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Declarada a guerra do burquíni

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FETHI BELAID/AFP/Getty Images

Políticos e civis dividem-se enquanto os ânimos se exaltam. Paris não quer legislar

A polémica sobre o uso do burquíni, versão de praia do véu islâmico, agita toda a sociedade francesa, provocando grandes tensões nalgumas regiões, sobretudo no sul e da ilha da Córsega, no mar do Mediterrâneo, onde três municípios aprovaram decretos proibindo o seu uso.

Depois dos recentes atentados e chacinas, as relações dos franceses com os muçulmanos, que nunca foram boas, ficaram muito mais complicadas.

Em França, raramente se veem mulheres com a tradicional burqa, mas encontram-se muitas a passear nas ruas com o véu que, ao contrário da primeira, deixa visível a cara. O burquíni — combinação de burqa e biquíni — tem mais que ver com o véu do que com a burqa porque, embora cubra o corpo todo, deixa visível a face, as mãos e os pés.

O uso de véu na rua não é proibido, mas as mulheres que o vestem são mais insultadas do que nunca, segundo os relatórios do Coletivo contra a Islamofobia em França e de organismos de defesa dos Direitos Humanos. “Querem que fiquemos invisíveis”, disse uma mulher com véu aos jornalistas, em Nice, onde a 14 de julho um radical islâmico cometeu (com um camião) uma das mais atrozes chacinas de que há memória no Ocidente: 84 mortos e dezenas de feridos.

O uso do burquíni foi proibido em Cannes e Villeneuve-Loubet, na Côte d’Azur, e em Sisco, na Córsega. Outros municípios do país, como na costa norte da França, anunciaram desejar aprovar medidas idênticas. A polémica agravou-se depois de, no sábado, se ter verificado uma violenta rixa em Sisco, na ilha da Córsega, entre famílias de origem magrebina e outros residentes hostis ao burquíni, que algumas mulheres muçulmanas vestiam numa praia.

Os confrontos provocaram cinco feridos e três dos carros das famílias muçulmanas foram incendiados. Durante esta semana decorreram manifestações muito radicais em Bastia, capital da ilha, onde foram gritadas palavras de ordem como “às armas”, “vamos vingar-nos”, “esta terra é nossa”. A tensão é enorme e alguns bairros de maioria muçulmana tiveram de ficar sob proteção policial.

Depois dos atentados de 2015 e 2016, nos bairros dos subúrbios das cidades francesas a convivência parece impossível entre muçulmanos e outros franceses, apesar dos apelos à calma dos chefes católicos, judeus e muçulmanos.

Em Paris, há apenas uma zona onde as mulheres se passeiam tranquilamente com véu, como constatou este repórter nesta quinta-feira, ao fim do dia, na avenida dos Campos Elíseos. Em família ou em pequenos grupos de pessoas que se adivinham muito ricas, frequentam esplanadas, entram em grandes hotéis, fazem compras em lojas de luxo e ninguém as incomoda.

A célebre avenida é uma exceção e a sobrevivência do comércio do luxo, debilitado nos últimos meses devido ao receio de atentados, depende muito destas famílias e dos turistas vindos de países árabes. Os patrões e empregados das lojas que aceitam falar aos repórteres condenam a proibição do uso do burquíni. “Vem agudizar as tensões, era escusado lançar esta polémica neste momento”, disse ao Expresso um empregado de mesa.

O primeiro-ministro, Manuel Valls, apoiou as medidas aprovadas nos três municípios (um socialista e dois de direita). “Todos os espaços públicos, devem ser preservados de reivindicações religiosas e o uso do burquíni não é compatível com os valores da França e da República”, explicou Valls. Outros ministros dizem que o burquíni é um ataque aos direitos das mulheres muçulmanas.

Na Córsega, os autonomistas, no poder na região, também têm a mesma opinião e os nacionalistas clandestinos mais radicais do FLNC ameaçam responder “sem compaixão” a qualquer operação islamita violenta contra os corsos.

Há quem conteste a proibição, como é o caso de Jean-Pierre Chevènement, socialista, recentemente indigitado pelo Presidente François Hollande para dirigir a “Fundação do Islão de França”. “As pessoas são livres de tomar banho vestidas ou não”, afirmou este antigo ministro do Interior.