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Os problemas de Hillary

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FOTO JUSTIN SULLIVAN/GETTY IMAGES

Nos últimos dias, os dois candidatos presidenciais norte-americanos enfrentaram questões que os vão perseguir até ao fim da campanha, e talvez depois

Luís M. Faria

Jornalista

As constantes polémicas à volta de Donald Trump, para além de ajudarem diretamente Hillary Clinton a alargar a vantagem sobre o seu rival, também a servem de outra forma. Graças a elas, fala-se muito menos das suas próprias vulnerabilidades; em especial, as que têm a ver com a relação do casal Clinton com multimilionários e grandes empresas. No entanto, essas questões são um problema real. Desde que Bill Clinton deixou a presidência em 2001, o casal acumulou uma fortuna estimada em mais de 100 milhões de dólares, boa parte da qual em pagamentos de discursos feitos a bancos como o Goldman Sachs e outras instituições poderosas. Ao mesmo tempo, os Clinton criaram uma fundação, atualmente chamada Bill, Hillary and Chelsea Clinton Foundation (o terceiro da família lá presente é a filha, Chelsea), que leva a cabo atividades de beneficência pelo mundo fora, mas também gera enormes conflitos de interesse.

Entre outras coisas, a fundação tem tido um papel importante no combate à SIDA em países do Terceiro Mundo, contribuindo para uma baixa significativa do preço dos medicamentos usados para combater a doença. Alterações climáticas, agricultura em África, reconstrução no Haiti, nutrição em escolas americanas e educação sanitária são outras áreas privilegiadas de atuação. Organismos independentes que avaliam as ‘charities’ consideram-na uma das organizações do género mais bem geridas e eficientes. Porém, ela também é útil para os Clinton se manterem em contacto com os grandes poderes do mundo, e até - acusam os inimigos do casal - como veículo de enriquecimento pessoal. Nas últimas semanas, informações que vieram a público parecem dar alguma substância a essas alegações.

Hillary foi secretária de Estado (ministra dos Negócios Estrangeiros) no governo de Barack Obama entre 2009 e 2011. Da centena e meia de pessoas não pertencentes a um governo ou outra entidade oficial com quem se reuniu durante esse período, mais de metade tinham feito doações à sua Fundação. Várias dessas pessoas pediram expressamente para ser recebidas na secretaria de Estado ou por diplomatas. Os pedidos eram geralmente encaminhados por um responsável da Fundação através de Huma Abedin, uma assessora de confiança de Hillary há muito tempo. Em emails publicados recentemente pela Judicial Watch, um grupo de direita que foi a tribunal para os obter, Abedin é abordada por um responsável da Fundação, a fim de ajudar um empresário libanês a conseguir um encontro com o embaixador dos EUA no seu país. Abedin aceita falar com Hillary, mas admite o seu desconforto com o assunto. Band responde que se está desconfortável é melhor não falar.

Tanto quanto se sabe, foi exatamente isso que aconteceu. Idem, quando outro doador pediu que fosse apressada a concessão de visto a um atleta com problemas criminais. Noutro caso, porém, houve um desfecho diferente. O príncipe herdeiro da Arábia Saudita, que tinha doado vinte milhões à Fundação, pediu e obteve uma audiência com a secretária de Estado. Dada a importância estratégica do seu país para os EUA e a aliança que existe há muito tempo entre os dois, é provável que ele de qualquer forma tivesse conseguido a audiência. Mas o facto de esta ter acontecido após a doação representa uma mistura entre interesses pessoais e políticos que inevitavelmente suscita dúvidas.

Os defensores de Hillary apontam para os casos em que são negados pedidos de doadores, e dizem que não há a menor prova de que qualquer decisão tomada por ela enquanto secretária de Estado tenha sido influenciada por contribuições à Fundação. Em todo o caso, para evitar futuros conflitos de interesse, Bill Clinton já anunciou que, se Hillary for eleita presidente, ele próprio sairá da administração da Fundação, a qual passará a chamar-se simplesmente Clinton Foundation. “As questões devem ser resolvidas de uma forma que mantenha o bom trabalho em curso mas elimine preocupações legítimas sobre potenciais conflitos de interesse”, escreve o ex-presidente no site da Fundação. “A Fundação só aceitará contribuições de cidadãos americanos e fundações independentes sediadas nos EUA, cujos nomes continuaremos a tornar públicos numa base trimestral”.

Além de abandonar a administração da Fundação, o ex-presidente deixará de participar na angariação de fundos. Aliados políticos aconselham-no a ir mais longe, desligando completamente a Fundação da família – e fazendo isso já. Nem toda a gente diz, como Trump, que a Fundação Clinton é a organização mais corrupta que já existiu e devia fechar imediatamente. Mas as sucessivas revelações embaraçosas sobre o comportamento de Hillary exigem uma atitude decisiva. Quando se descobriu que ela tinha usado um servidor privado para comunicações oficiais enquanto secretária de Estado, o FBI iniciou uma investigação. Na altura, ela entregou cerca de 30 mil emails, garantindo que não havia outros relacionados com trabalho. Afinal, há pouco apareceram outros 15 mil.

Um juiz deu às autoridades um prazo apertado para começar a torná-los públicos... nas semanas imediatamente anteriores à eleição presidencial. Segundo alguns comentadores, o objetivo da candidata agora é jogar com o tempo, de modo a ser eleita antes de o material realmente comprometedor ter oportunidade de vir à luz. Verdade ou mentira, da suspeita ela já não escapa.