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“Hiroshima”: a reportagem do horror é a reportagem do século

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Há 70 anos, a revista “New Yorker” tomou a histórica e inédita decisão de ocupar toda a edição de 31 de agosto com uma única e longa reportagem sobre o brutal impacto do lançamento da bomba atómica em Hiroshima. O texto tornou-se viral e é hoje visto como uma das mais importantes peças jornalísticas do século XX

NEW YORKER. A 31 de agosto de 1946 a revista publica "Hiroshima", considerada uma das mais importantes reportagens do século XX

NEW YORKER. A 31 de agosto de 1946 a revista publica "Hiroshima", considerada uma das mais importantes reportagens do século XX

A capa da revista New Yorker publicada no dia 31 de agosto de 1946 é de uma despudorada ousadia. Reproduz a idílica vivência de um parque num qualquer dia de verão. Há quem jogue ténis, há quem se passeie de barco num lago, há quem dance, há quem ande a cavalo, há quem converse, há quem passeie. Não inclui qualquer título ou informação sobre o conteúdo. Além do nome da publicação, limita-se a inserir a data e o preço. Não há “cartoons”, não há a habitual crítica literária, não há a famosa secção “Talk of the Town”. Lá dentro, porém, está uma das mais vertiginosas reportagens alguma vez escritas. O título é composto por uma só palavra: “Hiroshima”. Escreve-a John Hersey (1914-1993) e ao nomear a cidade japonesa está a convocar todo o horror associado aos arrasadores efeitos da utilização de armas nucleares. Ninguém imaginava, naquele dia, o exponencial abalo nas consciências desencadeado por um trabalho depressa tornado viral sem auxílio de “twiters”, “facebook”, “wahtsApp” ou qualquer outra ainda inexistente, nem sonhada, rede social. Apenas a força do jornalismo. Nada mais.

No dia 6 de agosto de 1945, quando a II Guerra Mundial estava já mais do que decidida, os EUA decidem fazer uma experiência cruel num cenário real. Lançam sobre Hiroshima, no Japão, uma bomba com um poderoso efeito destruidor. Pela primeira vez na história da humanidade é utilizada uma bomba atómica contra alvos civis. Numa população de 250 mil pessoas, 100 mil morrem e outras 100 mil ficam feridas ou com mazelas das quais nunca mais na vida se vão libertar.

Na época são publicados inúmeros relatos jornalísticos sobre os efeitos da bomba na cidade, bem como em Nagasaki, onde três dias depois os EUA voltaram a lançar uma bomba nuclear. A história da reportagem começa ainda em 1945, quando William Shawn, então um dos principais editores da New Yorker, constata que, não obstante os muitos relatos do sucedido nas duas cidades, a história das vítimas continuava por contar. Havia já alguma consciência do desmesurado sofrimento dos sobreviventes, mesmo se não existia ainda a noção dos terríveis e continuados efeitos da exposição a uma explosão nuclear. Começavam a surgir algumas informações sobre homens, mulheres, crianças com altas febres, sistemáticos enjoos, muitos deles a ficarem anémicos, mas nada de muito consistente, nem centrado nas consequências da radiação.

Hiroshima destruída pela bomba atómica

Hiroshima destruída pela bomba atómica

FOTO AFP/GETTY IMAGES

Harold Ross, também editor, e William Shawn discutem a ideia com Hersey numa altura em que o jornalista se preparava para iniciar um trabalho jornalístico na Ásia. Hersey começa por ir para a China e depois passa um mês no Japão a entrevistar sobreviventes de Hiroxima. Em junho de 1946 regressa aos EUA para escrever a reportagem (disponível AQUI). Há uma edição do livro em português lançada em 1997 pela Antígona, ainda disponível por cinco euros.

O olhar de seis sobreviventes

Através do olhar de seis sobreviventes, dois médicos, duas mulheres, um clérigo protestante e um jesuíta alemão, constrói uma narrativa sólida, mas estarrecedora, ancorada numa linguagem elegante, mas despida de artifícios, de modo a poder apresentar em toda a sua nudez o indizível sofrimento, a inimaginável brutalidade provocada por aquela gratuita ação de guerra.

Os responsáveis pela New Yorker tinham planeado publicar a reportagem distribuída por quatro números consecutivos. No entanto, quanto mais a lia, mais Shawn se convencia estar face a um documento único, um trabalho extraordinário a exigir decisões também elas extraordinárias. Consegue convencer Ross a publicarem tudo de uma só vez, numa decisão inédita e nunca mais repetida. A edição é preparada no mais absoluto sigilo. Doze horas antes da publicação são enviadas cópias da reportagem para alguns dos principais jornais estado-unidenses. É uma fantástica jogada de marketing. Inúmeros editoriais chamam a atenção dos leitores para a imperiosa necessidade de ler a revista.

Os 300 mil exemplares da edição original esgotam de imediato e partes do artigo são reproduzidos em jornais e revistas de todo o mundo. Albert Einstein é uma das pessoas mais entusiasmadas com o trabalho de Hersey. Ao ver gorada a tentativa de comprar mil exemplares para os distribuir pelos amigos, contenta-se com cópias da reportagem. Duas semanas após a publicação, um exemplar em segunda mão da New Yorker estava a ser vendido a um preço 120 vezes superior aos iniciais 15 cêntimos de dólar do preço de capa. Várias estações de rádio dos EUA decidem organizar programas para a leitura integral da reportagem aos seus microfones ao longo de vários dias. Em Inglaterra, a BBC decide fazer o mesmo e seis semanas depois “Hiroshima” estava a ser lida no Programa 3, não obstante sérias preocupações de alguns editores seniores quanto ao impacto emocional da leitura nos ouvintes, recorda Caroline Raphael num trabalho da “BBC News Magazine”.

As audiências da BBC atingem níveis tão elevadas que a estação decide voltar a difundir a emissão umas semanas mais tarde no “Light Programme”. Segundo Caroline Raphael, o então crítico do jornal Daily Express classificou-a como a “mais aterradora emissão que alguma vez escutara”.

Milhões de leitores em todo o mundo

Com milhões de pessoas em todo o mundo a seguir a história, “Hiroshima” toma a forma de livro em novembro de 1946. Terá vendido mais de três milhões de exemplares. É de imediato traduzido em muitas línguas, até em braile, com uma exceção: o japonês. O General Douglas MacCarthur, comandante supremo das forças de ocupação e, para todos os efeitos, o verdadeiro governador do Japão até 1948, dera ordens muito estritas no sentido de proibir a divulgação de qualquer reportagem sobre as consequências dos bombardeamentos em Hiroshima e Nagasaki. As cópias do livro ou da reportagem estiveram proibidas até 1949, ano em que, por fim, “Hiroshima” é traduzido para japonês pelo reverendo Kiyoshy Tanimoto, uma das seis personagens escolhidas por Hersey para dar corpo ao seu trabalho.

John Hersey em dezembro de 1960

John Hersey em dezembro de 1960

foto ap

John Hersey ganhara dois anos antes de “Hiroshima” um Pulitzer com “A Bell for Adano”, um romance sobre a presença do exército dos EUA em Itália. Numa das raras entrevistas dadas ao longo da sua vida contava à “Paris Review”, na edição de verão/outono de 1986, que quando pensaram numa peça sobre Hiroshima viram como quase todas as reportagens se centravam na devastação física da cidade. Enquanto estava a trabalhar na China, acrescenta, pensou muito no seu desejo de “tentar fazer algo sobre o impacto nas pessoas, mais do que nos edifícios”.

Na viagem num barco da armada dos EUA, da China para Shangai, chega-lhe às mãos o livro “The Bridge of San Luis Rey”, de Thornton Wilder, que acaba por se revelar muito inspirador. Ao lê-lo, recorda Hersey, experienciou “a possibilidade de uma forma para a peça sobre Hiroshima”. O livro é sobre a morte de cinco pessoas no Peru quando desaba uma ponte suspensa por cordas, e sobre o que aconteceu para se encontrarem juntos naquele destino trágico. Aquilo parecia a Hersey “um caminho possível para lidar com a complexa história de Hiroshima; pegar num certo número de pessoas – meia dúzia, como acabou por acontecer – cujos caminhos se cruzaram ao ponto de desembocarem naquele momento de desastre comum”.

Após dezenas e dezenas de entrevistas, nascem as seis personagens do livro. Toshiko Sasaki, 20 anos, funcionária de um departamento de pessoal; reverendo Kioshi Tanimoto, pastor a Igreja Metodista de Hiroshima; Hatsuyo Nakamura, viúva de um alfaiate morto em Singapura; Wilhelm Kleinsorge, jesuíta alemão; e os médicos Masakazu Fujii e Terufumi Sasaki.

Após três semanas de trabalho de campo, regressa aos EUA e trabalha durante um mês, dez horas por dia, na escrita da reportagem. Quando o entrevistador lhe pergunta se o livro de Wilder influenciara o estilo de “Hiroshima”, Hersey responde que a sua escolha foi ficar deliberadamente silencioso na peça, “porque pensava que se o horror pudesse ser apresentada tão diretamente quanto possível, isso permitiria ao leitor identificar-se com as personagens de uma forma muito direta”.

Atraído pela ficção

A resposta de Hersey assume um tom inesperado ao assumir que a ficção o atrai muito mais, porque, se um romancista tem sucesso no seu trabalho, “consegue que o leitor se identifique com as personagens da história, ao ponto de, ao lerem, quase se tornarem eles próprios as personagens da história”.

Ao usar técnicas da ficção, Hersey quis “eliminar aquela mediação e ter o leitor diretamente confrontado com as personagens”. Neste caso, prossegue, a sua esperança era que o leitor fosse capaz de assumir o papel das personagens ao ponto de sofrerem a mesma dor, percecionarem o mesmo desastre e assim tomarem consciência de quanto se passara.

Esta explicação é crucial para se perceber o contexto em que aparece a reportagem. Até poucos meses antes, os japoneses representavam o inimigo absoluto para os estado-unidenses. Depois do ataque a Pearl Arbour fora alimentado o ódio ao perigo amarelo. Havia uma espécie de paranoia coletiva contra os japoneses.

A bomba atómica foi lançada pelos EUA sobre Hiroshima

A bomba atómica foi lançada pelos EUA sobre Hiroshima

FOTO AFP/GETTY IMAGES

A reportagem, ao humanizar o que fora o inimigo odiado, mostrava como, mais do que japoneses, as vítimas eram homens, mulheres, crianças, submetidos a um atroz e até ali desconhecido sofrimento. Muitos nunca recuperaram dos ferimentos ou das mazelas adquiridas naquele dia de todas as desgraças.

Em 1999, a New York University of Journalism classificou “Hiroshima” como o mais importante trabalho jornalístico feito no século XX. Ainda assim, não está isento de críticas. Num espaço sobre livros intitulado “SparkNotes”, da cadeia de livrarias “Barnes & Noble” é feita uma detalhada análise ao livro. Ali se refere que houve quem assinalasse uma excessiva imparcialidade de Hersey, que não dá espaço para julgamentos morais. Por outro lado, acrescenta, “o livro não inspira nenhuma espécie de indignação pelo uso de armas nucleares pelos EUA. De facto, existem escassas indicações de que o livro tenha inspirado muitos protestos ou críticas a Truman ou ao governo americano”.

Nascido na China e filho de missionários americanos, John Hersey regressou aos EUA com 10 anos. Estudou em Yale e Cambridge e trabalhou durante um curto espaço de tempo como assistente do romancista Sinclair Lewis. Em 1937 passou a trabalhar para a Time e durante II Guerra Mundial escreveu a partir da Europa e da Ásia para a Time e a Life. Começou a escrever para a New Yorker em 1944 com um texto, “Survival”, com frequência citado como um antecedente do chamado “novo jornalismo”.

Nunca mais nenhum dos trabalhos de Hersey voltou a ter a dimensão ou o impacto de “Hiroshima”. O jornalista e escritor ensinou em Yale, no Massachusetts Institut of Technology (MIT), e na Academia Americana em Roma. Envolveu-se no ativismo político, em particular nos protestos contra a guerra do Vietname, e em 1985 publicou uma nova edição do livro com um novo capítulo dedicado às vividas vividas pelas seis personagens durante os quarenta anos entretanto passados.