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Os problemas de Trump

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Não usar como espelho, por favor

FOTO REUTERS

Nos últimos dias, os dois candidatos presidenciais norte-americanos enfrentaram questões que os vão perseguir até ao fim da campanha, e talvez depois

Luís M. Faria

Jornalista

Donald Trump já não quer expulsar todos os emigrantes ilegais dos EUA. Ou quer. Ou só pretende expulsar os criminosos, não as pessoas que têm um trabalho honesto e uma família constituída e se encontram nos EUA há muitos anos. Quanto à entrada de muçulmanos nos EUA, ele já não tenciona proibi-la completamente. Só se vierem de países problemáticos - Síria, Iraque, Afeganistão e alguns outros. Embora talvez fosse melhor barrar todos, com eventuais exceções decididas caso a caso. No espaço de poucas semanas, às vezes entre um dia e o seguinte, o candidato republicano disse uma coisa e o seu contrário (ou melhor: numerosas coisas diferentes, às vezes difíceis de perceber) a respeito de um assunto que foi o motor original da sua campanha, e permanece um sine qua non para muitos dos seus apoiantes.

Uma destas, até agora indefetível, é a apresentadora de rádio Ann Coulter, símbolo inconfundível de uma certa direita radical. Coulter acaba de publicar um livro sobre Trump, onde explica que com o bilionário os americanos encontraram finalmente um líder em quem podem confiar. Coulter diz que Trump a conquistou quando fez o famoso discurso em que falou dos emigrantes mexicanos como criminosos e violadores. Infelizmente para ela (e para o livro), se o critério de confiança é a rejeição dos emigrantes o lançamento da obra não podia ter escolhido pior altura: justamente no momento em que Trump começou a nuancear bastante, se não a inverter – antes de sugerir que ia voltar a pôr como antes, mais ou menos – a sua posição em relação à emigração ilegal.

Em termos eleitorais, Trump tem um problema imediato. A sua desvantagem nas sondagens é demasiado grande. Isso tem a ver com a quantidade de grupos sociais que ele aliena. Mesmo candidatos republicanos pouco carismáticos e muito fora de tempo – digamos, Bob Dole e Mitt Romney, em 1996 e 2012 respetivamente – garantiam sempre o voto de certas faixas da população. Nas últimas décadas, por exemplo, nenhum republicano deixou de conquistar a maioria dos votos dos brancos de sexo masculino, com ou sem formação superior. Por contraste, Trump apenas consegue o voto dos brancos que não foram à universidade, os quais se sentem postos à margem da economia atual. Quanto aos brancos com formação superior, este ano, pela primeira vez desde os anos 60, não deverão votar republicano.

Diferenças ideológicas à parte, Trump é simplesmente considerado “inaceitável” por muitos deles. Isso tem a ver, em parte, com a enorme falta de conhecimento e de vontade de aprender que ele exibe a respeito de muitos assuntos. O nível de impreparação é excessivo, mesmo num candidato de vocação populista. Por outro lado, expressões abertas de racismo passaram a ser consideradas zona proibida entre as classes educadas. Ora Trump – cujas convicções de base, segundo o “Economist, se formaram na juventude, quando ele trabalhava em estaleiros com os empregados do seu pai – tem uma longa história de comportamentos e declarações racistas. Ainda há pouco explicou aos negros que as suas vidas são tão pobres que não têm nada a perder, portanto mais vale votarem nele. O apelo, feito num bairro quase inteiramente branco, não visava realmente o eleitorado negro, no qual a popularidade de Trump anda pelos um por cento, mas sim melhorar a sua imagem junto do eleitorado branco.

Logo ao início da sua carreira profissional, Trump foi levado a tribunal por discriminar contra inquilinos negros (a empresa designava-os pela letra C, ‘coloured’, e procurava afastá-los). Nos casinos dele, também havia instruções a esse respeito. Em 1989, Trump publicou no “New York Times” um anúncio a apelar à execução de cinco negros condenados por violação de uma mulher no Central Park. Mais tarde, provou-se que estavam inocentes, e a cidade pagou-lhes quarenta milhões em indemnizações. Em vez de pedir desculpa, Trump deplorou o pagamento, afirmando que mesmo que os cinco homens não tivessem violado a mulher não eram nenhuns inocentes.

Quando Obama foi eleito, Trump tornou-se o arauto do movimento ‘birther’ (birth significa nascimento), que declarava a ilegitimidade da eleição, como argumento de que Obama não teria nascido no Havai, como assegurava, e sim no Quénia, o país do seu pai. O subtexto racista da ideia dificilmente se escondia. Durante anos, os ‘birthers’ desafiaram Obama a apresentar a versão integral da sua certidão de nascimento, confiantes de que ele não o podia fazer. Quando Obama, cansado da polémica, finalmente publicou a certidão, Trump foi ridicularizado. Diz-se que o impulso decisivo para se candidatar à experiência terá vindo aí, e em particular do facto de Obama ter gozado com ele em público durante o jantar anual de correspondentes em Washington.

Numa altura em que a emigração é associada por muita gente ao terrorismo e a angústia económica dos cidadãos menos qualificados se transforma em revolta, nos EUA como noutros países, Trump encontrou o momento ideal para se candidatar. A revolta, como é habitual, vira-se sobretudo contra classes desfavorecidas da população, não quem mais beneficia com a desigualdade – pessoas como o próprio Trump. O seu azar é que o descontrolo verbal torna-o demasiado óbvio, levando os cidadãos respeitáveis a fugir dele.

Para tentar manter a viabilidade da sua candidatura, Trump contratou uma nova diretora de campanha que lhe fornece discursos onde as suas posições surgem em versão moderada e em linguagem razoável. Ele lê os discursos. Mas no dia seguinte, regressa ao tom anterior. Afinal, a outra pessoa nova na sua campanha é o ex-diretor da Breibart News, um site de direita associado à chamada ‘alt-right’, ou direita alternativa. Teorias paranóicas e propostas extremas são a imagem de marca do site.

Assim sendo, há quem especule que o objetivo de Trump não é vencer as eleições, mas perdê-las e fundar um canal de televisão para fazer concorrência à Fox News. A estação de Rupert Murdoch já foi a vanguarda da direita nos EUA, mas ultimamente terá amolecido. Ou então foi a realidade que mudou…