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Na prisão tudo é dinheiro – e o dinheiro mais valioso já não é o tabaco

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Neilson Barnard

Estudo norte-americano mostra que decréscimo da qualidade e da quantidade de comida que é fornecida aos detidos do país mudou o paradigma de trocas dentro dos estabelecimentos prisionais. Hoje é rei quem tiver massa instantânea e não maços de cigarros

Os pacotes de massa instantânea, vulgarmente conhecida como noodles de ramen, destronaram o tabaco do primeiro lugar da lista de bens de consumo mais valiosos dentro das prisões dos Estados Unidos. De acordo com um estudo elaborado por Michael Gibson-Light, houve uma profunda alteração na economia de trocas dentro dos estabelecimentos prisionais norte-americanos nos últimos anos, em larga medida por causa da decrescente qualidade e quantidade de comida fornecida aos prisioneiros.

"Porque é barata, saborosa e rica em calorias, a massa instantânea tornou-se tão valiosa que é hoje usada para trocas por outros bens", aponta o autor do estudo divulgado esta segunda-feira, citado pela BBC. "Os prisioneiros estão tão infelizes com a qualidade e a quantidade de comida que lhe é dada que começaram a depender dos noodles, um produto alimentar barato e durável, como forma de dinheiro na economia subterrânea" das prisões.

Atualmente, os pacotes de massa instantânea são mais usados do que maços de tabaco para as trocas entre prisioneiros e funcionários dos estabelecimentos, por outros bens ou serviços como roupa, produtos de higiene, lavandaria ou o simples ato de fazer as camas nas celas. Da mesma forma, os cigarros e outras típicas moedas de troca como selos e envelopes perderam protagonismo para os noodles em jogos de cartas ou partidas de futebol.

O investigador faz questão de sublinhar que a substituição da principal moeda de troca dentro das prisões não está relacionada com recentes proibições de acesso a produtos de tabaco impostas pelo sistema prisional do país. Com base em entrevistas a funcionários de vários estabelecimentos, a prisioneiros e às suas famílias, Gibson-Light concluiu que está sobretudo ligada ao facto de a comida servida aos que cumprem sentenças de prisão nos EUA estar a diminuir em quantidade e qualidade de forma consistente há várias décadas, uma mudança que poderá ter sérias implicações, refere o sociólogo da Universidade do Arizona.

"A forma que o dinheiro assume não é algo que mude muitas vezes ou facilmente, nem sequer na economia informal das prisões. É preciso um choque ou uma questão importante para iniciar tal mudança." Daí que o autor considere essencial que outros especialistas e as autoridades norte-americanas avaliem o impacto desta profunda alteração e, sobretudo, da falta de qualidade e da baixa quantidade de comida servida aos prisioneiros e as consequências desse desinvestimento a longo prazo.

Investigações conduzidas ao longo dos últimos anos demonstram que o valor total da despesa nas prisões norte-americanas não tem acompanhado o aumento exponencial do número de detidos nos estabelecimentos espalhados pelo país ao longo dos anos.

Em 2010, os estados norte-americanos gastaram cerca de 48.500 milhões de dólares (42.700 milhões de euros) em cuidados com os prisioneiros, uma queda de 5,6% em relação ao ano anterior, de acordo com dados governamentais. O sistema prisional dos EUA está ainda parcialmente concentrado nas mãos de entidades privadas, onde o lucro é uma prioridade maior do que o respeito pelos direitos humanos.