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Há crise no Daesh. Documentos secretos revelam “caos interno”

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INCÓGNITA. Desde outubro de 2015, o Daesh entrou em dinâmica de derrota. Foi expulso de 40% do território que controlava. Perdeu Palmira. Mas nada garante que não voltará a atacar

reuters

“The Daily Beast”, a quem um grupo rebelde sírio apoiado pelo Ocidente forneceu o conjunto de ficheiros, compara situação do autoproclamado Estado Islâmico a uma “comédia má sobre fraudes, infiltrações e lutas burocráticas” — “embaraçosa” para um movimento messiânico que diz estar a crescer e a expandir-se apesar das crescentes perdas de território

O autoproclamado Estado Islâmico (Daesh) está à beira da implosão e os problemas que o grupo radical enfrenta não se limitam à crescente perda de território no Iraque e na Síria. Pelo menos assim indicam documentos internos do grupo fornecidos em exclusivo à revista norte-americana "Daily Beast" pore um grupo rebelde sírio apoiado pelo Ocidente.

Os documentos da administração do Daesh, originalmente recuperados de um cadáver de um militante jiadista durante uma batalha perto de Damasco, mostram que a organização está a ser abalada por uma série de escândalos internos de apropriação indevida de fundos, fraude, lutas burocráticas e uma alegada infiltração por espiões anti-Daesh. É o que o site da "Daily Beast" classifica de "má comédia" e de "embaraço para um movimento messiânico que diz estar a crescer em força e a expandir o seu domínio apesar de quase três anos de perdas no terreno de batalha no Iraque e na Síria".

Carimbados por "ministros" oficiais do grupo, os documentos deixam a descoberto os salários pagos em dólares a militantes jihadistas pelo menos até há um ano, confirmando informações que têm sido avançadas por vários desertores à mesma revista nos últimos meses e servindo de "prova" extra das dificuldades do grupo em regular tudo, desde a requisição de armas e munições até aos dias de férias que cada membro do Daesh está autorizado a gozar.

O conjunto de papéis foi entregue à "Daily Beast" por Maher al-Hamdan, porta-voz da Brigada Ahmad Abdo, um grupo rebelde sírio que tem recebido munições e apoio financeiro do Comando de Operações Militares de Amã, na Jordânia, que por sua vez é apoiado pelos Estados Unidos, outros países do Ocidente e os países árabes que integram a coligação internacional anti-Daesh, como parte da coligação "Amigos da Síria".

Segundo Al-Hamdan, os documentos estavam a ser transportados por um comandante militar do Daesh, apenas conhecido como Abu Ali al-Iraqi, que foi morto a 8 de junho de 2016 em confrontos com um batalhão da Ahmad Abdo. "Perdemos um soldado e quatro ficaram feridos" nessa batalha, explica o porta-voz do grupo rebelde. "O ISIS [sigla inglesa do Estado Islâmico do Iraque e da Síria] perdeu 19, incluindo Abu Ali al-Iraqi."

Os documentos são sobretudo partes de correspondência trocada entre oficiais do Daesh. Uma carta não-assinada, datada "Sha'ban 3, 1437" — 10 de maio de 2016 no calendário ocidental — e enderaçada ao wali (governador) do Daesh para a província de Damasco, informa o "oficial" sobre um "falhanço óbvio" na cidade de Dumayr, a cerca de 40 quilómetros a nordeste da capital síria. O falhanço prende-se com o facto de a operação que tinha como alvo a brigada Ahmad Abdo (conhecida como Al-Sahawat na Síria) ter como líder designado à partida o emir Abu Hudhaifa al-Ghoutani, que segundo o documento veio a provar-se que era um agente duplo.

Na missiva, Al-Ghoutani é descrito como um "murtad", ou apóstata, por ter "reunido todos os líderes militares [do Daesh] dentro de uma área sob o pretexto de trabalhos militares e de segurança contra a Sahawat, quando ao mesmo tempo estava secretamente coordenado com a Sahawat para assassinar todos os líderes com aparelhos explosivos e minas que plantou no local do encontro".

A operação, refere o autor da carta, "não foi concluída, pela graça de Alá" e "nessa mesma noite ele escapou para onde a Sahawat estava" levando consigo material no valor de 6500 dólares, incluindo uma câmara de vídeo, explosivos de plástico, uma pistola, espingardas, 1500 balas russas e sete granadas de mão".

O falhanço dos especialistas de contra-espionagem do Daesh é relevante quando se considera que esse foi, desde o início, um dos fortes da organização radical que se provou crucial para a tomada de tão grandes faixas de território no Iraque e particularmente na Síria entre 2013 e 2014.

Consultado pela "Daily Beast", Aymenn Jawad al-Tamimi, um investigador sírio e analista forense que tem investigado estes e outros documentos do Daesh, garante que estas cartas não só são autênticas como "fornecem uma visão privilegiada importante sobre as operações de segurança do ISIS para minarem fações rivais no sul [da Síria]", para além de "revelarem uma grande quantidade de problemas internos nas fileiras" do grupo.

A revelação destes documentos coincide com um comunicado divulgado pelo Daesh na terça-feira, onde o grupo assume que o seu porta-voz e número dois na linha de comando, Mohammad al-Adnani, foi morto em combates pelo controlo de Alepo.