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A (eterna) Garota de Ipanema

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Continua cheia de graça mas já não vai a caminho do mar. Helô Pinheiro, a garota de Ipanema, símbolo de um verão feliz e intemporal, é avó. Criou uma linha de roupa de praia com a marca do mito. Afinal, estes não morrem. Mas envelhecem. O Expresso falou com ela, para um trabalho publicado originalmente na Revista de 18 de junho de 2011 e que republicamos agora no Expresso Diário

BELDADE. Helô Pinheiro não despe a marca da Garota de Ipanema desde a década de 60. Musa de Vinícius e Tom Jobim, passou de anónima a símbolo da beleza carioca

BELDADE. Helô Pinheiro não despe a marca da Garota de Ipanema desde a década de 60. Musa de Vinícius e Tom Jobim, passou de anónima a símbolo da beleza carioca

FOTO MICA COSTA GRANDE/4SEE

São inesquecíveis, mas envelhecem. Mesmo eles. João Gilberto, pai da Bossa Nova, fez 80 anos há uma semana. O poetinha Vinícius de Moraes e o maestro Tom Jobim morreram. Helô, como é conhecida por todo o Brasil, tem quase 70 anos. Continua linda.

"Olha que coisa mais linda
Mais cheia de graça
É ela menina
Que vem e que passa
Num doce balanço, a caminho do mar"

João, Tom, Vinícius e Helô são nomes que preenchem o imaginário de um vasto público por todo o mundo. Não parecem sair de moda. São símbolos de um Brasil dourado, cheio de charme, antes da crise económica, da hiperinflação, da violência urbana. As garotas, como se diz por lá até hoje, iam em direção à praia, leves e soltas de preocupações. Ipanema era cenário de violão, romance e essa imagem idílica foi vendida para o mercado internacional como um ativo do país. Dois anos antes do chumbo da ditadura militar tomar conta do Brasil e começar a mudar o rumo da História. E de mudar até a música brasileira, passando do aconchego das décadas de 50/60 à estridência que veio depois.

Por trás de cada um destes nomes, de cada símbolo, de cada artista, estava uma pessoa. Por trás da Helô, a garota de Ipanema, estava Heloísa. Estava e está. Avó e empresária, mulher de armas, pronta a reagir às adversidades, como ela mesma explica numa entrevista por e-mail ao Expresso. Conta como foi passar do anonimato à celebridade e transformar a circunstância num caminho útil para a sua vida e a da sua família.

Durante três anos, Heloísa não sabia o que se urdia a propósito das curvas do seu corpo. Solteira, ia de casa para a praia, sem olhar à volta. Nunca viu aqueles dois homens sentados, com um copo numa mão e uma caneta na outra, nem sabia que eram grandes poetas e eternos apaixonados da mulher brasileira.

d.r.

Menina de família, não pressentia o que já estava fixado no papel. Só descobriu quem era e o que significava para a cultura popular brasileira quando Vinícius de Moraes escreveu numa revista que Heloísa era a tal.

"Foi como receber um grande prémio. Levou três anos para que eu fosse informada pelo próprio Vinícius de Moraes, que escreveu um depoimento para uma revista a explicar quem era a verdadeira Garota de Ipanema", afirma Helô ao Expresso. E, neste texto, Vinícius não deixou margem para dúvidas: "Para ela fizemos, com todo o respeito e mudo encantamento, o samba que a colocou nas manchetes do mundo inteiro e fez de nossa querida Ipanema uma palavra mágica para os ouvintes estrangeiros. Ela foi e é para nós o paradigma do broto carioca; a moça dourada, misto de flor e sereia, cheia de luz e de graça mas cuja visão é também triste, pois carrega consigo, a caminho do mar, o sentimento da mocidade que passa, da beleza que não é só nossa - é um dom da vida em seu lindo e melancólico fluir e refluir constante."

"Moça do corpo dourado
Do sol de Ipanema
O seu balançado é mais que um poema
É a coisa mais linda que eu já vi passar"

Simplicidade não é falta de desejo. "Eu era estudante do curso do Magistério Público e pensava que iria ensinar crianças de escola pública. A minha vida era dividida entre estudo, ballet e desporto. Amava jogar voleibol e raquetes de praia", recorda Heloísa. Simples. "Era jovem e, como todos os jovens, tinha grandes ambições e menos preocupações. Uma ambição era poder ser alguém com condições para ajudar a minha família. Por isso, já fazia anúncios e participava em desfiles de beneficência. Primeiro, pensei em ser bailarina, mas como sofria de asma desisti da carreira. Mas o palco me fascinava. Então, surgiu o sonho de ser atriz", conta.

E, quando a fama bateu à sua porta, a jovem foi avisada pela família: "Minha mãe sempre dizia que eu devia preservar a minha personalidade e humildade, pois a vida era feita de altos e baixos e o melhor era estar sempre em harmonia com os factos."

A construção do símbolo

A 'Garota de Ipanema' é provavelmente uma das mais conhecidas músicas brasileiras. Foi composta em 1962, no contexto da Bossa Nova. No ano seguinte, Astrud Gilberto, na altura casada com João Gilberto, gravou 'The Girl from Ipanema', com a letra adaptada e que se transformou rapidamente num sucesso mundial.

Desde então, inúmeras versões e intérpretes ajudaram a celebrizar a música que tem soado até hoje nos ouvidos de várias gerações. Frank Sinatra, Cher e a banda de rock Sepultura são alguns exemplos de artistas que já se aventuraram naqueles acordes. E pensar que tudo começou com o leve balançar das ancas de Heloísa Eneida Menezes Paes Pinto, Helô... então com 17 anos.

d.r.

Passado praticamente meio século, Heloísa ainda é Helô. É mãe de três filhas e um filho, avó de três netas, casada desde sempre com Fernando Pinheiro, um engenheiro três anos mais velho do que ela. E as duas passaram a ser só uma. "Helô Pinheiro e a Garota de Ipanema já se incorporaram de tal forma que até já lancei biquínis com a marca e estou a preparar o lançamento de outra, a Helô Pinheiro, com roupa para jovens senhoras." Não só a mulher, também o percurso se eternizou - o Bar Veloso, em frente ao qual passava Heloísa e em cuja esplanada habitualmente Tom e Vinícius se sentavam, passou a chamar-se Bar Garota de Ipanema.

Quando foi escolhida, Heloísa era solteira. Quando foi anunciada a sua identidade, já estava noiva. No início, os pais preferiam que se mantivesse recatada, e, por isso, recusou muitas entrevistas. "Acedi em respeito aos meus pais, que temiam pela mudança na minha vida", conta. Mas Heloísa casou-se e, depois de casada, as coisas mudaram de tom. "Com um problema financeiro do meu marido, parti para trabalhar no que gostava e aceitei fazer novelas. Enfrentei tudo e todos para conseguir dar aos meus filhos a vida que gostaria que tivessem", revela ao Expresso.

Helô fez novelas, participou em peças de teatro, montou uma agência de modelos. Depois, entrou para a faculdade de Jornalismo e acabou por se transformar em apresentadora televisiva. Participou em júris de programas de auditório, comandou gincanas. "Enfim, a arte estava ao meu alcance e eu trabalhava dando o melhor de mim", resume.

FOTO MICA COSTA GRANDE/4SEE

Atualmente, é empresária. Aproveitando a marca que a tornou famosa, abriu duas lojas de biquínis e lançou uma linha de tratamento capilar. Também fundou uma pequena dinastia de mulheres bonitas. Explica que a filha mais velha, Kiki, chegou a concorrer a um concurso que tentava eleger uma nova Garota de Ipanema. Concorreu e ganhou. "Fiquei feliz, porque ela pode representar-me através da sua boa forma, até melhor do que a minha", afirma hoje a primeira e, no fundo, única detentora do título. Também Ticiane, a mais nova, lhe seguiu as pisadas.

Igualmente bonita, igualmente famosa - mas neste caso apenas no mercado brasileiro -, também licenciada em Jornalismo, Ticiane é apresentadora de televisão e casou-se com Roberto Justus, um empresário/publicitário/ entertainer, 20 anos mais velho, que liderou no Brasil o programa "O Aprendiz", como Donald Trump nos Estados Unidos.

"Ah, porque estou tão sozinho
Ah, porque tudo é tão triste
Ah, a beleza que existe
A beleza que não é só minha
Que também passa sozinha"

Pelo caminho, Helô não abriu mão de ser ousada quando quis ou precisou, como quando apareceu na capa da versão brasileira da "Playboy". A primeira, em 1987, aos 42 anos. A segunda e mais polémica, em 2003, quando, além de ter sido das mais velhas mulheres a ser fotografada para uma capa da revista, Helô se fez acompanhar pela filha, Ticiane, algo então inédito.

Graças à canção, Helô transformou-se numa celebridade. Foi entrevistada por jornalistas de todo o mundo, atuou em telenovelas, fez anúncios publicitários, organizou concursos de beleza, publicou a sua biografia e tem duas lojas com o nome "Garota de Ipanema".

Quanto ao processo de envelhecimento (ver texto à esquerda ou, se está a usar telemóvel, separador E Ainda, em cima), Helô é autêntica: "Falando sério e sendo muito sincera, claro que me entristece. As rugas vão destruindo a face, que é a luz que irradia beleza e simpatia. Envelhecer é sentir o tempo pesar nas costas. É sentir o decair da beleza das formas. É o desencontro do passado com o presente. É, na realidade, a dor da destruição do que já foi um dia."

"Ah, se ela soubesse
Que quando ela passa
O mundo sorrindo se enche de graça
E fica mais lindo
Por causa do amor".

Como manter a beleza, segundo Helô

Quando questionada sobre os seus segredos, Helô Pinheiro é discreta e gosta mais de aconselhar do que de partilhar os seus hábitos. O resumo da sua filosofia: "Essencial é, mesmo com problemas, estar de bem com a vida..."

Corpo
"O mais importante é estar sempre ativa". Fazer exercícios ponderados de acordo com as necessidades de cada um: "Alongamento é indicado para qualquer pessoa. A musculação tem o poder de fortalecer os músculos, o que ajuda a ter mais equilíbrio". Mexer não basta. É preciso fazer massagem com drenagem pelo menos uma vez por semana. Ajuda a relaxar, elimina as toxinas e hidrata a pele".

Alimentação
"Deve fazer-se de três em três horas, evitando doces e frituras e preferindo legumes e verduras. Sumos são aconselhados e refrigerantes, só dietéticos. Água é essencial, é a joia da saúde". É importante "poder comer o que desejar, sem culpa, apenas lembrando que podemos gastar as calorias consumidas com a atividade produzida".

Um segredo
"A dança é outra necessidade do corpo e da mente, que traz o poder de concentração nas coreografias. Cabeça ocupada e corpo ativo só têm a ganhar". Em jeito de conclusão, Helô avisa que "cuidados não têm idade. Deve ter-se na infância, adolescência e na melhor idade".

Pecados
Já disse que "se derrete por chocolate", que colocou silicone nos seios e que, passados dez anos, substituiu a prótese. Cirurgias faciais ainda não terá feito, mas não afasta a hipótese. Nem de fazer lipoaspiração à cintura. E não gosta do próprio pescoço, que esconde com lenços e golas altas.