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Salvar faz-me sentir vivo

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MASSIMO PERCOSSI / EPA

Em Itália, nas localidades mais castigadas pelo sismo, milhares passaram na rua a primeira noite pós-tragédia. Há quem tenha perdido tudo. E há quem prefira arregaçar as mangas para não ceder à angústia, ajudando as equipas de socorro

De povoação idílica a cidade fantasma, Amatrice viu o seu estatuto mudar – literalmente – da noite para o dia e, por muito que os seus habitantes gostassem de pensar que ‘o pior já lá vai’, a realidade não o permite. Depois de o sismo de magnitude 6,2 ter arrasado a localidade na madrugada desta quarta-feira, a contabilidade dos mortos não acabou, o cenário a perder de vista só alcança ruínas, e persiste um balanço demasiado elevado de desaparecidos.

Sergio Pirozzi, o autarca local, é a imagem de um homem devastado. O lugar é pequeno e conhecia quase toda a gente. Perdeu muitos dos seus amigos, sabe que nada voltará a ser como antes. Já esta manhã, confessou aos jornalistas o receio de as mortes em Amatrice ascenderem a 200 (190 vítimas estão já confirmadas), dado continuarem por descobrir 40 pessoas.

O colapso do Hotel Roma, o mais popular em Amatrice, é uma das grandes preocupações. Julga-se que teria hospedados no momento do sismo 32 turistas, mas no total estariam 70 pessoas no edifício. Quatro foram retiradas dos escombros. Às autoridades não está a ser fácil determinar quantas mais poderão estar ainda soterradas.

STEFANO RELLANDINI/REUTERS

Encontrar sobreviventes é o pensamento quase exclusivo de quem está no terreno. Lorenzo Boti tem 59 anos e chegou a Amatrice, vindo de Roma, ao entardecer de quarta-feira. Esta madrugada resgatou 15 sobreviventes, conta o “The Guardian”, entre eles algumas crianças. “Não há palavras para descrever o que se sente quando acontece. É uma emoção muito grande, faz-nos sentir vivos”, contou ao jornal britânico.

Já quanto aos mortos retirados dos amontoados de pedra e destroços, Lorenzo faz por não somar. É difícil, sobretudo por cada um deles lembrar que outros mais serão descobertos.

Milhares de pessoas passaram na rua a primeira noite pós-tragédia. Porque perderam as suas casas ou porque, embora estas não tenham ficado destruídas, estão demasiado instáveis para serem consideradas seguras.

Há quem tenha perdido mesmo tudo, sendo esta perda o que une grande parte das 1200 pessoas que procuraram abrigo nas tendas que a Proteção Civil italiana instalou na cidade.

CIRO DE LUCA / Reuters

Os acampamentos improvisados repetem-se nas regiões de Lazio e em Las Marcas, as mais massacradas pelo tremor da terra. Ao todo, 4000 pessoas instaladas de emergência. Só de Accumoli partiram 2500, carregando consido os poucos pertences que conseguiram recuperar.

Também há quem tenha procurado refúgio em casas de amigos ou quem tenha regressado, por estar no local apenas de passagem, gozando férias.

Em Pescara del Tronto, onde morreram 20 pessoas das 247 vítimas confirmadas oficialmente, os hotéis da zona também colocaram ao dispor as suas instalações. Mas há quem só se sinta mais seguro no interior dos próprios carros, por temer as réplicas, que não param de se fazer sentir.

Os que preferem transformar a angústia em ação unem-se aos homens da Proteção Civil, aos bombeiros e médicos, ou às demais equipas que prosseguem as buscas e asseguram a distribuição dos bens essenciais, como alimentos, água e roupa.

CIRO DE LUCA / Reuters