Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

A um canto, sentado no chão, o líder da oposição. O comboio estava cheio?

  • 333

A bulha entre o líder trabalhista e um bilionário famoso deve estar para durar

Luís M. Faria

Jornalista

Era uma vez um candidato a primeiro-ministro que foi filmado a viajar sentado no chão de um comboio. Podia começar assim a história da ultima polémica que envolve Jeremy Corbyn, líder do Partido Trabalhista britânico. Corbyn, atualmente em campanha para se manter no cargo (a eleição interna do partido é em setembro, mas o outro candidato não parece ter grandes probabilidades de vitória, segundo as sondagens) estava com a mulher e outras pessoas quando apanhou um comboio para ir de Londres a Newcastle. Andou por várias carruagens à procura de dois lugares vizinhos e não encontrou. Acabou por se sentar no chão, rodeado pelos seus papéis e um termo. Quando lhe ofereceram a possibilidade de um ‘upgrade’ para a primeira classe, sem custos adicionais, recusou. Conforme explicou mais tarde, não era mais que os outros.

Acontece que houve gente a reparar nele, como era inevitável. E também inevitavelmente, alguém o filmou. No vídeo que foi parar à internet, Corbyn diz que o comboio estava à cunha (“ram-packed”) e reitera a sua proposta de voltar a nacionalizar os caminhos de ferro no país. A privatização, que teve lugar no tempo de John Major, o primeiro ministro que sucedeu a Margaret Thatcher, é considerada por muita gente um enorme falhanço. Os serviços em geral pioraram, os preços subiram brutalmente, e o único beneficio em muitos casos foi para os acionistas da companhias privadas. Entre eles, Richard Branson, dono (parcial) da Virgin Trains, que opera a linha onde Corbyn viajava.

Furioso com o vídeo e as afirmações de Corbyn, Branson divulgou imagens de CCTV que diz mostrarem-no a atravessar carruagens com lugares alegadamente vazios. O curioso é que nas imagens a maioria dos lugares têm cartões a mostrar que estão ocupados – e noutros havia pastas e outros objetos. De qualquer modo, Corbyn reconheceu que havia lugares aqui e ali. Não havia era dois juntos, e ele queria falar com a mulher.

Coma polémica lançada, o ministro das Finanças do governo-sombra de Corbyn, John McDonnell, apareceu a deitar mais achas na fogueira, exigindo que se retirasse a Branson o título de ‘Sir’, por ele recorrer a paraísos fiscais que privavam o Tesouro daquilo a que tinha direito. Os conservadores responderam que esse tipo de proposta vingativas mostrava bem a falta de qualidade humana de McDonnell.

Em suma, o episódio serviu para reforçar as posições iniciais de toda a gente. Para Corbyn, ilustra a necessidade de renacionalizar os comboios. Para a direita, prova que ele é mentiroso. Para Branson, volta a lembrar que é urgente, no mínimo, melhorar o serviço. E cria um problema legal, pois a divulgação de imagens de CCTV que mostram pessoas concretas só é permitida em casos muito limitados, e este não é um deles. O organismo oficial que se ocupa da proteção de dados no Reino Unido já está a investigar.