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Dilma cai ao som do hino

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Reuters

Foram 61 votos, bem mais do que os dois terços necessários, a favor da destituição da presidente Dilma Rousseff, considerada culpada do crime de responsabilidade. Senadores pró-impeachment cantaram o hino depois de ter sido conhecida a decisão. Chega assim ao fim um processo de meses, que culmina na tomada de posse de Temer, presidente interino e ex-aliado de Dilma. Não há vislumbre de novas eleições

Cátia Bruno

Cátia Bruno

Jornalista

Foram 61 votos, mais sete do que os 54 necessários para destituir Dilma Rousseff do cargo de Presidente, para o qual tinha sido reeleita em outubro de 2014. O discurso da líder do Partido dos Trabalhadores (PT) no Senado brasileiro não conseguiu fazer mudar de ideias os presentes necessários para inverter a tendência de voto.

Dilma foi formalmente destituída. De pouco lhe valeu ter reforçado que o seu julgamento era sobre o crime de responsabilidade (as chamadas “pedaladas fiscais” no orçamento, ou seja, a maquilhagem de contas) e não sobre a sua ação política. As vezes em que reafirmou a sua inocência também de nada serviram para convencer os senadores, que optaram por afastá-la definitivamente. Após a votação, vários senadores reuniram-se, cantando o hino nacional.

Chega deste modo ao fim a um processo que se arrasta desde dezembro de 2015, quando o então presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, aceitou um pedido de impeachment e abriu uma Comissão para estudar o caso.

O julgamento no Senado foi o culminar deste processo, com declarações emocionadas de parte a parte. A novela que passou na TV Senado incluiu o choro de Janaína Paschoal, a advogada de acusação, que pediu desculpa a Dilma pelo sofrimento causado e classificou a destituição de “um ato divino”. Este teve mais força do que o do homólogo José Eduardo Cardozo que, apesar da argumentação jurídica, também se emocionou ao comparar a situação que Rousseff viveu durante a ditadura com o julgamento atual. No final de contas, os senadores não hesitaram em carregar no botão e declararam Dilma Rousseff culpada.

De olhos postos em Temer

Sabendo que o mais provável seria a destituição de Rousseff, a verdadeira estratégia da defesa não foi mudar o rumo da votação, mas sim convencer apenas um par de senadores para salvaguardar alguma dignidade. Era o que escrevia a edição brasileira do “El País”, citando uma fonte próxima da líder do PT: “A aeronave de Temer não irá navegar em céu de brigadeiro”, garantiu.

Dilma Rousseff lança-se agora na estratégia de olhar para a frente. Com uma ex-Presidente derrotada pelo Congresso e com poucas perspetivas de conseguir que se realizem eleições antecipadas, o PT deverá aproveitar os próximos episódios para tentar minar o Executivo de Michel Temer. Ainda esta quarta-feira, o chefe de Governo deverá tomar posse como Presidente em pleno exercício das funções.

Nos últimos meses, o vice-Presidente e membro do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) passou de aliado de Dilma no Congresso a apoiante da destituição, rompendo formalmente em março com o apoio ao Governo do PT. Em maio, com o afastamento de Dilma, Temer passou a Presidente interino. Para Dilma, a ação de Temer foi uma traição. No Senado, a líder do PT aproveitou o seu último momento para lançar farpas ao ex-apoiante: “Vivemos estranhos tempos de golpe, farsa e traição”, declarou, antes de cair o pano.

Agora, o político do PMDB ascende ao cargo mais alto do Brasil, tornando-se o terceiro Presidente do país ligado ao partido do centro. O primeiro foi José Sarney, em 1985, que ocupou o cargo após a morte de Tancredo Neves. O segundo foi Itamar Franco, após a renúncia de Fernando Collor de Melo. Para além da filiação ao PMDB, os três partilham o facto de não terem sido eleitos diretamente por sufrágio universal.