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Dilma: “Hoje só temo a morte da democracia”

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UESLEI MARCELINO / REUTERS

A presidente brasileira, afastada do cargo desde maio, dirigiu-se aos senadores brasileiros no julgamento que poderá determinar a sua destituição. Defendeu a sua governação, lançou farpas aos políticos brasileiros suspeitos de corrupção e sublinhou que enfrenta “olhos nos olhos” os seus juízes, à semelhança do aconteceu durante a ditadura

Cátia Bruno

Cátia Bruno

Jornalista

Pela primeira vez, Dilma Rousseff dirigiu-se diretamente aos atores políticos que irão votar o seu afastamento definitivo do cargo de presidente - e que podem, inclusivamente, ditar o fim da sua carreira política. No discurso de quase uma hora que fez perante os 81 senadores, Rousseff seguiu a linha que já era esperada: reforçou que o processo de destituição se refere ao crime de responsabilidade e não à sua ação política, defendeu o seu legado e o do Partido dos Trabalhadores (PT) e classificou o processo em curso uma tentativa de golpe de Estado.

Dilma não hesitou em fazer uma comparação com o que viveu durante os tempos da ditadura: “Recebi no meu corpo as marcas da tortura, amarguei por anos o sofrimento da prisão. Mas não cedi”, declarou a ainda presidente, que repetiu várias vezes ao longo do discurso a expressão “resistir”. “Resistir, resistir sempre. Resistir para que juntos finquemos o pé do lado certo da História.”

Fazendo um paralelismo com outros presidentes do Brasil como Getúlio Vargas ou João Goulart, que, de acordo com Rousseff, forem perseguidos, a presidente brasileira deixou claro que considera o processo de destituição “um verdadeiro golpe de Estado” realizado pelas “elites conservadoras e autoritárias” insatisfeitas com a releeição da primeira mulher presidente. “Não é legítimo afastarem um presidente por não concordarem com o conjunto da obra”, disse Dilma Rousseff. “Quem o faz é o povo, e só o povo, através das eleições.”

Elencando as conquistas alcançadas pelos governos do PT nos últimos 13 anos, Rousseff destacou o que chama de ataque “à auto-estima dos brasileiros” pelos “pessimistas de plantão” à “capacidade do país de realizar com sucesso a Copa do Mundo e as Olimpíadas”, arrancando aplausos aos seus apoiantes nas galerias - entre eles o ex-presidente Lula da Silva.

Dilma destacou várias vezes que não é culpada do crime de responsabilidade (as chamadas “pedaladas fiscais” que maquilhariam as contas orçamentais) e aproveitou para relembrar que não é suspeita de qualquer crime no exercício de cargos públicos - ao contrário do anterior presidente da câmara dos deputados, Eduardo Cunha, suspeito de corrupção e lavagem de dinheiro.

A presidente afastada comparou ainda a cassação dos seus direitos políticos (votada pelo Senado em caso de destituição) a uma “pena de morte política”, aludiu ao seu objetivo de conseguir a realização de eleições antecipadas e apelou aos senadores indecisos para que não condenem “um inocente”.

Por fim, na sua última luta política pela permanência no cargo, Rousseff voltou a relembrar a comparação com o que enfrentou na ditadura: “Hoje, quatro décadas depois, não há prisão ilegal, não há tortura, mas continuo de cabeça erguida olhando nos olhos dos meus julgadores.” Com uma diferença: “Hoje só temo a morte da democracia”, disse.

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