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Para onde irá a Turquia?

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OZAN KOSE/AFP/Getty Images

Recep Erdogan sobreviveu ao golpe de Estado e parece apostado em tornar-se líder incontestado de uma nova Turquia. As relações com a UE e os EUA arrefeceram e esta semana o Presidente turco encontra-se com Joe Biden, o vice-presidente dos EUA

Os adversários conheciam-se muito bem desde 2002. Não havia hipóteses de conciliação. Avançar para um golpe de Estado era um risco que tinha de ser gerido com o maior cuidado. Era importante não cometer erros. Só haveria uma oportunidade. O vencedor aniquilaria os vencidos. Os planos estavam prontos. O golpe de Estado devia começar na madrugada de sábado, 16 de julho. O país tinha começado mais um fim de semana. Recep Tayyip Erdogan, o Presidente da Turquia, estava de férias em Marmaris no sudoeste do país, a 640 quilómetros de Ancara. Esta distância era essencial para o sucesso do golpe militar.

Porém, a meio da tarde do dia 15, os serviços secretos turcos descobriram que algo de anormal estava a acontecer em Ancara no comando militar de Güvercinlik. O general Hulusi Akar, chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas, foi notificado e mandou averiguar o sucedido. Os golpistas foram forçados a antecipar o início do golpe para as 22h para assegurar três objetivos essenciais: prender ou matar Erdogan e controlar rapidamente Ancara e Istambul.

Os comandos da base de montanha em Eğirdir, Isparta, deviam ser transportados de avião até Marmaris para prender ou assassinar Erdogan, mas a reação da polícia local impediu-os primeiro de levantar voo e depois de usar autocarros. O comando dos golpistas reagiu e colocou em prática o seu plano alternativo. Três grupos de forças de operações especiais da base aérea de Çiğli na região de Esmirna foram enviados por helicóptero até Marmaris. Porém, quando assaltaram o hotel onde o Presidente estava a passar férias, a segurança pessoal de Erdogan já o tinha mudado para outro local. A surpresa não beneficiou os golpistas, o que fez toda a diferença para a Turquia.

Erdogan dirigiu-se rapidamente para o aeroporto de Dalaman a 90 quilómetros de distância e pouco depois da meia-noite usou um iPhone e a aplicação Facetime para dar uma entrevista dramática à jornalista Hande Firat do canal privado CNN Türk. No meio de um ataque de caças e helicópteros contra o palácio presidencial em Ancara, ao lado do canal de televisão, Erdogan apelou à resistência popular nas ruas. Depois de o general Ümit Dündar, comandante do 1º Exército, lhe ter garantido pessoalmente que estava em vias de recuperar o controlo do Aeroporto Atatürk aos revoltosos, o Presidente turco levantou voo em direção a Istambul num jato Gulfstream IV que usou a identificação aérea das Turkish Airlines para evitar ser abatido pelos caças F-16 C que controlavam os céus da cidade. Erdogan aterrou em Istambul às três e meia da manhã do dia 16 de julho e foi recebido em triunfo pelos seus apoiantes.

Nesse dia, Erdogan, a elite política do Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP) e os principais partidos políticos compreenderam que tinham escapado por muito pouco. O que os salvou foi a impossibilidade de os revoltosos conseguirem mais unidades militares para o seu lado entre o início do golpe e a saída da população para as ruas. A ameaça interna era gravíssima. Seguiram-se três dias de pose e retórica política confiante e autoritária.

ADEM ALTAN/AFP/Getty Images

Uma multidão de juízes, procuradores do Ministério Público, funcionários públicos, militares, polícias, jornalistas, professores de escolas primárias e de universidades começou a ser detida, presa, suspensa ou demitida das duas funções. No dia 18, o Presidente sugeriu a reintrodução da pena de morte para os “traidores” e “terroristas.” No mesmo dia, o jornal pró-governamental “Yeni Safak” colocou na sua primeira página o título — “Os EUA tentaram matar Erdogan!” Muitos turcos pensaram o mesmo.

No dia 19, Erdogan prometeu aos seus apoiantes a destruição do Parque Gezi na Praça Taksim no centro de Istambul. Ali, disse ele, será construída uma réplica das instalações militares do final do Império Otomano que funcionará como o museu da cidade e uma nova mesquita. Para que não houvesse quaisquer dúvidas sobre as intenções dos vencedores, o Centro Cultural Atatürk seria demolido para dar lugar à primeira ópera da Turquia. Estas promessas têm um enorme significado político. O parque é desde 2013 o símbolo da resistência de uma parte da sociedade turca às ambições políticas e religiosas de Erdogan.

A dimensão, a urgência e a violência da limpeza interna e a retórica populista de Erdogan levaram Bruxelas e as capitais europeias a concluir que o dia 15 de julho tinha fortalecido ainda mais o Presidente da Turquia. A Turquia deixou de ser uma democracia e está a caminho da autocracia. Erdogan será o seu líder incontestado.

Ambição pessoal

A tentativa de golpe de Estado num país tão importante do ponto de vista geopolítico e para a história europeia devia ter concentrado as nossas atenções na Turquia, um membro da NATO. Se olharmos com alguma atenção, não é isto que tem acontecido. Estamos obcecados com o Presidente da Turquia. Porquê?
A primeira razão é a sua fulgurante carreira política durante as últimas duas décadas e meia. Erdogan nasceu no lado europeu de Istambul, a cidade mais poderosa do país do ponto de vista comercial, económico e político. O seu principal feito foi ter ajudado a construir e depois liderar uma nova coligação política assente na identidade muçulmana, conservadorismo religioso e nacionalismo de um povo turco marginalizado e sem grande representação eleitoral significativa na república criada em 1923. Um enorme carisma pessoal ajudou Erdogan a construir uma relação emocional muito poderosa com metade da sociedade turca. O resultado foram dez vitórias eleitorais consecutivas desde 2002. Não há mais ninguém assim na paisagem política da Turquia.

A segunda razão é a maneira como olhámos para Erdogan após a vitória eleitoral de novembro de 2002. Nesse altura, o AKP conseguiu 34,2% dos votos e 363 dos 550 deputados no Parlamento turco. As eleições mostraram que a retórica e as propostas políticas moderadas do partido de Erdogan tinham conseguido atrair eleitores urbanos e da classe média cansados da instabilidade política e económica que caracterizou os anos 90. Do ponto de vista dos governos, diplomatas e sociedades europeias, Erdogan tornou-se assim a cara de uma Turquia que prometia ser exemplar a nível religioso, económico e político.

Isto leva-nos à terceira razão da nossa atual obsessão com Erdogan — a sua ambição pessoal. Entre 1994 — ano em que foi eleito presidente da Câmara de Istambul — e as eleições de novembro do ano passado, o Presidente da Turquia fez a transição da periferia para o centro do poder. Determinado a defendê-lo a todo o custo contra tudo e todos a nível interno, Erdogan apostou na divisão política do país e propôs a alteração da Constituição para criar o cargo de Presidente com vastos poderes executivos.

Para muitos líderes europeus, Erdogan deixou de ser um democrata e está a caminho de se tornar membro da nova Internacional Autoritária, uma coligação de homens-fortes interessada em criar um novo modelo político para governar as suas sociedades e mudar as regras da ordem internacional contra os interesses e valores da União Europeia e dos EUA. As primeiras reações de Erdogan à insurreição interna do 15 de julho confirmaram a perceção de que o Presidente não é apenas uma vítima. Angela Merkel, a chanceler da Alemanha, só telefonou ao Presidente turco para condenar o golpe no dia 18 de julho. A este nível, um silêncio de três dias tem enorme significado pessoal e político.

Só a união que o levou ao poder e que permitiu mudanças profundas na sociedade turca é algo do passado. Erdogan é cada vez mais um dos rostos de uma nova Internacional Autoritária, que visa alterar a ordem mundial

Só a união que o levou ao poder e que permitiu mudanças profundas na sociedade turca é algo do passado. Erdogan é cada vez mais um dos rostos de uma nova Internacional Autoritária, que visa alterar a ordem mundial

Enrico Dagnino/Paris Match via Getty Images

Erdogan é certamente importante para compreendermos a situação da Turquia. Porém, a nossa obsessão com sua personalidade, temperamento e ambições, simplifica e distorce o que realmente tem vindo a acontecer no país desde a chegada do AKP ao poder em novembro de 2002. Desde essa altura, a política turca tem sido uma competição pelo poder entre cinco grandes grupos — o AKP, o Movimento Hizmet do imã sunita Muhammed Fethullah Gülen exilado desde 1999 na pequena cidade de Saylorsburg, Pensilvânia (EUA), as Forças Armadas guardiãs do legado de Mustafa Kemal Ataturk, as elites económicas de Istambul e os curdos.

O apoio popular levou o AKP ao poder no final de 2002. O objetivo de Erdogan, do seu partido e da maioria dos seus apoiantes foi sempre trazer o Islão para o coração da República Turca e a sua política externa. O problema era saber como. As Forças Armadas, a magistratura judicial e os grandes grupos económicos e industriais que dominavam a economia do país e exportavam para a Europa olhavam para o AKP com grande suspeita. Além disso, o AKP não tinha experiência de governo e de administração pública a nível nacional. Em novembro de 2002, os seus ministros bem podiam ser um grupo de marcianos que tinha acabado de entrar nos gabinetes governamentais em Ancara.

Foi nestas circunstâncias que nasceu a aliança entre o AKP e o Movimento Hizmet de Fethullah Gülen. Ambos estavam interessados em criar uma Turquia mais conservadora do ponto de vista religioso e precisavam de dominar as Forças Armadas e as elites seculares e económicas que controlavam o país a partir de Istambul. O AKP tinha os votos da maioria da população. Isto garantia-lhe o acesso ao poder. O Hizmet tinha uma rede de tecnocratas, funcionários públicos, juízes, magistrados do Ministério Público, polícias, oficiais em ascensão nas Forças Armadas, empresários e uma cadeia de jornais, rádios e televisões. Tinha também uma presença internacional em cerca de 140 países. Os interesses religiosos, políticos e económicos ditaram os termos de um entendimento entre os dois grupos.

O processo de negociação para a adesão à União Europeia (UE) que começou em 2004 foi um poderoso instrumento de reforma interna a nível político e económico para o AKP e o Hizmet. Foi a partir daí que nos gabinetes governamentais e colunas de opinião dos jornais europeus passámos a associar Erdogan e o seu Governo à liberdade de expressão, ao pluralismo político, a mais direitos para a população curda e a uma certa abertura para começar a falar de uma forma clara na perseguição e genocídio dos arménios e dos cristãos assírios no leste da Anatólia em 1915-1916.

Bruxelas desempenhou ainda outro papel a nível interno. A aproximação à UE deu à aliança AKP-Hizmet a oportunidade de diminuir o poder das Forças Armadas. Os julgamentos e as prisões de oficiais-generais nos casos “Ergenekon” e “Sledgehammer” estilhaçaram todas as regras do jogo político na Turquia e enfraqueceram de forma significativa a influência dos militares no processo de decisão política a nível da política interna e externa. Além disso, estes casos permitiram a rápida promoção de oficiais ligados ao Hizmet à cadeia de comando dos vários ramos das Forças Armadas. Os bastiões comerciais e industriais das dinastias familiares Uzan, Dogan e Koc também foram visados pela coligação AKP-Hizmet.

2009 assinala o início das primeiras divergências entre o AKP e os seus aliados do Hizmet ao nível interno e externo. A terceira vitória eleitoral de Erdogan e do AKP em junho de 2011 com 49,8% dos votos e uma maioria absoluta de 327 deputados no Parlamento agravou estas divergências. A domesticação das Forças Armadas, o combate contra os grandes grupos económicos de Istambul e a dimensão de mais uma vitória eleitoral levaram Erdogan e o AKP a sucumbir à tentação de dominar completamente a Turquia. O Parque Gezi, uma das poucas zonas verdes no centro de Istambul, tornou-se o símbolo político desta deriva autoritária que faz parte da história política turca.

Os grandes protestos de 2013 contra os planos de Erdogan de arrasar o parque, a violência da repressão policial contra os manifestantes e as acusações de corrupção contra a família de Erdogan e ministros do Governo, consumaram a rutura da aliança entre o AKP e o movimento liderado por Fethullah Gülen. Erdogan e o seu partido reagiram com contundência, abandonaram os planos para o Parque Gezi, conseguiram controlar politicamente o embaraçoso problema das suspeitas de corrupção e apostaram num nacionalismo religioso e na polarização política do país para manter o poder conquistado em 2002. O apoio do eleitorado tradicional do AKP ao círculo de poder de Erdogan foi mais uma vez incondicional e permitiu esta transição. Porém, esta opção teve um preço político imediato — a crescente divisão do país. A tentativa de golpe de Estado de 15 de julho foi o culminar de todo este processo. Nesse dia, a Turquia chegou à beira do abismo da insurreição armada e da guerra civil.

O trauma de julho

Tal como aconteceu com o 25 de novembro de 1975 em Portugal, os acontecimentos de 15-16 de julho serão debatidos durante décadas dentro e fora da Turquia. A incerteza em relação ao que realmente aconteceu naquela noite aumentou a desconfiança interna e alimenta as teorias de conspiração sobre os verdadeiros autores do golpe de Estado, as suas motivações e objetivos políticos. Contudo, o que verdadeiramente interessa agora é perceber como é que a política interna e externa da Turquia vai evoluir depois do acontecimento mais traumático das últimas décadas.

Daqui a uns anos será de certeza possível perceber também o que aconteceu entre 19 e 21 de julho. A partir desses dias, a retórica e as escolhas políticas de Erdogan mudaram. A pose e o tom autoritário dos dias 16-18 deram lugar a um decisor político mais conciliador e interessado em explorar entendimentos a nível nacional. Esta opção sugere que, ao contrário do que é dito em praticamente toda a imprensa internacional, o pós-15 de julho não fortaleceu Erdogan. Pelo contrário. Enfraqueceu-o e fê-lo perceber rapidamente a dimensão do seu isolamento e a vulnerabilidade da sua posição política a nível externo.

Erdogan e o AKP fizeram três coisas significativas do ponto de vista político. A primeira foi dizer à sociedade turca que nunca se tinham apercebido da dimensão da infiltração do Movimento Hizmet de Fethullah Gülen nas instituições públicas e privadas da Turquia. Erdogan pediu desculpas públicas por este erro de avaliação. “Durante muito tempo,” disse o Presidente turco a 3 de agosto, “não conseguimos ver que este grupo era um instrumento e uma cobertura para outros objetivos e cálculos sinistros.”

É preciso estar em choque, ter estado muito distraído nos últimos quinze anos ou ser extremamente ingénuo para acreditar nesta versão dos acontecimentos. O AKP e o Hizmet foram aliados táticos na disputa pelo poder nas aldeias, vilas, cidades e instituições e empresas turcas. O número de pessoas que começaram a ser afastadas, detidas ou presas logo a partir do dia 16 de julho prova que Erdogan e o AKP há muito que se preparavam para uma conspiração dos seus antigos aliados. De acordo com Binali Yildirim, primeiro-ministro da Turquia, até ao sábado da semana passada tinham sido afastadas 81.974 pessoas.

A segunda foi criar pontes políticas com os principais partidos da oposição. Na noite de 15 de julho, quando a tentativa de golpe de Estado ainda estava no seu início, todos eles condenaram publicamente o assalto militar às instituições políticas e sociedade turca. No final do mês, Erdogan e o AKP abriram a porta aos republicanos e nacionalistas, mas excluíram o Partido Democrático do Povo (HDP), a terceira força política do país, apoiada por imensos curdos, deste processo. Numa entrevista à Al-Jazeera, Erdogan prometeu que a Turquia continuaria a ser uma democracia parlamentar. Um quadro de Mustafa Kemal Atatürk foi colocado na fachada da sede do AKP em Ancara. A grande manifestação de 7 de agosto em Yenikapi foi um primeiro passo para um possível entendimento constitucional em relação ao futuro do país. As bandeiras partidárias foram substituídas pela bandeira nacional e cartazes de Atatürk e Erdogan apareceram pela primeira vez lado a lado.

A terceira foi a criação e manipulação de um processo altamente emocional que apela ao nacionalismo e à xenofobia da população contra os não-muçulmanos. Estes foram descritos pela elite política em Yenikapi como o “rebanho de infiéis,” “o exército de cruzados” e “bizantinos.” Muhammed Fethullah Güllen, um imã sunita, é agora visto por muitos como filho de pai arménio e de mãe judia. Esta teoria da conspiração visa fabricar na sociedade turca a ideia de que o 15 de julho afinal não foi levado a cabo por turcos muçulmanos mas sim por potências estrangeiras que usaram uma quinta coluna de terroristas para atacar o país. Quem conheça a história turca sabe muito bem que a paranoia é útil do ponto de vista político para eliminar inimigos internos reais ou imaginários. Numa entrevista ao jornal “Sözcü” no início desta semana, o vice-primeiro-ministro, Tuğrul Türkeş, lamentou que as necessidades de segurança interna da Turquia se estejam a transformar numa verdadeira caça às bruxas.

As últimas semanas serviram para criar um clima de união nacional que permita a Erdogan, ao AKP, republicanos e nacionalistas recuperar da ameaça existencial que o 15 de julho representou para o sistema político e a sociedade da Turquia. Esta união, todavia, só se manterá se for realmente possível iniciar um processo de negociação constitucional com todos os principais partidos que controle através de mecanismos democráticos as consequências do golpe de Estado e credibilize as principais instituições nacionais. O país tem vários caminhos à sua frente e vai ter de escolher um nos próximos meses. Como é natural em circunstâncias tão dramáticas e caóticas a nível interno, não é ainda claro qual será. A economia e a política externa serão importantes neste processo de negociação interna.

Baixa produtividade

Julho de 2010. “Isto é um mundo de sonho,” disse Husnu M. Ozyegin no alto do seu hotel de luxo em Istambul a Thomas Landon Jr., do “New York Times”, depois de consultar os prémios de risco da dívida soberana no seu telemóvel. “Grécia, 980. Itália, 194 e aqui está a Turquia nos 192. Se me tivesse dito há dez anos que o risco financeiro da Turquia seria igual ao da Itália, teria dito que você era louco.”
Nas vésperas da chegada ao poder do AKP, a Turquia tinha um Produto Nacional Bruto (PNB) de 196 mil milhões de dólares. O défice orçamental estava nos 16% e a inflação tinha chegado aos 72%. Quinze anos depois, Ancara é a 17ª economia mundial com um PNB nos 798 mil milhões de dólares e faz parte do G20. Erdogan e o seu partido criaram as condições para que a economia do país triplicasse de tamanho em apenas uma década. A população cresceu dos 64 para os 79 milhões de pessoas. A esperança de vida passou dos 70,6 para os 75,2 anos. Estes números ajudam a explicar a longevidade do sucesso eleitoral do AKP.

Como todas as economias, a da Turquia tem vulnerabilidades importantes. Importa 89% das suas necessidades petrolíferas e praticamente todo o gás natural que consome. A produtividade é baixa e a taxa de poupança está nos 15% o que diminui os níveis de investimento interno. O défice da balança de transações correntes chegou aos 32 mil milhões de dólares em 2015. A guerra civil na Síria levou 2,7 milhões de refugiados a atravessar a fronteira para a Turquia. Apenas um quinto da população concluiu o ensino secundário.

Vladimir Putin, o todo-poderoso Presidente da Rússia, e Erdogan, apostado em tornar-se o homem-forte da Turquia, encontraram-se há duas semanas, cerca de um mês depois da tentativa de golpe de Estado
em Ancara e Istambul

Vladimir Putin, o todo-poderoso Presidente da Rússia, e Erdogan, apostado em tornar-se o homem-forte da Turquia, encontraram-se há duas semanas, cerca de um mês depois da tentativa de golpe de Estado
em Ancara e Istambul

Mikhail Svetlov/Getty Images

Esta é uma economia de mercado que precisa de quatro coisas para crescer e criar emprego: exportar bens, serviços e produtos agrícolas, atrair turistas, capital e investimento estrangeiro. A principal fonte deste capital e investimento têm sido os países da União Europeia. Há cerca de 14 mil empresas europeias na Turquia. Do ponto de vista comercial, financeiro e tecnológico, Bruxelas é, e continuará a ser, uma capital indispensável para os decisores turcos sustentarem a transição para um modelo económico mais sofisticado. Moscovo e Riade, por exemplo, ainda podem viver de rendas energéticas. Istambul e Ancara não.

A grande questão é saber qual será o impacto do 15 de julho e de todo o processo de reajustamento interno que está em curso na credibilidade internacional de Ancara e Istambul. O Governo turco precisa de convencer os investidores internacionais de que o país é seguro, a regulação económica competente e os tribunais verdadeiramente independentes do poder político.

O problema sírio

A Turquia foi o primeiro país muçulmano que Barack Obama fez questão de visitar na qualidade de Presidente dos EUA em abril de 2009. Obama viu em Erdogan um reformista interessado em conciliar o islamismo com a democracia liberal e apostou na criação de uma relação pessoal com o líder do Governo turco. Na noite de 15 de julho, a ponte que liga a Ásia à Europa no Bósforo estava iluminada com as cores da bandeira de uma França que tinha acabado de sofrer um ataque terrorista na cidade de Nice.

Washington e as capitais europeias olharam inicialmente para o AKP como os representantes da comunidade euro-atlântica junto do mundo sunita num Médio Oriente em crescente ebulição. Porém, Erdogan, o seu assessor, Ahmet Davutoğlu, e uma parte do seu partido tinham uma visão económica e islamita muito diferente para a política externa da Turquia. A rede internacional de Fethullah Gülen foi um instrumento para o soft power de Ancara em regiões tão distantes como a Ásia Central ou África. As ‘primaveras árabes’ e a esmagadora vitória eleitoral de 2011 convenceram Erdogan de que tinha chegado a hora da afirmação regional de uma República muito diferente da que tinha sido criada em 1923. Ancara e Istambul seriam a Bruxelas do mundo árabe sunita.

O derrube do regime sírio em Damasco foi a principal aposta de Ancara. Erdogan acreditou até ao fim que seria acompanhado por Barack Obama e o Pentágono, mas isso não aconteceu. Além disso, os decisores turcos avaliaram mal a capacidade de resistência do regime de Bashar al-Assad e a determinação de Teerão, o Hezbollah e Moscovo em defenderem os seus interesses na Síria pela força das armas, sangue e dinheiro.

A intervenção na Síria, o uso do território turco para apoiar a logística dos grupos islamitas que combateram contra Damasco e o recuo das forças de Bashar al-Assad do leste e norte do país deram grande espaço de manobra ao Daesh, aos curdos sírios do Partido da União Democrática e ao Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) no sudeste da Turquia. A oposição em relação às opções estratégicas de Erdogan nos círculos militares e nacionalistas turcos aumentou. As divergências com Washington em relação ao Daesh e aos curdos começaram a ficar claras. No final do ano passado, a destruição de um caça Su-24 russo por um F-16 turco junto à fronteira com a Síria criou um sério problema diplomático com Moscovo. Erdogan e a liderança das Forças Armadas corrigiram o seu crescente isolamento regional e dependência em relação aos EUA e à NATO com negociações com Jerusalém e Moscovo. Ambas ficaram concluídas a 26 e 27 de junho, duas semanas antes do golpe de Estado.

O 15 de julho e as suas enormes repercussões internas deixam a Turquia numa posição delicada. As Forças Armadas foram literalmente dizimadas nas últimas semanas por causa do seu papel no golpe de Estado. A Força Aérea, por exemplo, ficou sem 265 pilotos. Um capital de experiência tática e operacional deste tipo nunca será substituído rapidamente. O mesmo pode ser dito em relação a praticamente todas as instituições turcas. Ancara terá nos próximos anos menos capacidade para se afirmar a nível regional. As suas relações com os EUA e as principais capitais e instituições europeias estão em crise. A deterioração das relações com Washington, todavia, também deve ser vista como um instrumento de negociação com a Administração Obama sobre a Síria e a NATO. Joe Biden, o vice-presidente dos EUA, chegará à Turquia na próxima quarta-feira, dia 24.

As últimas quatro semanas na Turquia foram alucinantes. Vale a pena relembrar que a experiência democrática da sociedade turca é ainda mais recente do que a nossa. Além disso, ao contrário de Portugal, que tem a sorte de ter o Atlântico a oeste, a Espanha a leste e Marrocos do outro lado de Gibraltar, a Turquia faz fronteira com a Grécia, Bulgária, Geórgia, Arménia, Irão, Iraque e Síria. Este vasto arco geográfico é um dos mais voláteis na atual política internacional. A rivalidade estratégica com Moscovo e o Irão tem séculos de história. A Turquia começará a negociar um novo caminho até ao final do ano. Contudo, não sabemos se os principais partidos do país conseguirão chegar a um acordo sobre as regras essenciais de um novo sistema de governo que permita alterar a Constituição de uma forma consensual. A mudança de atitude de Erdogan a partir de 19 de julho foi uma tática oportunista ou uma opção estratégica para criar as condições para um entendimento democrático para o país? Não será preciso esperar muito tempo para sabermos a resposta. A opção terá repercussões em toda a política internacional. Como a história mostra, o que acontece no Bósforo nunca fica apenas no Bósforo.