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“Amatrice morreu”. Sismo desfez as pontes e o apoio teve de vir do céu

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ANGELO CARCONI / EPA

As operações de salvamento poderão encontrar os corpos daqueles que ainda enchem as listas de desaparecidos em várias localidades italianas. Dois sismos severos acordaram de madrugada o centro do país

Rossend Domenèch, correspondente em Itália

Os dois terramotos que na madrugada desta quarta-feira sacudiram três regiões do centro de Itália provocaram até ao momento 120 mortos, uma centena de feridos e entre 150 e 200 desaparecidos, que podem não ter morrido mas apenas abandonado os locais onde se encontravam. Os números vão sendo atualizados a espaços e as autoridades estimam que o balanço final de mortos poderá ser muito mais alto. “As vítimas mortais serão ainda mais”, explica Fabrizio Curcio, diretor da Proteção Civil.

Os sismos aconteceram às 3h30 e às 4h35 locais (menos uma uma hora em Lisboa) a cerca de quatro quilómetros de profundidade, com uma magnitude de 6 e 5,4 graus na escala de Richter, definidos pela Proteção Civil como “sismos severos”. Trata-se de intensidades semelhantes ao sismo de 6,3 graus que em 2009 fez 309 mortos em Áquila, embora naquela ocasião os tremores de terra tivessem tido epicentros na parte central dos Apeninos, uma zona onde não existem grandes cidades.

Giuseppe Bellini / Getty Images

Os sismos desta madrugada atravessaram a península na diagonal, acordando os habitantes da Itália central – de Ancola a Nápoles, Roma, Florença e Bolonha – em pleno sono, o que provocou cenas de pânico e fugas em corrida para a rua. Três regiões foram afetadas, Lazio (Roma), Umbria (Perugia) e Marcas (Ancona), em cujos territórios os Apeninos cruzam a península do Adriático até ao Tirreno e registaram-se cerca de 150 réplicas ao longo do dia.

Os centros mais afetados são a cidade histórica de Amatrice e as aldeias de Accumoli e Arquata del Tronto. Na primeira morreram 35 dos 38 mortos contabilizados até meio da manhã desta quarta-feira. “Amatrice morreu”, dizem os seus habitantes. “Metade da povoação está por terra”, disse o presidente da Câmara Sérgio Pirozzi. Os primeiros socorros da Proteção Civil tiveram de chegar à população a partir do céu, que foi sobrevoado por helicópteros porque as pontes ruíram.

O território de Arquata del Tronto (cerca de dez mortos) ficou também praticamente destruído.

A dificuldade de identificar as cerca de duas centenas de desaparecidos deve-se ao facto de, em agosto, muitos italianos da zona central passarem as suas férias nos Apeninos e de não existirem listas de deslocações. As datas coincidiram também com uma festa popular na região que atraíra muitos turistas. Foi por isso que se criou um perfil de Facebook onde as pessoas podem comunicar o seu paradeiro e estado de saúde.

Giuseppe Bellini / Getty Images

O centro nacional de vulcanologia italiano estima que o movimento das placas tectónicas na madrugada desta quarta-feira tinha sido de dez centímetros. Em Áquila chegou aos 30 centímetros. E o abalo que provocou o maremoto no Oceano Índico em 2004, que matou 493 mil vítimas, provocou uma deslocação das placas de 50 metros.

Primeiros socorros

Poucos minutos após os dois terramotos, a Proteção Civil já tinha começado a prestar os primeiros auxílios aos quais se juntou, durante o resto da noite e a manhã, todo o dispositivo estatal para emergências.

A zona afetada é considerada de risco no mapa sísmico nacional, razão pela qual os habitantes participam regularmente em exercícios de simulação de terramotos. Isto terá salvado muitas vidas esta madrugada, uma vez que ao mínimo tremor muitas pessoas precipitaram-se para as praças e espaços abertos como campos de futebol.

Durante as operações de resgate houve cenas dramáticas semelhantes às que aconteceram nos terramotos de Áquila (2009, 309 mortos), Irpinia (1980, 2500 mortos) e em San Giuliano de Apulia (2002), em que desapareceu uma classe inteira de uma escola. Ou como o de Umbria (1977, 11 mortos) e o de Friuli (1976, quase mil mortos).

Giuseppe Bellini / Getty Images

Uma mulher apanhada por três placas de cimento armado, sangrando e a tremer, estava a ser ajudada a suportar a espera por socorro quando manifestou sinais de grande nervosismo provocado pela urgência que sentia para urinar. “Senhora, faça à vontade, neste momento é o que menos importa”, disse-lhe amavelmente um bombeiro.

Os hospitais da região ficaram todos danificados e por isso os feridos, alguns em estado grave, tiveram de ser transferidos para os centros das capitais de província. A União Europeia e muitos outros países ofereceram “todo o tipo de ajuda”, ainda que Itália disponha de um dos melhores serviços de Proteção Civil do mundo em virtude dos seus periódicos episódios de emergência.