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Sarkozy, o candidato presidencial, diz que usar burquíni é uma “provocação”

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THOMAS SAMSON/AFP/GETTY IMAGES

Aspirante à presidência de França diz que uso da peça de vestuário de praia que tapa o corpo todo – e que já foi proibido em cerca de 15 cidades costeiras do país – serve para apoiar o radicalismo islâmico. Esta quinta-feira, o Conselho de Estado vai analisar queixa da Liga Francesa de Direitos Humanos

Até há bem pouco tempo, Nicolas Sarkozy era simplesmente o ex-Presidente de França, que se ocupou da liderança da República entre 2007 e 2012. Mas isso mudou no início desta semana, quando voltou ao olho do furacão político ao anunciar que pretende recandidatar-se ao cargo nas presidenciais de 2017 para destronar o seu sucessor François Hollande.

Por causa disso, as suas opiniões voltam a estar em destaque e a primeira que escolheu vociferar foi o apoio à proibição do uso do burquíni, a peça de vestuário criada pela australiana Aheda Zanetti para dar resposta às necessidades das mulheres que não querem mostrar o corpo quando vão à praia.

Para o candidato presidencial, o burquíni é uma "provocação" que serve o propósito de apoiar o radicalismo islâmico – o mesmo argumento que é usado por críticos da medida que, ao verem as imagens divulgadas esta quarta-feira, onde quatro agentes da polícia armados obrigam uma mulher de meia-idade a despir o seu burquíni, falaram no "cartaz perfeito" de incitamento a grupos extremistas como o autoproclamado Estado Islâmico (Daesh).

Numa entrevista à televisão francesa na noite desta quarta-feira, Sarkozy declarou, numa fórmula de "nós contra eles", que os franceses "não prendem as mulheres com tecido", dando o seu apoio declarado à proibição do burquíni nas praias de Nice e de outras cidades, que vai ser analisada esta quinta-feira pelo Conselho de Estado francês.

Em resposta, a criadora da peça de vestuário disse que os franceses como Sarkozy não percebem o intuito do burquíni. "Acredito piamente que os franceses entenderam mal e não sabem o que é um burquíni nem o que ele representa", diz Zanetti num artigo de opinião publicado no "The Guardian". "Alguém fazer um comentário como este sobre uma peça de vestuário que tem a ver com alegria, demonstra que essa pessoa não sabe do que fala."

FETHI BELAID / AFP / Getty Images

Esta tarde, o mais alto tribunal administrativo de França vai examinar um recurso apresentado pela Liga Francesa de Direitos Humanos contra a medida adotada contra o uso de burquínis nalgumas praias do país. Os advogados da organização argumentam que os decretos temporários aprovados pelas autoridades de Nice e de outras cidades são ilegais.

À agência France Press, o autarca de Nice reagiu esta quarta-feira às críticas tecidas por muitos, dentro e fora da esfera das redes sociais, contra o facto de uma mulher ter sido obrigada a despir o seu burquíni por quatro agentes armados da polícia –garantindo que ela não foi obrigada a nada e que estava simplesmente a mostrar às autoridades o fato de banho que trazia vestido por baixo da túnica e sobre um par de leggings. Continua por esclarecer se a mulher foi obrigada a fazê-lo, embora muitos acreditem que sim, com base numa imagem em que se vê um dos agentes a passar-lhe uma multa.

Colocando-se no lado oposto ao do primeiro-ministro Manuel Valls, que apoia a proibição dos burquínis, o ministro francês do Interior declarou esta quarta-feira que o país deve ter cuidado para não "estigmatizar" os muçulmanos, neste caso as mulheres que seguem o Islão e que tendecialmente usam mais este tipo de fatos de banho. "A implementação do secularismo e a opção de adotar tais decretos não pode levar à estigmatização ou à criação de hostilidades entre o povo francês", declarou Bernard Cazeneuve à saída de um encontro com o líder do Conselho Francês para a Fé Muçulmana.

Nice foi a última cidade francesa a proibir o uso do burquíni por mulheres, juntando-se a outras 14 áreas costeiras do sudeste francês onde a medida foi implementada recentemente sob argumentos de segurança nacional e ordem pública. A proibição está a alimentar uma discussão sobre os limites da lei e os direitos das mulheres a terem o poder exclusivo de decidirem o que querem vestir.

Muitos críticos têm sublinhado a ironia de se proibirem os burquínis, associados à religião islâmica, mantendo legal o uso de hábitos por freiras católicas ou até de fatos de surf por praticantes da modalidade (e por pessoas mais friorentas que querem nadar no mar). Tal, dizem, demonstra que esta não é uma questão de libertação das mulheres oprimidas ou de defesa do secularismo, antes um ato político que ataca uma única religião, numa altura de crescente islamofobia na Europa e restante Ocidente.