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Viagem ao meio do nada

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Cumprir o ritual da célebre Route 66 é meio caminho andado para encontrar um passado glorioso, paisagens hipnóticas e maravilhas geológicas

Foi no meio do nada, em East Peach Springs, no Arizona, depois de ter atravessado sítio nenhum, que a honra desprezada da Route 66 me surgiu com a nitidez dos mitos e o turvamento da sua realidade. The Mother Road, a estrada do grande sonho americano, jazia a meu lado sem néon que lhe valesse, paralela ao não menos mítico caminho de ferro Santa Fe Rail e um pouco distante da Interstate 40. Depois de um dia a conduzir, em vez de começar a contar carneirinhos para adormecer, comecei a contar comboios, os comboios que noutra encarnação foram estrela de muitos westerns. De 15 em 15 minutos, os comboios, cada um com uma média de 100 vagões de mercadorias puxados e empurrados por quatro a seis potentes locomotivas, acionam a campainha da passagem de nível e, não contentes, apitam fortemente mais do que as três vezes cinematográficas. Daí a minha insónia e o início deste texto.

O anúncio da sua presença quotidiana em East Peach Springs, como em todas as outras centenas de passagens de nível, é uma forma de perpetuar o mito e manter a dormir os escassos habitantes de uma vila quase fantasma que a essas horas da noite só acordam quando o maquinista se esquece de acionar o muito característico e sonoro apito. Por outras palavras, as de residentes, passam uma média de 100 comboios por dia; cada um com mais de um quilómetro de extensão, perfaz 100 quilómetros de vagões diários, uma das veias jugulares que enriquecem a economia americana.

A Route 66, com os seus motards, os nostálgicos e as centenas, talvez milhares, de turistas curiosos, entre os quais o autor destas linhas, vai alimentando o imaginário do mundo inteiro e negócios de ocasião. No fundo, é uma coitada cuja honra também lhe foi roubada pelas autoestradas interestatais de seis faixas por onde circulam os milhares de camiões TIR, chamemos-lhes assim, com o seu design muito próprio, e as centenas de enormes caravanas que albergam os americanos, que também se definem por andarem constantemente com a casa às costas.

Mandam as leis da 66 que ela seja tudo e nada ao mesmo tempo. Perde-se ou acha-se por dá cá aquele cruzamento, ao ponto de eu ter ido parar à porta de armas de uma base aérea para grande espanto do sentinela. Por vezes, quase é preciso andar de lupa ao volante para a reencontrar porque ela se esfuma em terra batida, está intransitável face ao mau estado do piso ou acaba subitamente sem aviso prévio. Outras vezes, quase é preciso pôr óculos escuros para amortecer o seu esplendor porque refulge, ganhando outra toponímia, em novo tapete cosmopolita como rua principal de uma grande ou pequena cidade, vila ou aldeia. Por exemplo, em Albuquerque, no Novo México, a 66, com o nome de Central Avenue, espaneja 18 milhas (28,8 km) de pujante boa disposição comercial quase em linha reta, deixando ver a quem anda à procura alguns edifícios art déco que a emolduram desde os bons anos 30.

A estrada assim entrecortada por memórias, referências, canções e livros começa em Chicago e acaba em Santa Mónica, Los Angeles, 3700 quilómetros depois. Contrariamente à romana Via Appia, que tem uma coluna dórica a assinalar o seu término em Brindisi, na Puglia italiana, a 66, que também contribuiu para unir um império, tem um placard a anunciar “End of the trail”, entre carrosséis, montanhas russas, tasquinhas de comes e bebes muito americanas e tendas e mais tendas de recuerdos rodoviários, porque ela, a 66, pelo Faroeste fora, também fala espanhol por razões históricas e de proximidade com a fronteira mexicana.

Dependendo do tempo disponível, pode ser apanhada onde o condutor queira ou possa. Eu apanhei-a em Santa Fé, no Novo México, não contando com a pequena distância que liga Albuquerque a Tijeras, a leste. O que interessa é poder dizer “já fiz a 66”, ou grande parte dela, com um orgulho próprio de quem cumpriu um ritual romântico e obriga os amigos a roerem-se de inveja quando se lhes mostram as mil e uma fotos e se lhes contam as peripécias que vão juntas com as maravilhas do caminho. Maravilhas essas que a estrada também proporciona ao indicar que, mais à frente, se pode deixá-la, virar para Sul ou para Norte, para o Utah, em direção ao Grand Canyon ou a outras estupefações geológicas como Monument Valley, Antelope ou Bryce, a muitas dezenas de quilómetros de distância. Convém notar que, nestas paragens, a unidade de conta das distâncias não se calcula em quilómetros ou milhas mas em tempo. Apenas conta, e deve contar, o tempo obrigatório da contemplação da paisagem.

Diga-se em abono da verdade que a 66 é uma fantástica pasmaceira. Percorrê-la, e percorrer todas as outras estradas que com ela se cruzam, é fazer uma viagem através do meio do nada, sem que nada aparentemente se passe. Retas e mais retas de 15 e mais quilómetros, calor e mais calor, deserto e mais deserto. Um remoinho de vento, que sobreleva do chão a poeira fervente, anima uma paisagem repetitiva, inóspita e hipnótica, e surge como um efeito especial num horizonte límpido pelo ar seco e cujo cromatismo, baço e quente, se impõe pela sua naturalidade. Mas é a beleza do nada que atrai e subjuga com o peso da sua vastidão.

Estranhamente, não há lugar a miragens. Os longínquos horizontes visíveis reverberam em ondas verticais de ar quente e mantêm a ilusão de que para lá do sol poente existe a terra prometida banhada pelas águas redentoras do Pacífico. Quer façamos a 66 de manhã ou à tarde, a favor ou contra o sol, de madrugada ou ao crepúsculo, mantém-se firme, custe o que custar, a determinação de chegar ao fim da estrada sem que o pneu fure com cardos da luva gótica perdida ou deitada fora pelo motard de Harley em punho, sem que falte a água ao radiador, sem que rebente o tubo do óleo, sem que falte a gasolina.

Enquanto não chega o horizonte marítimo depois de tanta terra, os portos de salvação são os sítios que florescem onde menos se espera, terriolas fantasma, postos de abastecimento físico e químico, simples oásis, por onde perpassa uma nostalgia verdadeira ou reconstruída de propósito para ser captada pelos megapixéis dos smartphones de viajantes que vão parando para se aliviarem e beberem uma Coca-Cola gelada. São as etapas que mantêm viva a atividade humana desprezada pelas autoestradas de ligação interestatal. Para chamar a atenção do condutor, basta um pequeno aglomerado de mobile homes, basta ver uma roulotte no meio do deserto com duas ou três pick-ups estacionadas e pensar como é possível alguém viver ali. Aquela gente, índios de várias tribos na sua grande maioria, vive de quê? E depois lá vemos ao longe uma ou outra cabeça de gado e pensamos nos livros “No Country for Old Men” ou “The Road”, de Cormac McCarthy, porque também se sabe que por ali há muita malfeitoria, e também se sabe que por ali há mundos em extinção.

Memória. A estrada que atravessa a América perdeu importância para as grandes autoestradas, mas as relíquias estão lá a lembrar tempos idos

Memória. A estrada que atravessa a América perdeu importância para as grandes autoestradas, mas as relíquias estão lá a lembrar tempos idos

É através dela, e na companhia próxima ou distante mas sempre presente do caminho de ferro e das interstates, que o carro vai deslizando em cruise control a 50 milhas à hora. O condutor fica livre para divagar sobre as razões da atração de um percurso que já foi crucial e agora quase não passa de um longilíneo parque de atrações esporádicas, um entretenimento para quem sabe à partida que a aventura de regressar ao passado tem o peso intraduzível de uma história mil vezes contada e glorificada. É a história mitificada de índios e cowboys, de xerifes e bandidos, de heróis solitários à la Clint Eastwood e dos justiceiros à la John Wayne. A história da conquista do Faroeste, badlands onde a lei e a justiça se impõem depois de duelos ao pôr do sol com as Colt 45 sacadas dos coldres à velocidade da sobrevivência.

Olhamos a paisagem, as planícies, as ravinas, as montanhas, as crateras de vulcões, os desfiladeiros e tudo o que desejamos nesta viagem onírica é que a diligência puxada por seis cavalos brancos nos ultrapasse numa correria desenfreada e poeirenta, que os índios surjam ao virar do canyon numa emboscada reivindicativa, que os cowboys venham atrás deles a galope e aos tiros e que a bela donzela em perigo salte para a beira da estrada a pedir-nos boleia para um futuro melhor.

Nem só das estrelas, que depois foram cimentadas no Walk of Fame de Hollywood, se alimentam os fantasmas que pairam sobre o Faroeste do qual a 66 faz parte integrante. Há Ghost Ranches, Ghost Canyons, Ghost Rivers, Ghost Towns. The Flying Saucer, em Boulder City, já perto de Las Vegas, é uma loja para crianças especializada na Área 52 (onde os crentes afirmam existirem atividades extraterrestres), noutras bonecadas de meter medo e em brinquedos e puzzles com ET de todo o género e feitio. E, a sudeste de Albuquerque, não nos podemos esquecer de Roswell, onde há seguramente bruxas espaciais, embora todos nós saibamos que elas não existem. O Sudoeste americano, pela sua própria natureza, é terreno propício aos zens de todo os cantos.

O meu fantasma preferido é o de Everett Ruess, que desapareceu por estas bandas aos 20 anos de idade. Partiu para o meio do nada, para os canyons de Escalante e Antelope (por onde andei) com dois burros, alguns mantimentos, outras tantas panquecas, um estojo de pintura para as suas aguarelas e litografias, e um caderno em branco para escrever cartas à família e poemas para a posteridade. Desapareceu sem deixar rasto em 1938. Só os burros foram encontrados.
“Não me canso do deserto; pelo contrário, gosto da sua beleza e da vida vagabunda que levo. Prefiro a sela ao elétrico, o céu estrelado ao teto, o trilho obscuro e difícil à estrada pavimentada…”, escreveu à família.

“...In the step silence of thin blue air/ High on a lonely cliff-ledge/ Where the air has a clear, clean rarity,/ I give to the wind... my pledge...”, escreveu para a posteridade.

De repente, até me assustei. Pareceu-me ver um fantasma todo vestido de branco, mas depois de esfregar os olhos para ter a certeza de que a realidade estava a ultrapassar a ficção, vi uma noiva de origem asiática esbaforida de calores a descansar num banco de pau em Monument Valley após sessão de fotografias — como pano de fundo, os magníficos cenários das grandes coboiadas de John Ford. Foi ali que quase estive para pagar cinco dólares mais gorjeta para passar à posteridade montado num cavalo entediado com o típico chapéu do cowboy, o laço à cintura e a Colt 45 falsa no coldre. “Out of place”, pensei.

As estradas, e não só a 66, proporcionam encontros inesperados. Num outro sítio igualmente no meio do nada, Cainville, ao longo da 24, no Utah, numa banca de venda de queijos e pão caseiro, o editor do “Guia Michelin” para o Sudoeste americano estava sentado a comer pão com queijo e a falar com o jovem agricultor local. Disse-me depois que ia ficar em Algés, perto deste jornal, daí a uns dias para assistir ao festival de música da NOS. O mundo é pequeno. Viajar por aqui sem guias de ajuda é penoso. Além do “Guia Michelin” e do “Lonely Planet”, o guia “Route 66 — Adventure Handbook”, de Drew Knowles, foi particularmente útil.

A cada viajante sua história, bem entendido. E os viajantes correndo atrás da 66 vêm de todo o mundo — muitos europeus, muitos japoneses, muitos latinos, muitos americanos com as suas potentes motos e as suas enormes caravanas. Os estrangeiros, na sua maioria, dormem em motéis à beira da estrada, de preferência naqueles que ostentam os néons mais característicos. Os americanos preferem os RV Parks (Recreational Vehicules — caravanas grandes puxadas por pick-ups ou autocaravanas). Eu naveguei à vista, a melhor forma de viajar.

Instantes. O canyon mágico que muda todos os dias e todos os dias revela a forma de uma parte da América que parece ter parado no tempo como um bisonte na pradaria. Uma estrada de cowboys, de um antigo feito novo e do novo que se tornou antigo, um caminho que acaba junto ao mar, num presente que deixa adivinhar o futuro

Instantes. O canyon mágico que muda todos os dias e todos os dias revela a forma de uma parte da América que parece ter parado no tempo como um bisonte na pradaria. Uma estrada de cowboys, de um antigo feito novo e do novo que se tornou antigo, um caminho que acaba junto ao mar, num presente que deixa adivinhar o futuro

A iconografia associada à 66 remete-nos para a arqueologia do marketing comercial e faz-nos sonhar com as valentias, o cavalheirismo e os justos princípios dos bons velhos tempos, é uma constante visual e sentimental. Em cada ponto de paragem recordam-nos que as grandes estrelas de Hollywood dormiram e amaram por lá. Há quartos com os seus nomes e quem é que, pelo menos no meu caso, não gostaria de dormir onde dormiu a Marilyn? Vendem-se postais ilustrados e toda a simbologia associada à estrada. Os grandes chefes índios surgem em sépia nas reproduções de originais captados pelos grandes fotógrafos americanos dos finais dos século XIX e princípios do século XX. As estrelas do western a preto e branco, e algumas a cores, também lá estão à venda em postais ilustrados. Como são os bons das fitas e os vencedores da história real e cinematográfica, substituem, ampliados, as pinturas nas paredes das salas de jantar dos motéis ou lodges.

O legado iconográfico da 66 é uma mistura de realidade e ficção, como não poderia deixar de ser. Em cada trading post, onde os índios vendem as suas mantas, joalharia, artesanato e coroas de penas, posto de abastecimento ou simples oásis de percurso, existem relíquias próprias dos anos 30 em diante (carcaças dos lindíssimos Chevrolets, Buicks, Fords), bombas de gasolina ferrugentas, restos de moinhos de água, cartazes publicitários com uma elegante inocência estética difícil de esquecer. Com o hábito da paragem e o olho mais treinado vai-se notando que alguns desses objetos carcomidos vieram de outros lados, talvez de feiras de velharias, e ali foram dispostos na construção de um cenário que vai deliciando a vista de quem assiste ao filme que a estrada proporciona. Mais tarde, nos estúdios da Universal Pictures (uma visita obrigatória pelo delírio da sua fantasia), em Los Angeles, onde a 66 termina a sua história, lá estavam esses e outros cenários, os mais antigos em madeira ou esferovite prensada, os mais recentes em três dimensões digitais, a atestar precisamente que a história da América tem os pés bem assentes na terra e a cabeça bem nutrida pelo sonho.

Há muita gente a sonhar com a 66. Manda o imaginário universal que é uma daquelas viagens que se deve fazer uma vez na vida. É como plantar uma árvore, escrever um livro e fazer um filho. Ou subir ao Pico, nos Açores. É-se mais homem, ou mulher, é claro, cumprindo mais este ritual. Mas este não é um ritual de passagem, uma prova de maturidade. É talvez o crisma das grandes esperanças, das boas intenções e dos belos ideais sem os quais a vida não abarca toda a beleza disponível.

Há uma beleza transcendental e prodigiosa nos canyons que ficam a norte da 66, nos seus grés, nos desertos pedregosos e rugosos dos 500 mil hectares do Glen Recreational Park, e onde, como dizem os brasileiros, a mão do homem jamais pôs o pé. Nas bermas da 66 encontram-se outras maravilhas geológicas, entre muitas delas, a cratera do meteoro, o deserto pintado, a floresta petrificada. É preciso ver para crer porque não há palavra, fotografia ou filme Imax 3D que prepare o visitante para os sucessivos espantos, para a redução infinitesimal da sua precária condição humana perante o poder da paisagem. Pode ser uma paisagem gigantesca (Grand Canyon), rendilhada (Bryce Canyon) ou labiríntica (Canyon Antelope), mas qualquer que seja o percurso pedestre escolhido, qualquer que seja o ângulo de observação, qualquer que seja a incidência da luz, eu gostaria de ser capaz, evocando os grandes mestres de Hollywood, de realizar um filme de meia hora que condensasse os milhões de anos necessários à produção de uma beleza ímpar, um filme certamente elogiado com o máximo de estrelas pelos críticos do Expresso. Quantos milhões de anos foram necessários para produzir o Queen’s Garden no Bryce Canyon? Era uma boa maneira de compreender, e de ensinar às criancinhas, o modo como as forças da criação moldaram a natureza das pedras.

Foi em Antelope, perto de Page, no Arizona, caminhando no fundo do estreitíssimo canyon, que é um intricado de paredes verticais, oblíquas e horizontais, de sol e sombra, ondas de arenitos e grés, de matizes que esgotam a escala da cor de laranja, de formas que se alteram ao longo do dia, de filtros naturais que iluminam a poeira suspensa, como se o Espírito Santo benzesse em permanência um lugar que é pertença dos Navajos, que eu compreendi, e aceitei como lógica a evanescência do jovem poeta Everett. Eu era capaz de ficar ali uma eternidade deitado na areia alaranjada (com um spray antiescorpiões, aqui só para nós que ninguém nos lê...) a olhar para a fresta por onde o sol penetra e ir vendo como é que, milímetro a milímetro, o canyon muda de figura, como é que uma sombra me sugere uma cabeça de leão, como é que um raio solar me dá um corpo de mulher, como é que uma penumbra me ilumina o espírito. É assim, movido por poemas índios e sonhos de juventude, que Antelope apresenta aos 600 mil turistas anuais um esplendoroso cartão de visita pago antes do início da expedição. O ambiente subterrâneo é simultaneamente acolhedor e claustrofóbico, a ponto de haver pessoas que têm de ser evacuadas à pressa por não suportarem o peso natural de tamanha revelação. Resta-me a consolação (e a humilde pretensão...) de ser o único, neste local, a divagar sobre a compreensível e atraente fatalidade do belo.

A primeira impressão de que a minha viagem pelo Faroeste ia ser uma caminhada pelo meio do nada surgiu quando o avião que me levava de Montreal, Canadá, para Denver, EUA, aterrou em North Platte, Nebraska, o meu primeiro dos middle of nowhere, com falta de gasolina. Tanta volta deu o Embraer da Air Canada para escapar às tempestades sobre Denver que teve de fazer uma escala não programada e aí, pela primeira vez, eu tive uma pálida noção da monumental aridez que me estava reservada.

Se eu soubesse o que sei hoje, não teria alugado um jipe em Albuquerque, mas uma banheira lowrider em Santa Fé, onde há um museu sobre esta cultura chicana muito arreigada no Sudoeste americano desde aos anos 30. Os lowriders preferem o carro à casa. Aliás, o carro é a sua casa. Compram os belíssimos modelos Ford, Buick, Chevrolet, Lincoln, Cadillac, Oldsmobile dos anos 50 até 70, e investem neles o que têm e não têm. Embelezam-nos, rebaixam as suspensões ao máximo, pintam-nos com as berrantes cores metalizadas da sua preferência, andam muito devagar pelas ruas das cidades para impressionar as miúdas com a música em altos berros e os bancos recostados como se estivessem numa esplanada, de palito na boca e chapéu à cowboy descaído sobre a testa. Teria ido a 20 à hora estrada fora à descoberta da América profunda num lowrider descapotável. Não para engatar miúdas, mas para possuir e ser possuído pelo espírito on the road. Seria preciso mais tempo do que as minhas três semanas disponíveis. Só assim seria capaz de fugir do turista acidental que fui e estaria em condições de me deixar inebriar com uma dose maciça de encantamento.

A ironia final de uma viagem de perto de três mil quilómetros que me levou pelo Novo México, Arizona, Utah, Nevada e Califórnia, acompanhado de ideais, fantasmas e fantasias, é a de que fiquei branco como a cal depois de uma derradeira prova de amor paternal. Não muito longe de Santa Mónica, onde a 66 termina em festa, estão os estúdios da Universal Pictures. Foi aí que eu, aos 68 anos, voei mesmo ao lado do Harry Potter, e do meu filho de 12 anos, num alucinante circuito aéreo digital e tridimensional. Aterrei, sem nunca ter saído da cadeira, muito mais enjoado do que uma pescada e sem dar acordo de mim durante duas intermináveis horas.

“Parece que o papuska (é assim que ele amorosamente me trata quando tem pena de mim ou pretende qualquer coisa) viu um fantasma!”, mal o ouvi dizer à mãe. Mal sabia ele, nem podia saber, que o levei estrada fora numa viagem iniciática na companhia de fantasmas e de sonhos universais. Desejos de gentes e povos vivendo num mundo totalmente distinto daquele que o viu nascer e verá crescer com a ajuda de um Deus comum a todos os prodígios.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 13 agosto 2016