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“Se te pões aqui a gritar, o que é que isso faz por ti? Nada, nada”

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Accumoli é a localidade mais próxima do epicentro do terramoto que a 26 de agosto causou a morte de 11 pessoas, quatro de idade mais avançada e um jovem de 13 anos. Era um destino turístico conhecido sobretudo pelos edifícios históricos que vão levar meses - e um investimento financeiro gigantesco - a recuperar

Joana Beleza

Joana Beleza

enviada a Itália

Felice trabalhou a vida inteira em Roma como mecânico. Depois veio o tempo da reforma e decidiu trocar a agitação da grande cidade pela tranquilidade da montanha. Amava a paisagem da cordilheira central dos Apeninos e por isso foi viver para Accumoli, um pequeno município dentro do perímetro do Parque Nacional de Gran Sasso e Monti della Laga.

Tinha uma boa casa, de dois pisos, numa das ruas centrais, e a sua única filha tinha uma casa ali ao lado, a dois minutos a pé. Vivia há quatro anos em Accumoli, mas nos últimos dois a vida não fora fácil: a saúde da esposa degradara-se e Felice andara “para trás e para diante, de hospital em hospital” com ela. Falecida há uns meses, era agora que este italiano de 67 anos começava finalmente a pensar aproveitar a calma e a beleza da montanha, mas o terramoto de 26 de agosto veio deitar por terra essa ideia.

A casa de Felice continua de pé, mas ruiu por dentro. Logo à entrada, a moto do antigo mecânico e os triciclos dos netos estão cobertos de pó dos escombros. Parte do telhado e do segundo piso desabaram no primeiro andar e todas as paredes estão atravessadas por brechas que denunciam a violência do sismo sentido. Felice só teve tempo de “voar da cama” e sair para a rua. “Não tive medo, apenas reagi e saí o mais depressa possível. Se te pões aqui a gritar, o que é isso faz por ti? Nada, nada. Assim que isto tremeu pela primeira vez, vesti-me e saí”, descreve.

Um dia depois do sismo de magnitude 6.0 na escala de Richter, as autoridades permitem que os donos das casas que apresentam menos riscos de desmoronamento entrem nos edifícios para retirar alguns bens. É o caso de Felice que, em poucos minutos, pega em medicamentos, roupas e documentos. Está de partida para casa de familiares em San Benedetto del Tronto, junto ao mar adriático, onde vai ficar nos próximos tempos. A filha e os netos estão em Roma, por isso não quer ficar nem mais um dia por ali.

Em Accumoli, as principais ruas estão fechadas e não há sinal dos cerca de 800 habitantes que costumavam enchê-las. Exceção para as equipas de bombeiros que tentam resgatar património histórico e assegurar que as casas em mau estado não desabam por completo.

Nas imediações da localidade, perto de 300 desalojados estão a receber apoio num campo montado pela protecção civil. Outros, como Felice, foram para casa de familiares na periferia ou enviados para os hospitais da região.

Cinco dias após o terramoto que só em Accumoli vitimou mortalmente 11 pessoas (foram 290 em todo o país) e deixou centenas sem casa, as autoridades concentram-se em dar apoio psicológico à população e avaliar a gravidade da situação do património. Quem hoje entra no website deste município encontra em destaque uma mensagem oficial a pedir que não se enviem mais doações materiais para a localidade, mas que se façam transferências bancárias para uma conta criada especificamente para apoiar a reconstrução da pequena localidade no centro de Itália.