por guerras, somam 14 milhões, estima a ONU, e representam 30% dos 263 mil emigrantes que chegaram pelo sul da Europa (2016), após o fecho com muros de Espanha e dos países balcânicos. Nove em cada dez viajam sós, revela um relatório da UNICEF intitulado “Perigo em todas as etapas da viagem” no qual se afirma: “Nenhuma criança devia enfrentar as histórias que eles contaram”.

“Pay as you go”

Os traficantes chamam ao sistema “pay as you go”, pagar para prosseguir. Quando chegam à Líbia, subindo a partir do Mali, Eritreia, Sudão e outros países, as crianças e adolescentes têm de trabalhar para atingir o Mediterrâneo. Alguns não querem, ou não conseguem, e desaparecem... para reaparecerem — segundo as últimas informações mais ou menos públicas — nalguma clínica do Egito, para desaparecerem de vez.

Segundo relatos recolhidos pela Organização Internacional para as Migrações (OIM), UNICEF, Save the Children e outras entidades, durante o longo trajeto, que pode chegar aos oito mil quilómetros, os menores são escravizados, prostituídos (tanto raparigas como rapazes), torturados e presos. Muitas das jovens salvas no Mediterrâneo não estavam grávidas quando saíram das suas aldeias.

A lei italiana delega o cuidado dos menores de 18 anos aos presidentes de câmara. Em 2014, as autarquias acolheram 10.536 dos 13 mil que chegaram. Quando os menores chegam, os municípios “contactam as cooperativas com que colaboram”, explica uma fonte policial. “O negócio é grande e as cooperativas organizam-se. Se precisam de alojamento, conseguem-nos numa noite”. Nos processos conhecidos como Mafia Capitale abundam casos de centros de acolhimento dedicados ao negócio. “Ganha-se mais com os fugitivos do que com a droga”, afirmava um dos encarcerados. “É uma drenagem de dinheiro público sem controlo”, escreveram os magistrados. “Negócio com crianças refugiadas”, titulou um diário.

O Governo italiano acaba de assinar um protocolo com a ONU para melhor assistir este exército de crianças e adolescentes “órfãos”, que serão amanhã cidadãos europeus.

Tráfico de órgãos

Em 2000, a comissão parlamentar de Roma conseguiu documentar pela primeira vez na Europa a doação ilegal de órgãos. Não se tratava ainda das extirpações forçadas de que agora se começa a falar. A comissão documentou casos identificando nomes e apelidos de pessoas pobres que eram levadas do noroeste da Europa para uma clínica na Turquia, onde se realizavam as extrações e o pagamento do órgão.

Passados 16 anos e com fluxos migratórios nunca antes vistos, uma secção especial do diário “La Repubblica” dedicada ao jornalismo de investigação acaba de publicar várias reportagens documentadas sobre extirpações forçadas de órgãos que resultam na morte das pessoas. As extrações são feitas em clínicas no Egito e os dadores forçados são imigrantes africanos que, muitas vezes por falta de dinheiro para seguirem viagem até à Europa, veem a sua rota desviada do Sudão para o Cairo e Alexandria.

As fontes citadas nas reportagens são a Global Financial Integrity (GBI) de Washington, o Comissariado Sudanês para os Refugiados, apoiado por um relatório do ACNUR, a Gandhi Charity da Costa do Marfim (com imagens e documentos de cadáveres encontrados no rio Nilo sem rins, fígado ou coração). Também há contributos da OMS e da Hasbesha, uma agência para o desenvolvimento de combate ao tráfico de seres humanos que detetou valas comuns com cadáveres sem órgãos no deserto do Sinai.

O principal local de sequestro de migrantes é o bairro Omdurman de Cartum (Sudão), onde vivem dois milhões de habitantes. A delegação local do ACNUR denunciou assaltos às caravanas e sequestro de pessoas (66 casos em 2015). Alessandro Nanni Costa, diretor do Centro Nacional de Transplantes italiano, explica que “os compradores vêm de países ricos entre os quais se contam árabes, turcos, israelitas e também americanos”.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 27 agosto 2016