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Internacional

Brexit pode “mandar União Europeia pelo ralo”

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Sascha Schuermann

Vice-chanceler alemão diz que a União Europeia tem de impedir que o Reino Unido “tenha as coisas boas sem assumir responsabilidade”. Na mesma conferência de imprensa no domingo, Sigmar Gabriel sublinhou ainda que as negociações do TTIP com os EUA “falharam”

O vice da chancelaria de Angela Merkel avisou este domingo que o futuro da União Europeia está em risco e que o sucesso do bloco regional vai depender da forma como os Estados-membros gerem a saída do Reino Unido, batizada Brexit.

Em conferência de imprensa, Sigmar Gabriel disse ontem que a UE "irá pelo ralo" se outros países do bloco seguirem o exemplo do Reino Unido, onde 52% da população votou a favor da saída da UE num referendo a 23 de junho. Como resultado disso, sublinhou o também ministro da Economia e da Energia da Alemanha, o resto do mundo deixou de confiar na Europa, hoje tida como um "continente instável".

"O Brexit é mau mas não vai magoar-nos economicamente como muitos temem — é mais um problema psicológico e um enorme problema político", referiu Gabriel. "Se organizarmos o Brexit da maneira errada, estaremos em apuros, portanto neste momento o que precisamos é de garantir que não permitimos que o Reino Unido mantenha as coisas boas, salvo seja, relacionadas com a Europa sem assumir qualquer responsabilidade."

As declarações do vice-chanceler alemão surgem após Theresa May, a nova primeira-ministra britânica, ter convocado um conselho de ministros para quarta-feira a fim de começar a debater a saída formal da UE. De acordo com um o "The Sunday Times" este fim-de-semana, há profundas divisões entre os ministros do novo Governo britânico sobre se o Reino Unido deve ou não ceder para continuar a integrar o mercado único, a "coisa boa" referida por Gabriel que encabeça a lista de vantagens em pertencer à UE.

Nas últimas semanas, Merkel tem mantido reuniões com uma série de líderes europeus para preparar terreno para a cimeira europeia de setembro, que estará incontornavelmente focada no futuro da UE pós-Brexit. Em declarações públicas, a chefe do Governo alemão disse que os 27 Estados-membros têm de se ouvir mutuamente e com toda a atenção para se evitar a tomada de decisões políticas apressadas.

Franco Origlia / Getty Images

Uma Grã-Bretanha aberta?

O encontro dos ministros de May, marcado para depois de amanhã em Chequers, a casa de campo do primeiro-ministro, em Buckinghamshire, tem como primeiro e último objetivo discutir as hipóteses de se negociar um estatuto especial para o Reino Unido, que lhe permita continuar a pertencer ao mercado único mas sem cumprir o requisito da livre circulação de pessoas. Merkel e outros dirigentes europeus têm deixado claro que essa possibilidade não está em cima da mesa.

As declarações de Gabriel e a preparação do encontro desta quarta-feira surgiram a par do lançamento de um novo grupo da sociedade civil composto por membros de vários partidos britânicos que integraram a campanha "Remain", batizado "Open Britain" (Grã-Bretanha Aberta).

Num artigo assinado ontem no "The Sunday Times", três ex-ministros dos Liberais Democratas, do Partido Conservador e do Partido Trabalhista que pertencem ao movimento dizem aceitar que a livre circulação de pessoas não pode continuar "como até agora" mas avisam que será pernicioso "levantar a ponte levediça" que liga Londres ao resto da Europa.

Fim do TTIP?

Na mesma conferência de imprensa no domingo, Gabriel declarou que as negociações do tratado comercial conhecido por TTIP entre a UE e os Estados Unidos "falharam efetivamente". Em 14 rondas de negociações, os dois lados não conseguiram chegar a acordo sobre qualquer dos 27 capítulos em discussão, sublinhou o vice-chanceler alemão e líder do Partido Democrata Social, minoritário na coligação de governo liderada pela CDU de Merkel.

"Na minha opinião as negociações com os Estados Unidos falharam de facto, apesar de ninguém estar realmente a admiti-lo", disse Gabriel, sugerindo que Washington está zangado com a Bruxelas pelo acordo de trocas e investimento que alcançou com o Canadá, que alegadamente contém elementos que os EUA não querem no TTIP. "Não devemos sujeitar-nos às propostas americanas", disse Gabriel, numa clara indicação de que o controverso acordo poderá nunca ver a luz do dia — sobretudo após vários Estados-membros, com a Alemanha à cabeça, terem tecido críticas à postura "intransigente" da administração norte-americana.