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Londres afasta Pequim de nova central nuclear

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Novo submarino nuclear Astute em ação no alto-mar

Handout/ Getty

Theresa May aproxima-se dos EUA e renova submarinos atómicos

Nenhuma nação é uma ilha, nem o Reino Unido que, sendo-o geograficamente e tendo votado para se separar da União Europeia, não está em posição para desprezar parceiros comerciais como a China. Mas foi assim que os chineses entenderam a decisão de Theresa May, primeira-ministra britânica, em adiar a aprovação do multimilionário projeto para a construção da central nuclear Hinkley Point C, em Somerset, no sudoeste do país. Seria a primeira de uma geração com tecnologia francesa, via Électricité de France (EDF). Um terço do investimento seria assegurado pela China General Nuclear Power Corporation (CGNPC), o que abriria aos chineses a participação nas futuras centrais de Sizewell (Suffolk) e Bradwell (Essex).

May adiou um projeto de 18 mil milhões de libras (24 mil milhões de euros), que deveria produzir 3200 MW, o suficiente para seis milhões de casas (7% das necessidades do país). Se os franceses, pelo menos oficialmente, se mantêm calmos, os chineses tornaram público o seu desconforto. O embaixador chinês, Liu Xiaoming, escreveu no diário “Financial Times” que esta decisão poderia pôr em causa “a confiança mútua” e que “a abertura do Reino Unido às relações bilaterais com a China deve ser a base dessa confiança”, sobretudo no “momento incerto” que o país atravessa.

China não deve controlar o sector energético

“A primeira-ministra não partilha com o seu antecessor, David Cameron, o entusiasmo pelo estreitamento das relações com a China”, disse ao Expresso Raquel Vaz-Pinto, do Instituto de Política e Relações Internacionais da Universidade Nova. “Tem que ver com o ‘Brexit’ na medida em que um dos maiores aliados do Reino Unido, os EUA, já se manifestou contra o peso chinês num sector estratégico da economia britânica. A Austrália também recusou recentemente a entrada da China na energia.

Há uma tendência geral para reavaliar os negócios com a China devido às posições nacionalistas que têm assumido em relação às ilhas do Mar do Sul da China”. Para a investigadora, que se manifesta, “sem dúvida”, contra o peso da China em sectores estratégicos das economias europeias, incluindo em Portugal, há uma questão essencial: “Quando chegamos aos últimos níveis de decisão nas grandes empresas chinesas que investem pelo mundo fora, estamos a lidar com representantes dos interesses de um Estado autoritário”. As reticências ao projeto não passam apenas pelas habituais críticas ao nuclear (como se “limpa” uma central em fim de vida? Como se lida com um desastre como Fukushima? Porque não investir mais em energia solar ou eólica?). Notícias mais recentes dão a esta história contornos de um romance de Le Carré. Allen Ho, um dos engenheiros nucleares na direção da CGNPC, que viria a ter 33% em Hinkley Point C, foi acusado de espionagem nuclear por alegadamente recrutar engenheiros e especialistas nucleares norte-americanos para lhe darem assistência no desenvolvimento e produção de material nuclear para a China.

Enquanto isso, na vertente militar do nuclear, Theresa May teve a sua primeira vitória no Parlamento, mesmo contra todo o Partido Nacionalista Escocês (SNP) e vários membros trabalhistas: a renovação do Trident, o programa de dissuasão nuclear britânico, que implica renovar a frota de submarinos existente (da classe Vanguard), substituindo-a por quatro novos submarinos (da classe Successor) também equipados com mísseis com ogivas nucleares. Escreveu Polly Tonybee, analista política do diário “The Guardian”: “Por um lado, o Governo diz que precisa de renovar o programa Trident, para nos proteger de eventuais inimigos — chineses? — num mundo perigoso. Mas, por outro, parece não se importar com os avisos de que os chineses possam inserir software maligno nas centrais nucleares produtoras de eletricidade e manter-nos sob chantagem. Se isto é um cenário completamente ilusório então para que precisamos dos mísseis Trident?”.