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Na Selva de Calais: onde 95% é seguro e de 5% ninguém fala

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HABITAÇÃO. A casa é improvisada, é provisória - mas vai ficando definitiva

Em setembro serão dez mil migrantes amontoados num acampamento que permanece ilegal. Muitos chegam iludidos, a maioria está disposta a qualquer coisa para chegar a Inglaterra. É como se fosse um país estranho entre dois outros que não querem reconhecer-lhe a existência e sobre o qual só voluntários e jornalistas falam

Cristina Peres

Cristina Peres

Jornalista de Internacional

“Batemos palmas cada vez que um polícia nos cumprimenta”. O gesto é quase tão raro como é imprevisível o comportamento da polícia na “Jungle”, a selva de Calais. Quem o conta ao Expresso é Marta Costa a meio da descrição da rotina diária dos voluntários com quem trabalha no acampamento à porta de Calais. “A polícia consegue principalmente atrapalhar. Entram em campo, começam a destruir a comida e os restaurantes dos migrantes, que desatam a fugir e a gritar 'Police! Police!”.

A “Selva” fica fora da cidade, a uns 15 minutos de estrada de distância, e faz “fronteira” com a auto-estrada de caminho para o Eldorado de Dover, o porto de chegada no Reino Unido.

Ali tudo é “fronteira”, as ruas desordenadas do “campo” - cuja zona sul foi desmantelada pela polícia de choque e antimotim francesa em fevereiro deste ano -, a distância da cidade, também inacessível aos numerosos habitantes do acampamento que por lá vagueiam durante o dia. Há ainda as “fronteiras” língua e cultura destes candidatos a migrantes, que facilmente entram em disputas territoriais se os afegãos, sudaneses, curdos e paquistaneses não forem agrupados por zonas. São na sua esmagadora maioria homens que ali chegaram sozinhos ou em pequenos grupos de amigos ou familiares, entre os quais estavam contabilizados na passada sexta-feira 876 crianças (13, 14 anos), 700 das quais não acompanhadas. As ONG presentes na “Selva” estimam que, em setembro, o número de pessoas chegue a dez mil. Atualmente são 8.900 amontoados no espaço onde, no inverno passado, estavam 3.300 pessoas.

Há ainda as “fronteiras” de contornos difusos entre as Organizações não Governamentais a operar na “Selva” que, à falta de uma gestão centralizada, por vezes se sobrepõem, quando não tropeçam nas funções umas das outras.

MENSAGENS. A circulação de informação é importante

MENSAGENS. A circulação de informação é importante

Desconhecido mundo novo

Toda a gente já terá ouvido falar da “Selva” de Calais, mas poucos sabem como funciona no dia-a-dia este ponto de chegada de milhares de migrantes económicos e refugiados que sonham chegar a Inglaterra. A “Selva” existe e não existe, depende do ponto de vista. Quando a polícia bloqueia durante quatro dias seguidos a entrada de tendas militares no recinto justifica-o pelo ar sólido e “definitivo” das mesmas. São, na verdade, as mais desejadas e com mais longas listas de espera entre os habitantes do acampamento, uma vez que são as mais robustas e resistentes às intempéries e chegam a alojar 13 pessoas. O campo não existe “oficialmente” senão do ponto de vista da presença policial, que garante a segurança. Ou durante as operações de demolição, quando forma os cordões de segurança em torno das zonas a desmantelar pelos operários recrutados de propósito. Os habitantes mais hábeis conseguem salvar as suas posses para se instalarem de novo numa área que não esteja diretamente ameaçada. Aconteceu em fevereiro e pode imaginar-se que venha a repetir-se no futuro, já que o número de pessoas que chega não pára de aumentar (ver texto em baixo).

PRECÁRIO. Quando chove, o acampamento transforma-se num lamaçal

PRECÁRIO. Quando chove, o acampamento transforma-se num lamaçal

Muito pouco se sabe sobre o quotidiano de um campo de gente em trânsito entre vidas, aquelas que conhecem e das quais fogem a todo o preço, e aquelas que apenas imaginam. Umas fantasias de que ouviram falar e que equivalem à solução para todos os anseios. “Não há nada que os demova de tentar chegar a Inglaterra e não sabem nada sobre as possibilidades de pedirem asilo a outros países. Vivem obcecados por não se registarem antes de chegarem a Inglaterra”, diz Marta Costa, referindo o Acordo de Dublin da União Europeia, que prevê que os requerentes de asilo fiquem no primeiro país onde registam a impressão digital. Muitos optam por fingir que são menores, o que lhes dá mais hipóteses.

Quase todas as noites há movimentações inesperadas no campo que denunciam os migrantes que saltaram as vedações da auto-estrada e conseguiram fazer parar os camiões TIR em direção à fronteira com barricadas improvisadas. Muitas vezes fica só pela tentativa... O grito “dougar!!” faz os homens correrem a tentar meter-se nas partes de baixo dos camiões, junto aos pneus, fá-los trepar para qualquer frincha que lhes permita passarem despercebidos e atravessarem o Canal para Dover. De vez em quando, morrem atropelados. “Dougar” significa “engarrafamento”. Significa liberdade, lutas com a polícia e gás de pimenta, ou morte.

IMITAÇÃO DE CASA. Uma rara roulote entre as tendas

IMITAÇÃO DE CASA. Uma rara roulote entre as tendas

Há pouca informação, muitos mitos e falta de sentido de realidade naquele amontoado de tendas que a jovem universitária ajuda a distribuir e a montar de manhã à noite, sem parar. Marta está na “Selva” desde dia 5 e ficará até final de agosto como voluntária da Help Refugees, uma ONG inglesa que trabalha em parceria com a francesa L'Auberge des Migrants (entre 100 e 150 voluntários em rotação). Via Whatsapp ou por voz, sempre que houve rede de telemóvel, comunicámos com Marta ao longo de uma semana. Apesar de morarem em Calais, os voluntários passam o dia todo na “Selva”, distribuem e montam tendas (até as que são distribuídas por outras ONG) e kits de receção às cerca de cinco dezenas de pessoas que chegam por dia. Cada um tem direito a três mantas e a um conjunto de higiene.

A base da ONG é um armazém em Calais cuja localização é suposto manter-se em segredo. É lá que estão todos os materiais para distribuir, é lá que que é confecionada a refeição diária distribuida no campo, é lá que alguns operacionais vivem e é lá que se planeia e executa toda a atividade da ONG.

MATERIAL. A “warehouse” é a base de sustentação da atividade dos voluntários que vão para campo

MATERIAL. A “warehouse” é a base de sustentação da atividade dos voluntários que vão para campo

Apesar de terem instruções para só permancerem na “Selva” enquanto estiverem a realizar tarefas, Marta Costa diz que o convívio com os migrantes é essencial para eles: “E é muito importante que aquilo que aqui vivemos chegue a outras pessoas, embora o campo esteja em perigo de ser fechado”. Conta que os portugueses são os que mais conversam, em particular com os sudaneses, “são cinco estrelas!”. Estamos sempre com eles ”. “Fazemos as nossas refeições na casa de um sudanês”, conta Marta Costa: “Ele tem uma casa, quer dizer, um quarto feito de madeiras com uma cobertura de plástico e uma mesa no exterior onde senta os seus convidados. Nós”. Uma refeição nos restaurantes do campo custa €3, e vende-se pão nan.

CASA. Um jardim plantado na “Selva” de Calais

CASA. Um jardim plantado na “Selva” de Calais

“A maioria dos sudaneses vem do Darfur e muitos deles abandonaram os cursos a meio. Perguntam muitas vezes quanto custa estudar medicina, por exemplo. Eu respondo com as propinas de uma universidade pública em Portugal e eles ficam de boca aberta... até que dizem que nunca terão dinheiro para terminarem os estudos”.

“Uma das coisas que me fez mais impressão foi encontrar muitos refugiados da minha idade que deixaram os cursos a meio”, diz a voluntária de 20 anos.

No campo, os voluntários são abordados a toda a hora pelos que pedem tendas, sacos-cama, cobertores, “não paramos um minuto até ao final da tarde”, conta Marta Costa, reconhecendo que há muitas situações em que é fácil sentirem-se desconfortáveis. “O campo está cada vez mais inseguro porque chegam muitas pessoas todos os dias".

“Há dias, um iraquiano pedia-nos um sítio para ficar só por umas noites porque ia voltar para o Iraque. Não nos disse a razão, limitou-se a dizer que vai porque é estúpido”, conta, acrescentado: “Para nós é tudo muito confuso, às vezes não sabemos o que pensar”.
“Nós temos um grupo 95% seguro. Não podemos dizer que é 100% seguro porque em caso de lutas no campo torna-se tudo imprevisível”, conclui Marta Costa.

Nota: Este artigo foi alterado na terça-feira às 22h em resultado de novos dados

  • Segunda “Grande Selva” da região de Calais evacuada

    Enquanto prossegue em Calais, com incidentes quotidianos, o desmantelamento da “Selva” local, inicia-se também esta segunda-feira, a 40 km de distância, em La Grande Synthe, a evacuação do mais insalubre dos campos de refugiados de França. Migrantes são convidados a habitar, na mesma zona, em “chalets” de madeira de 10 m2