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Manhã de luto em Itália, depois do confronto entre a morte e a vida

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CRISTIANO CHIODI/EPA

O número de vítimas do forte terramoto continua a subir, situando-se já nos 290. Operações de busca prosseguem, embora a esperança de encontrar sobreviventes seja cada vez menor

Helena Bento

Jornalista

O pavilhão desportivo no bairro de Monticelli, em Ascoli Piceno, Itália, foi o local escolhido para o funeral de 35 vítimas do forte terramoto de magnitude 6,2 na escala de Richter que devastou, na madrugada de quarta-feira, várias localidades no centro do país. O número de vítimas continua a subir, situando-se já nos 290, e as operações de busca prosseguem.

Na cerimónia, que decorreu na manhã deste sábado, estiveram presentes o Presidente italiano Sergio Mattarella e primeiro-ministro Matteo Renzi, bem como alguns familiares das vítimas que residiam em Arquata del Tronto, uma das regiões afetadas pelo sismo em termos de infraestruturas, e Pescara del Tronto, onde foi retirada dos escombros, com vida, Giorgia, a menina de quatro anos que deixou a Itália (e não só) comovida.

A operação de salvamento foi registada em vídeo por um dos residentes da aldeia, vídeo esse que se tornou viral nas redes sociais em pouquíssimo tempo. Giorgia Rinaldo esteve mais de 17 horas debaixo dos escombros de um edifício que ruiu em Pascara del Tronto, até ser socorrida por um grupo de bombeiros com a ajuda de civis. A sua irmã, Giulia, de 10 anos, não sobreviveu à tragédia. O seu caixão foi um dos que ocupou o pavilhão de Ascoli Piceno este sábado de manhã. Numa nota de despedida, escrita aparentemente por um dos trabalhadores envolvidos nas operações de busca, lia-se: “Adeus, querida. Perdoa-nos por termos chegado tarde demais”.

Foi o corpo de Giulia que protegeu a sua irmã, Giorgia, permitindo-lhe aguentar tantas horas debaixo dos escombros e ser retirada com vida e sem ferimentos. “Giulia morreu, mas foi ela que protegeu Giorgia... a vida e a morte enfrentaram-se e, em Giorgia, a vida venceu”, disse Giovanni D’Ercole, bispo de Ascoli Piceno, presente no funeral.

“Eu não conheço estas pessoas, mas estou muito triste por elas”, disse Luciana Cavicchiuni, residente na cidade, que decidiu assistir ao funeral para prestar homenagem às vítimas e dar apoio às respetivas famílias. “Os meus pensamentos estão com elas, com estas pessoas que perderam tudo, que perderam a casa e perderam aqueles que amam. Este tipo de coisas não deviam acontecer”.

O número de vítimas do sismo subiu para 290, depois de terem sido encontrados, durante a noite passada, três corpos nos escombros do hotel Roma, em Amatrica, a localidade mais afetada pelo sismo. É cada vez mais provável que o balanço final de vítimas mortais seja superior ao do sismo de Aquila, que em 2009 causou a morte de 308 pessoas.

Ocorrido às 3h36 (2h36 em Lisboa) de quarta-feira, o sismo, que teve epicentro a dez quilómetros de profundidade, a sudeste de Norcia, cidade da província de Perugia (Umbria), foi já considerado um dos mais mortíferos dos últimos anos em Itália. Após o forte abalo, registaram-se centenas de réplicas, incluindo mais de 50 só na noite anterior. A mais forte - de magnitude 4,9 - foi registada em Amatrice às 6h28 (5h28 em Lisboa) e durou mais de um minuto. Tempo suficiente para provocar a derrocada da fachada de um edifício situado junto a um parque onde existe um alojamento temporário para voluntários que trabalham nas operações de socorro, constatou a agência noticiosa espanhola EFE.

Segundo informações da Proteção Civil de Itália, na noite de 25 para 26 - quinta para sexta-feira - 2.100 pessoas dormiram nos acampamentos instalados em vários pontos da zona afetada. A Proteção Civil instalou diversos acampamentos e colocou à disposição ginásios e outros centros com um total de 3.500 camas para as pessoas que ficaram sem casa.