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Teerão: Ali e a máquina do tempo

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Mulheres de Teerão

fotografias catarina larcher

Eis uma cidade onde, entre as sombras, o futuro se esconde nos corações dos jovens

Não conheço vício melhor do que viajar para lugares premonitórios, lugares que têm a energia do que está ainda por vir. A quem acontece assistir a um ou outro filme iraniano ou ler um ou outro autor iraniano, fica preso à curiosidade de ver com os próprios olhos se é mesmo assim como parece. A sensação de haver alguma coisa grande por vir. Aquela gente, os persas, séculos a aprender a dissimular a vida, xiitas a fugirem de sunitas, revolucionários a esconderem-se de ditadores, mulheres desafiando as regras do decoro numa margem velada, meio consentida, uma sobrancelha desenhada a lápis, um lábio mais vermelho, terra de subterfúgios e segredos, de fingimento. E de resistência.

A minha motivação inicial para uma visita a Teerão tinha isso como pano de fundo, as ruas de Teerão filmadas por Mohammad Rasoulof em “Os Manuscritos Não Ardem”, de uma violência sufocante, sem nomes na ficha técnica, a não ser do próprio Rasoulof, para os proteger; as saudades de Marjane Satrapi, na cena desenhada a preto e branco em “Persepolis”, quando a então jovem estudante se despede dos pais pensando que era para sempre, eles a vê-la afastar-se através da parede de vidro das partidas.

Mas havia outro pretexto para eu ir a Teerão, um facto concreto e inesperado. A notícia foi difundida no mundo ocidental com base numa peça originalmente produzida pela agência de notícias estatal iraniana, a Fars. Ali Razeghi, um iraniano de 27 anos imbuído de um vigoroso espírito empreendedor, tinha registado uma nova patente. Aryayek era o nome da máquina de viajar no tempo que dizia ter inventado. O aparelho, de acordo com o relato, cabia numa pequena mala e funcionava com um simples toque de mão. O segredo estava num complexo algoritmo que tinha levado dez anos a desenvolver. “É capaz de prever a vida futura de qualquer indivíduo num horizonte de cinco a oito anos e com uma precisão de 98%”, garantia o inventor. “A minha invenção não leva as pessoas até ao futuro, traz o futuro até às pessoas.”

Estranhamente, na agência estatal a notícia acabou por ser apagada da linha. Mas a invenção ficou. Como seria possível, mesmo com a ajuda de uma máquina, um jovem em Teerão imaginar a sua vida dali a oito anos, com o regime assim ainda intacto, depois do que houve, a repressão do movimento verde, o alastramento insidioso dos serviços secretos, dos informadores, do medo, apesar da aparente abertura diplomática?

Não há ideia mais subversiva do que o futuro. Desisti de tentar encontrar Ali, o homem da máquina, mas as conversas sobre o futuro acabaram por guiar essa viagem. Conversas de esperança e de desespero com gente que conheci em festas privadas ou através das redes sociais, cujo bloqueio os jovens vão fintando com ligações a servidores à distância. Esses foram os maiores monumentos que visitei. Um estudante de cinema admirador de Slavoj Zizek. Um casal de professores à espera de uma oportunidade de voltar à rua. A ilusão de serem de novo uma maré.

Museu de Arte Contemporânea de Teerão. Inaugurado em 1977 foi uma das últimas obras encomendadas pelo Xá Reza Pahlavi, deposto dois anos depois

Museu de Arte Contemporânea de Teerão. Inaugurado em 1977 foi uma das últimas obras encomendadas pelo Xá Reza Pahlavi, deposto dois anos depois

Como não há esplanadas em lado nenhum, apesar da imensidão da cidade (foto 3) e dos seus 15 milhões de habitantes, o meu circuito tornou-se reduzido. Das duas vezes em que estive na cidade, antes e depois de regressar de uma volta pelo Irão, passei os dias a fazer incursões ao mesmo sítio: o Fórum dos Artistas, no Park-e Honar (foto 1), no coração da metrópole. Um jardim com café-restaurante e esplanada. E pessoas. Aí ficou a minha Teerão.

O Palácio Golestan é um edificado de 17 palácios, e o mais antigo monumento de Teerão

O Palácio Golestan é um edificado de 17 palácios, e o mais antigo monumento de Teerão

Um palácio e um museu

Além das pessoas de Teerão, é óbvio que há muito para conhecer. Eis dois sítios onde estive. O mais antigo dos monumentos da cidade, o Palácio Golestan — que na verdade é um conjunto de 17 palácios —, ajuda a perceber a magnificência do tempo dos xás, quando a dinastia Qajar (até 1925) recebia os seus convidados estrangeiros num magnífico salão de espelhos (os espelhos eram uma obsessão persa). 2 E para contrabalançar, o Museu de Arte Contemporânea de Teerão. Inaugurado em 1977, foi um dos derradeiros projetos culturais do último xá, Reza Pahlavi, recheado com a coleção da família real. Além de obras sobre a revolução iraniana, inclui artistas ocidentais como Gauguin, Renoir, Van Gogh ou Picasso. E até Andy Warhol.