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Internacional

ONU tem financiado regime sírio com dezenas de milhões de dólares

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PATRICK BAZ

Investigação exclusiva do “The Guardian” aponta que organização internacional tem atribuído fundos de missão humanitária a empresas, grupos de caridade e indivíduos que são alvos das sanções impostas pelo Ocidente. Porta-voz diz que não há como distribuir ajuda na Síria a não ser sob os ditames de Assad

O "The Guardian" avança esta terça-feira que a Organização das Nações Unidas tem estado a atribuir dezenas de milhões de dólares a gente próxima do governo sírio de Bashar al-Assad como parte de um programa de ajuda humanitária que envolve ainda a atribuição de fundos a empresas que são alvo de sanções pelos Estados Unidos e a União Europeia.

De acordo com uma investigação exclusiva do jornal britânico, a missão da ONU para a Síria tem dado somas de dinheiro não só a empresários próximos de Assad como a departamentos e programas de caridade do regime sírio, incluindo um criado pela mulher do Presidente sírio, Asma al-Assad, e outro do seu conselheiro próximo, Rami Makhlouf.

Contactado pelo jornal, um porta-voz da missão da ONU para a Síria disse que a organização só pode trabalhar com um pequeno número de parceiros pré-aprovados por Assad e que não tem como assegurar de que forma e em que é que o dinheiro é aplicado.

"De extrema importância é chegar ao maior número possível de civis vulneráveis. As nossas escolhas na Síria são limitadas por um contexto altamente inseguro em que encontrar empresas e parceiros que operem em áreas cercadas e de difícil alcance é um enorme desafio", disse a fonte citada pelo "The Guardian".

De acordo com a investigação do jornal, a ONU já pagou mais de 13 milhões de dólares ao Governo sírio em pacotes de investimento na agricultura, apesar de a União Europeia ter banido quaisquer trocas com o departamento em questão por suspeitar que o dinheiro possa ser usado para outros fins. A par disso, pelo menos quatro milhões de dólares foram atribuídos ao fornecedor de combustível do Estado sírio, que integra a lista de alvos das sanções do Ocidente.

Da mesma forma, também a Organização Mundial de Saúde (OMS) gastou mais de cinco milhões de dólares para apoiar o banco nacional de sangue, atribuindo o dinheiro ao departamento de Defesa de Assad, que controla as doações de sangue, apesar dos "receios concretos" do organismo de que estas estejam a ser canalizadas em primeira instância para os militares que combatem os rebeldes opositores a Assad e não para civis.

Ao longo da investigação, o "The Guardian" diz ter apurado que duas agências da ONU têm estado a trabalhar com a organização de caridade Syria Trust, fundada e gerida pela mulher de Assad, tendo já atribuído um total de 8,5 milhões de dólares à primeira-dama, que é alvo de sanções dos EUA e da UE. Já a Unicef pagou quase 268 mil dólares à Associação Al-Bustan, detida e gerida por Makhlouf e que, dizem os críticos, tem ligações a várias milícias armadas. O homem mais rico da Síria, que é amigo próximo e primo de Assad e que é também ele alvo das sanções internacionais, é ainda detentor da Syriatel, uma operadora de telecomunicações síria à qual a ONU pagou pelo menos 700 mil dólares nos últimos anos.

Documentos de aquisição das próprias Nações Unidas também comprovam, segundo o jornal britânico, que as suas agências já atribuíram dinheiro a pelo menos 258 empresas sírias desde 2011, pagando desde 30 mil dólares até somas tão elevadas quanto 54 milhões a companhias que, na sua maioria, têm ligações a Assad ou a pessoas próximas do contestado Presidente.

Fontes anónimas citadas na investigação exclusiva, com ligações mais ou menos próximas à missão das agências da ONU na Síria, dizem que a ajuda financeira está a ser usada apenas em áreas sob controlo do regime e que, na prática, este dinheiro está a ajudar um Governo que tem sido responsável por centenas de milhares de mortes dos seus próprios civis desde o início da guerra em meados de 2011.

O que o "The Guardian" classifica de "fontes internas da ONU" admitem que a missão de ajuda humanitária para a Síria é a mais cara, mais complexa e mais desafiante que a organização já assumiu e que as consecutivas decisões que tem sido forçada a tomar são, em parte, questionáveis. O porta-voz oficial diz que o trabalho humanitário possibilitado pelos dinheiros da organização já ajudou a salvar milhões de vidas e que é condição do regime trabalharem em conjunto para que a ONU possa continuar a operar na Síria.