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Chisinau: o Leste ainda pode ser o que era

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ana baião

A capital da Moldávia vive de traços do passado soviético que sobrevivem ao tempo

É a gentileza das suas gentes que nos aproxima de imediato da Moldávia. O pequeno país do Leste europeu, rodeado pela Roménia e pela Ucrânia, não é um destino turístico muito habitual, trata-se da mais pobre economia do Velho Continente e as infraestruturas do século XXI ainda estão por chegar. Rural, como não podia deixar de ser, tem como símbolo a árvore da vida e espraia-se em campos verdejantes e plantações de árvores de fruto, sobretudo macieiras e cerejeiras. É assim até na capital, Chisinau, que nos recebe de braços abertos pelas portas da cidade (foto 2) — dois enormes prédios em pirâmide, de arquitetura soviética bem patente.

Embora já seja tarde, a população ainda não dorme enquanto somos conduzidos ao hotel no centro de Chisinau. Pelo caminho, as bombas de gasolina e as farmácias com néones de todas as cores indicam uma vida noturna farta de trabalho, mas é mais à frente que percebemos que também há lugar para a diversão. Os bares estão abertos e pelos parques da cidade os mais jovens passeiam calmamente. Deitam-se tarde os moldavos mas também se levantam cedo. O fervilhar no mercado central começa ainda mal o sol descobriu. Lá se mede o pulso da capital. Os agricultores chegam com os produtos frescos, dos ovos às hortaliças, passando pelos queijos e azeites e as trocas diretas confundem-se com as vendas aos populares que aproveitam para comprar ali até o eletrodoméstico.

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ana baião

Em Chisinau as lojas estão às moscas, tudo se transaciona na rua, exceto os vinhos, a galinha dos ovos de ouro que todos querem acreditar que têm em mãos. Na Moldávia, a indústria vitivinícola cresceu exponencialmente nos últimos anos e se há bons pequenos produtores também há gigantes muito maus. Para ter a certeza do que compra vá ao Carpe Diem, uma loja e bar perto da praça central da cidade. Se não, aventure-se pelo país fora. Vale a pena, apesar das estradas não serem fáceis de transitar. Leve um guia consigo, há já bastante gente a falar inglês e com conhecimentos históricos e sociais interessantes para o acompanhar e, além disso, alugar um carro ainda é ao preço da chuva.

Orheiul Vechi (foto 1), a um pouco mais de duas horas de Chisinau, é um monumento natural, uma escarpa longitudinal com várias grutas que desponta no meio de vales de perder de vista. Dentro das grutas, um monge de 80 anos mantém acesa a vela de um magnífico mosteiro gelado, de onde os fiéis fugiram há muito tempo por falta de condições de vida. E lá em baixo, no sopé da escarpa, fica a aldeia de Butuceni, com um eco resort tradicional, onde a placinte (massa folhada recheada de vegetais, queijo ou carne) e a mamaliga (milho, enchidos, queijo e natas), os pratos mais famosos da cozinha moldava, são de chorar por mais e o convívio com os aldeões se faz ao ritmo da música e da dança noite fora, ou, logo pela manhã, nos pastos das quintas, onde a azáfama com os animais é muita mas há sempre tempo para um cigarrinho.

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Na Moldávia, se são tantos os lagos artificiais, mandados construir pelo regime soviético por, como reza a lenda, Estaline achar que faltava a água naquelas terras por lhe terem dado vinho para lavar as mãos quando visitou a região, também o são desde a independência (1991) as igrejas. Das muitas já restauradas, e de outras tantas por restaurar, sobressai no regresso a Chisinau a igreja circular de Crocmaz (foto 3), uma relíquia coberta de frescos inesperados à espera de mão de obra para lhes dar nova vida. A mesma que se sente ao ouvir os cânticos religiosos à distância a caminho do Bastion, um dos poucos restaurantes de comida ocidental na capital. Também é preciso pausas para respirar.

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S.O.S. artesanato
Os tapetes tecidos num tear manual, as camisolas e saias bordadas à mão, os cobertores de lã com os motivos tradicionais, as toalhas de linho rústico, os gorros quentes para o inverno frio, as cintas e os calções dos trajes típicos... E, enfim, todos os têxteis que há séculos decoravam as casas da população moldava estão a desaparecer. Por isso, na pequena aldeia de Clisinova Noua, a antiga escola primária foi transformada em oficina-museu. Só mulheres e meninas ali trabalham, porque os trabalhos são considerados domésticos, mas trabalham muito. O objetivo é só um: salvar o artesanato moldavo, os padrões e moldes originais dos têxteis. Fazem-no por amor à arte popular e por dedicação a uma técnica, aquela que as avós aprenderam com as bisavós...

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 13 agosto 2016