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Na preparação para os debates Hillary tem um problema: encontrar quem faça de Trump

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David Becker / Nancy Wiechec / Reuters

Como prever as respostas de um candidato cuja natureza é ser imprevisível?

Luís M. Faria

Jornalista

O primeiro debate entre os dois principais candidatos presidenciais nos EUA será a 26 de setembro. Prevê-se que tenha uma audiência enorme, talvez superior à dos próprios Jogos Olímpicos. Hillary Clinton e Donald Trump vão preparar-se minuciosamente, com a ajuda de assessores experimentados. Para os democratas, porém, tem havido dificuldade num aspeto crucial da preparação: decidir quem fará o papel de Trump nos ensaios.

“É muito difícil encontrar alguém para imitar o temperamento irresponsável e os instintos odiosos de Donald Trump”, explicou este domingo Robin Mook, manager da campanha. Um estratega democrata, Bob Shrum, foi mais concreto: “É um treino complicado. O desafio para Clinton é preparar-se para o Trump louco que provavelmente vai lá estar, um Trump um pouco mais moderado e um Trump algures no meio”. Ideia reforçada por Ed Rendell, um ex-governador da Pensilvânia: “Ele (Trump) pode dizer qualquer coisa. É quase impossível estar completamente preparado”.

O problema-chave, portanto, é a imprevisibilidade. Ao contrário de praticamente todos os candidatos presidenciais republicanos ou democratas, Trump tem um estilo muito longe do convencional. Neste momento, a única certeza quase absoluta é que ele estará ao ataque no debate. Parece bastante provável surgirem questões sobre o comportamento de Hillary quando era secretária de Estado, em especial o seu uso de um servidor privado para comunicações oficiais, bem como o facto de decisões tomadas por ela e por Obama terem facilitado a ascensão do Daesh no Iraque e na Síria.

Trump também deverá explorar os conflitos de interesse envolvendo a Fundação Clinton, que recebeu doações de pessoas e entidades com interesses afetados por decisões políticas. Hillary costuma dar respostas pouco satisfatórias nessas matérias, onde há conflitos éticos evidentes. Porém, tão importante como a substância das respostas será o tom, sobretudo para cativar os eleitores ainda não decidisos. “Quem é ideologicamente neutro vê Trump a gritar, furioso, centrado nele próprio, sem nunca se rir, sempre autorreferencial”, diz Mark Green, advogado público de Nova Iorque. Por contraste, “Hillary é a mãe rigorosa que queremos, sorri periodicamente e mantém sempre uma pose digna, transmite empatia”.

Monica Lewinsky de regresso

Nos últimos dias, a especulação em torno do Trump-substituto subiu de tom, e diversos nomes foram avançados. Falou-se em políticos, num bilionário e até no ator Al Pacino. Mas um nome mais plausível será o do famoso advogado Alan Deshorwitz. Segundo Green, “Alan Dershowitz fala depressa, à nova-iorquino, alto, e, claro, é um liberal [de esquerda, na aceção americana] e pode imitar Trump bastante bem”.

Para lá de quem quer que faça de “Trump”, as respostas de Hillary, segundo Green, serão “microanalisadas” por dez assessores durante os ensaios, em busca de potenciais fraquezas ou embaraços. Greg Craig, um ex-advogado da Casa Branca no tempo de Obama (e que fez em 2004 o papel de George W. Bush na preparação do então candidato democrata John Kerry), justifica os cuidados. “É raro um candidato vencer a eleição num debate, mas bastante frequente poder perder a eleição num debate”, avisa.

No caso de Trump, “não está acima dele que Monica Lewinsky tenha um papel no debate”, diz Craig. A referência é à estagiária com quem o Presidente Bill Clinton fez um tipo de sexo que deixou vestígios na roupa dela. O escândalo quase levou à demissão de Clinton em 1998, e este fim de semana Trump já declarou a sua satisfação por Lewinsky ter guardado o vestido incriminador. “Mostra quem eles são”.