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Aliados latino-americanos saem em defesa de Dilma Rousseff

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UESLEI MARCELINO/ Reuters

Bolívia, Equador e Venezuela prometem retirar os seus embaixadores do Brasil. Cuba e Nicarágua também condenam processo de destituição da agora ex-Presidente, que garante que vai recorrer da decisão do Senado

Os principais aliados de Dilma Rousseff na América Latina estão furiosos com a votação de quarta-feira no Senado brasileiro, que viu a Presidente brasileira suspensa desde maio ser efetivamente afastada do cargo para o qual foi reeleita em 2014, com 61 votos a favor do seu impeachment (destituição) e 20 contra.

As medidas mais drásticas foram anunciadas pelos Governos da Bolívia, do Equador e da Venezuela, que deram a entender que vão retirar os seus embaixadores de Brasília e congelar as relações bilaterais com o Brasil ao leme do recém-empossado Governo de Michel Temer, do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), vice-presidente de Dilma até ao início deste ano — que, apesar de estar impedido de ser eleito para cargos públicos durante oito anos por ter violado as leis eleitorais e de ter o seu nome envolvido no caso Lava Jato, ocupa agora o mais alto cargo político do Brasil.

No Twitter, Rafael Correa, o Presidente do Equador, foi o primeiro a manifestar-se contra o que Dilma e os seus apoiantes classificaram sempre de "golpe de Estado", uma decisão contra a qual a sucessora de Lula da Silva já prometeu lutar com todas as forças e por todos os canais possíveis.

"Destituíram Dilma. Uma apologia ao abuso e à traição. Retiraremos o nosso encarregado da embaixada", escreveu Correa na rede social. "Jamais reconheceremos estas práticas, que nos recordam das horas mais obscuras da nossa América. Toda a nossa solidariedade com Dilma, Lula e o povo brasileiro", acrescentou, terminando com a famosa frase de Che Guevara: "Até à vitória, sempre!"

Também no Twitter, Evo Morales classificou o processo de votação no Senado de golpe parlamentar, manifestando sem surpresas o seu apoio à líder do tradicional aliado Partido dos Trabalhadores (PT) brasileiro.

"Vamos convocar o nosso embaixador no Brasil para assumir as medidas que são aconselháveis neste momento. Acompanhamos Lula, Dilma e o povo brasileiro nessa hora difícil", sublinhou o Presidente da Bolívia.

O Governo da Venezuela foi mais longe, usando os canais oficiais de Estado para anunciar também a retirada do seu embaixador de Brasília. "A vontade popular foi substituída ilegitimamente, violentando a Constituição", declarou o Governo de Nicolás Maduro em comunicado divulgado pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros, condenando o que diz ter sido um "golpe de Estado parlamentar".

Cuba condenou "energicamente" o "golpe de Estado parlamentar-judicial" que decorreu no Brasil, com a chancelaria de Havana a dizer em comunicado que a destituição de Dilma é um "ato de desacato à vontade soberana do povo que a elegeu". A mesma ideia foi transmitida pelo Governo da Nicarágua, que equiparou o impeachment da líder brasileira a um "retrocesso democrático".

Dilma foi alvo do processo de destituição no Congresso sob acusações da oposição de ter manipulado os dados orçamentais do Brasil na véspera das eleições presidenciais de 2014, que a reconduziram no cargo. A sua saída forçada marca o fim de 13 anos consecutivos de poderio do PT, numa altura em que o país está mergulhado em escândalos de corrupção sem igual na história do país.

Entre os políticos que empossaram Temer em Brasília ontem assim que Dilma foi afastada da presidência, há pelo menos 76 ocorrências judiciais registadas pelas autoridades, referia ontem a "Folha de São Paulo". O próprio Temer está envolvido na Lava Jato e no escândalo da Petrobras, bem como Eduardo Cunha, também do PMDB, que até há pouco tempo era presidente da Câmara de Deputados e que é tido como o orquestrador do processo de impeachment. Ao contrário de todos eles, e até do seu mentor Lula, a agora ex-Presidente é das poucas figuras políticas eleitas do Brasil sem ligações a qualquer caso de corrupção.