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Internacional

Viúva de Pinochet acusada de desviar milhões de uma instituição de beneficência

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MARTIN BERNETTI/ Getty Images

É um novo episódio do escândalo que começou há anos, quando se descobriram milhões em contas no estrangeiro

Luís M. Faria

Jornalista

A viúva do ditador chileno Augusto Pinochet, Lucía Hiriart, foi acusada de desviar património de uma instituição de beneficência à qual presidia. Segundo as autoridades, estão em causa milhões de dólares em pagamentos ilegais tanto à viúva como a membros da família Pinochet, incluindo filhos, netos e bisnetos. Na sequência das revelações, Hiriart deixou a presidência da fundação, mas o Estado continua empenhado em recuperar todo o património que puder.

A história começa em 1973, ano em que Pinochet deu o golpe militar que o levou ao poder. Hiriart assumiu então a presidência da CEMA (Centros de Madres), uma organização criada em 1957 para apoiar mulheres pobres. A CEMA recebia avultadas doações de propriedades imobiliárias, e os estatutos foram alterados de modo à esposa do ditador passar a ser presidente vitalícia. Mais tarde foi criada uma outra entidade, a Fundação de Apoio Social (FAS), que receberia 50 por cento dos bens da CEMA na eventualidade de esta ser extinta.

A FAS tinha como objetivo oficial "proporcionar ajuda material de caráter habitacional, vestuário, medicamentos e assistência geral a famílias de escassos recursos". Mas para se ter ideia de como os interesses da família estavam envolvidos, basta lembrar que o Conselho de Administração da FAS tinha apenas mais três lugares... ocupados pelas três filhas do casal Pinochet.

Quase nove milhões em comissões?

Recentemente, descobriu-se que durante anos foram realizadas vendas de propriedades sem qualquer registo na Fundação. Algumas valiam largas centenas de milhões de dólares (embora por vezes fossem avaliadas pela fundação em apenas um dólar), e não se sabe que vendas houve a terceiros ou o que aconteceu ao dinheiro. Mas sabe-se que as propriedades entregues gratuitamente à CEMA no tempo de Pinochet foram 135. A justiça estima que Hiriart poderá ter recebido comissões equivalentes a 8.8 milhões de dólares.

Um ministro declarou à imprensa que "a renúncia de Lucía Hiriart à presidência da fundação CEMA Chile ao fim de quase 43 anos é um efeito da investigação que o Ministério dos Bens Nacionais promoveu para lograr a restituição ao fisco das propriedades entregues gratuitamente à dita entidade. O passo realmente significativo que a fundação devia dar era devolver os bens que ainda se encontram em seu poder".

Prisão despoleta investigações

Durante a ditadura de Pinochet (1973-1990) mais de três mil pessoas foram mortas. Muitas mais foram torturadas ou tiveram de se exilar. Entretanto, o país, com o apoio dos EUA, tornou-se um potentado económico na zona.

Em 1998, respondendo a um pedido do juiz espanhol Baltazar Garzón, Pinochet foi detido em Londres, ficando em prisão domiciliária. Foi libertado dois anos depois, "por razões humanitárias", mas esse percalço despoletou uma série de investigações embaraçosas, Entre as quais, a que identificou contas do general e da sua família em bancos estrangeiros, num montante total próximo de 20 milhões de dólares. Quantias que nenhuma explicação oficial pôde justificar.

Pinochet morreu em 2006, com 91 anos. A sua viúva tem 93. As investigações judiciais continuam.