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Aviso após os terramotos em Itália: não encomendem a reconstrução à Máfia

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MASSIMO PERCOSSI/ EPA

Fatores de corrupção já terão tido um papel decisivo no número de edifícios que tombaram e na dimensão que a tragédia atingiu

Luís M. Faria

Jornalista

O terramoto que assolou Amatrice e outras cidades italianas na passada quarta-feira não matou só quase trezentas pessoas. Também deitou abaixo um número extraordinário de edifícios, entre os quais alguns que seria de esperar terem resistido. Uma escola primária que foi renovada há quatro anos (custo das obras: um milhão de euros) supostamente teria ficado capaz de resistir a sismos. Porém, tombou completamente.

O que aconteceu não foi apenas um azar da natureza. É o que diz Giuseppe Saieva, procurador-chefe em Rieti. “Toda a gente suspeita que uma tal tragédia não foi apenas uma questão de destino. O nosso dever é verificar se também houve responsabilidade humana. As linhas de fratura fizeram tragicamente o seu trabalho, mas se os edifícios tivessem sido construídos como no Japão não teriam caído”.

As autoridades pensam que fatores de corrupção podem ter contribuído para deficiências de construção que agravaram substancialmente os danos do terramoto. Se for esse o caso, não é a primeira vez. E agora a preocupação, além de investigar as causas, é garantir que a máfia não consegue envolver-se nos contratos para a reconstrução, como aconteceu após terramotos anteriores, nomeadamente o de Irpínia, em 1980 (2400 mortos) e o de l’Aquila em 2009 (308).
“Há riscos, é inútil esconder”, diz Franco Roberti, diretor do departamento nacional antimáfia. “O risco de infiltração é sempre alto. A reconstrução pós-terramoto é um maná saboroso para organizações criminosas e interesses de negócios.” Evitá-lo será a única forma de garantir que as tragédias não se repetem – ou, pelo menos, não à mesma escala. Segundo um responsável da Agência de Proteção Civil, um terramoto à escala do de L’Aquila, se fosse na Califórnia, não mataria uma única pessoa.