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Só lhe falta ser Presidente

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FOTO EDUARDO PEDRO

João Lourenço passa a número dois do MPLA e poderá vir a ser o sucessor de José Eduardo dos Santos

Cristina Peres

Cristina Peres

Jornalista de Internacional

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

Jornalista da secção Política

Nicolau Santos

Nicolau Santos

Diretor-Adjunto

Gustavo Costa

Correspondente em Luanda

Correspondente em Luanda

Em 2003, o homem que acaba de ser escolhido para segunda figura do MPLA por José Eduardo dos Santos estava a cumprir o seu quinto ano como secretário-geral do partido, cargo que acumulava com a presidência da Comissão Constitucional. O Presidente angolano tinha equacionado publicamente pela primeira vez retirar-se da vida política, o que causava enorme impacto. Chamado a comentar as declarações de José Eduardo, João Lourenço afirmou que as palavras do Presidente eram para levar a sério, porque era um homem de palavra e de honra.

O que aconteceu a seguir já se tinha passado com os três antecessores de Lourenço no cargo, Lopo do Nascimento, Marcolino Moco e França Van Dunem: foi substituído pelo Presidente, que tem feito o mesmo a todos os que são apontados como seus delfins.
A partir daí, o general de três estrelas, atualmente na reserva, que já era um homem discreto e prudente, reforçou essas características nas suas intervenções públicas, preferindo fazer pontes no partido e no Governo, onde a sua habilidade diplomática é reconhecida. Fez uma travessia do deserto de quase 11 anos como primeiro vice-presidente da Assembleia Nacional (de 2003 a abril de 2014), até que o Presidente o convida para o Governo como ministro da Defesa, cargo que exerceu até agora.

“Essa precipitação ensinou-lhe muito”, diz um dos portugueses que estiveram agora no congresso em Luanda, em representação partidária. “Ele é naturalmente sereno e ponderado, mas com esse erro tornou-se ainda mais cuidadoso”, acrescenta.

“Um gestor de silêncios. Hiperdiscreto, muito respeitado dentro do partido e com legitimidade militar”, é assim que João Lourenço é descrito por um observador português que o conhece há muitos anos. A mesma fonte, que falou sob anonimato, acrescenta um pormenor relevante: “Faz parte da geração do MPLA que cultivou uma boa relação com Portugal”, um traço em comum com António Paulo Kassoma, outra figura relevante neste congresso. Ao contrário de Lourenço, Kassoma deu mais nas vistas, até pelo estatuto de ex-primeiro-ministro angolano, e pela influência que tem no partido, agora confirmada com a secretaria-geral que agora lhe foi entregue.

Respeitado por todos

João Lourenço é respeitado pelos militares e também pelo partido, razão pela qual esta sua nomeação não espanta João Melo. Ao telefone a partir de Luanda, o escritor, jornalista e deputado do MPLA chama-lhe “um histórico com grande conhecimento da máquina partidária”. “Não há nada de novo nem surpreendente. Dentro do MPLA ele sempre foi cogitado e falado como um dos três ou quatro nomes que podem suceder a Eduardo dos Santos”, diz. Reconhece que este é um “fator de peso, para não dizer determinante”, para exercer as novas funções. Melo resume a ascensão de Lourenço, coroada com esta promoção, com a expressão: “Só lhe falta ser Presidente”.

O passado de comissário político das FAPLA (exército do MPLA) significa que Lourenço foi um guardião da ortodoxia comunista nas Forças Armadas, as quais foram a espinha dorsal do novo país e do novo regime. Toda a sua carreira foi feita dentro do MPLA, “com altos e baixos”, precisamente por “ser considerado avesso às teorias neoliberais”. Apesar de vários “eclipses” nunca foi “totalmente marginalizado e conservou o estatuto de elo de ligação entre o partido e os militares”, diz uma fonte que pediu anonimato.

Apesar dos sinais óbvios que se podem retirar das promoções de Kassoma e Lourenço, e em particular deste, ninguém arrisca apostar se o ministro da Defesa será o sucessor de Dos Santos. Até porque o Presidente, não obstante os indícios, não foi explícito sobre o plano que muitos lhe atribuem de se recandidatar em 2017 para se afastar em 2018. Pode ser assim... ou não.

A porta de entrada para o Palácio da Cidade Alta parece próxima e acessível ao antigo comissário das FAPLA que, em agosto de 1974, se juntou em Cabinda ao movimento então liderado por Agostinho Neto. Há quem ache que a promoção de João Lourenço “tanto pode significar que será o homem escolhido para a sucessão na presidência da República como o seu contrário. O enigma permanece”, disse ao Expresso Fernando Pacheco, coordenador do Observatório Político e Social de Angola.

Com origens que vão do norte a sul — o pai, de etnia quimbundo, nasceu em Malange e a mãe é oriunda de Moçâmedes — o novo vice-presidente do MPLA, um umbumdu natural do Lobito, província de Benguela, pode vir a transferir o poder para o sul pela primeira vez na história de Angola. “Desmistificar-se-ia um dos fantasmas da UNITA insistentemente cultivado no passado por Jonas Savimbi”, defende um deputado do MPLA.

Ser de etnia umbumdu, esmagadoramente maioritária no planalto central de Angola, pode ser um óbice para a ascensão à liderança de um país que até agora sempre foi dominado pela etnia quimbundo, dominante na região de Luanda. Lourenço conta, porém, com três fatores a seu favor. Nunca esteve até agora envolvido em escândalos de corrupção, não tem anticorpos significativos entre os militares e o seu círculo de amigos próximos controla neste momento o partido: Roberto de Almeida (era secretário-geral do MPLA que vai agora presidir à Fundação José Eduardo dos Santos), Virgílio Fontes Pereira (membro do Bureau Político), Mário António (responsável do Bureau para a Informação e Propaganda) e António Paulo Kassoma (novo secretário-geral do MPLA para a área dos quadros).

O facto de Lourenço não ser “objeto de suspeição ética como outros dirigentes” conta mais para a credibilidade internacional do que dentro de portas, garante João Melo.
Amigos e família

Além dos amigos, a mulher, Ana Dias Lourenço, foi ministra do Planeamento de finais de 1999 até 2012, passando depois a adjunta do diretor-executivo do Banco Mundial, onde é atualmente diretora-executiva (o seu mandato termina em outubro deste ano). Tem um perfil tecnocrata, é-lhe reconhecida grande competência, dispõe de uma rede de contactos vastos no FMI e no Banco Mundial e é fluente em francês e inglês.

Esteve presa no golpe de 27 de maio de 1977, por suposta ligação aos nitistas que tentaram derrubar Agostinho Neto, mas foi depois reabilitada por Luanda. O seu perfil, como eventual futura primeira-dama, pode ajudar à ascensão de João Lourenço a Presidente de Angola.

Contudo, como qualquer seguidor da política angolana sabe, tudo depende de um único jogador, José Eduardo dos Santos, que foi confirmado líder incontestado do MPLA com 99,6% dos votos (cinco contra e cinco abstenções).

Relevante será a ordenação dos nomes nas listas do MPLA às eleições do ano que vem — aí se verá se Lourenço confirma o estatuto de número dois e se tem espaço para subir mais, ou se ficará como segunda figura, talvez como gestor da sucessão. Mas arredado do papel de sucessor.

“Apesar do peso e importância que ele tem no partido e no Governo, a minha leitura é que ele é vice-presidente do MPLA para tomar conta do partido e preparar a sucessão embora esta possa não passar por ele”, diz outro dirigente partidário português recém-chegado de Luanda.

Jogador de xadrez nas horas vagas, ex-praticante de karaté Shotokan, Lourenço viveu de 1978 a 1982 na União Soviética. Tem 62 anos, é pais de seis filhos. “Foi um exímio gestor do tempo”, diz ao Expresso Amável Fernandes, antigo combatente das FAPLA.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 27 de agosto de 2016