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O barão invisível

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O negócio da droga vale hoje mais de 30 mil milhões de euros. Nicola Assisi é um dos principais fornecedores da ’Ndrangheta, a máfia calabresa, que se tornou a maior importadora de cocaína da Europa. Em 2014 chegou a ser detido em Portugal, mas fugiu. Esta é a história de como ele e os filhos andam há duas décadas a jogar ao gato e ao rato com as autoridades

Texto Giulio Rubino e Cecilia Anesi*

Apanhado no que parecia ser uma armadilha perfeita, Rosario Grasso começou a entrar em pânico. “Que raio me estão a obrigar a fazer?”, escreveu num SMS enquanto procurava manter um dos seus homens preso ao chão. “Eles dizem que estão inocentes.”

Grasso, um membro influente da ’Ndrangheta, um dos mais poderosos grupos criminosos do mundo, tinha vindo recolher 197 quilos de cocaína, escondidos no meio de sacos brancos dentro de um contentor enviado para o porto de Gioia Tauro, no sul de Itália. Mas no contentor não havia o menor sinal da droga, avaliada em 20 milhões de euros a preços de rua. Várias ideias passaram-lhe pela cabeça. Teriam os seus fornecedores no Brasil ousado traí-lo, fazendo-o ameaçar e amarrar os seus próprios homens no chão, no meio da noite, sem motivo para isso?

Grasso e o seu grupo haviam-se esforçado para conseguir um carregamento sem problemas, inclusive subornando um funcionário portuário, de alcunha “Il Porco”, que lhes dera acesso à área restrita de desembarque, para poderem remover a cocaína do contentor.

No ecrã do telemóvel de Grasso apareceu a fotografia de um pedaço de madeira, novamente transmitida pelo intermediário que o pôs em ligação com os vendedores no Brasil. O número do contentor estava gravado na madeira. MSC U356 5753. Grasso olhou de novo para cima e verificou o número inscrito no contentor junto ao qual se encontrava. MSC U356 5753. Estava correto. Mas não havia cocaína. “Digam-lhes que quem está zangado sou eu, não eles”, escreveu via SMS ao seu contacto no Brasil. “São três da manhã aqui, tive de levantar meio mundo para fazer isto, há três dias que não vejo a minha família nem tomo um duche.”

Na noite seguinte, Grasso regressou ao porto mais uma vez para revistar o contentor saco a saco. Mas não havia vestígio da cocaína.

UM NEGÓCIO TRANSATLÂNTICO

O tráfico de cocaína é a fonte essencial do poder da ’Ndrangheta. Pensa-se que esse grupo mafioso, baseado na região da Calabria, no sul de Itália, controla 40 por cento dos envios globais de cocaína, sendo o principal importador para a Europa. Para lavar os proventos resultantes, que alguns estimam em 25 mil milhões de euros por ano, o grupo utiliza as suas empresas na economia real. Em especial, na Alemanha e na Suíça, dois países onde as leis antimáfia e de prevenção da lavagem de dinheiro são mais permissivas.

A fim de se protegerem de acusações criminais, os líderes da ’Ndrangheta criaram uma estrutura que separa a hierarquia da máfia e o tráfico propriamente dito. Em vez de expor os seus membros, a ’Ndrangheta usa dezenas de intermediários pelo mundo fora. São conhecidos como brokers. São homens que falam várias línguas, trabalham em escritórios ou viajam pela selva amazónica e sobem a cordilheira dos Andes para lidar diretamente com os cartéis da droga locais.

Rosto. A cara no passaporte (à esq.) é de Nicola Assisi, que usou o nome de Javier Varela para voar do Brasil para Lisboa, onde foi detido em agosto de 2014 e de onde acabou por fugir alguns meses mais tarde. Ao lado, a estrada marginal na Costa del Sol, em Espanha, que servia de plataforma de entrada de cocaína na Europa. E contentores apanhados pela polícia italiana

Rosto. A cara no passaporte (à esq.) é de Nicola Assisi, que usou o nome de Javier Varela para voar do Brasil para Lisboa, onde foi detido em agosto de 2014 e de onde acabou por fugir alguns meses mais tarde. Ao lado, a estrada marginal na Costa del Sol, em Espanha, que servia de plataforma de entrada de cocaína na Europa. E contentores apanhados pela polícia italiana

Um dos brokers mais poderosos do mundo é Nicola Assisi. Tendo herdado a agenda de contactos mais valiosa do mercado, anda a escapar-se por entre os dedos da polícia há mais de duas décadas. Julga-se que ele e os seus filhos atuam a partir do coração da indústria da droga, na América Latina. Os centros de investigação CORRECTIV e IRPI (Investigative Reporting Project Italy) investigaram Assisi e a sua família, com base em documentos judiciais, registos comerciais e entrevistas com a polícia. Esta reportagem revela pela primeira vez que a família fez grandes negócios com fornecedores sul-americanos.

Nicola Assisi entrou originalmente no radar da polícia italiana como “o sobrinho”. Nascido em 1958 em Grimaldi, uma cidade no sul de Itália, pouco se conhece da fase inicial da sua vida. Nada sugere, por exemplo, que tenha andado na universidade.

Na primavera de 1997, alguns intermediários calabreses andavam a ser seguidos pelas autoridades na região da Costa del Sol, no sul de Espanha. Estavam a enviar cocaína de Barcelona para Turim e Roterdão. “Os traficantes usavam cabinas telefónicas em vez de telemóveis nessa altura”, recorda Gianni Abbate, um agente policial italiano que trabalhou no caso durante os anos 90. “Tínhamos conseguido identificar duas cabinas telefónicas em Turim que eram bastante usadas pela rede da droga e pusemos lá escutas.”

Um desses telefonemas levou a que no dia 16 de maio de 1997, antes do nascer do sol, a polícia italiana seguisse um homem que tinha combinado um encontro com “o sobrinho”. Foi então que descobriram que “o sobrinho” era Nicola Assisi. A polícia foi atrás deles até um local no meio do campo, a norte de Turim, onde os aguardava uma camioneta com 200 quilos de cocaína.

“Finalmente conseguimos pôr um rosto em Assisi. Foi um grande avanço!”, diz Abbate. Um pequeno número de polícias rodeou Assisi, que tentou o impossível. “Correu para o carro da polícia e tentou roubá-lo derrubando um agente”, conta Abbate. Os polícias acabaram por dominá-lo e prenderam-no. Foi a maior apreensão de cocaína na história de Turim até então.
Em 2014, no porto de Gioia Tauro, quando Rosario Grasso não encontrou a droga no contentor não foi por ter sido traído — nem pelos seus homens nem pelos vendedores no Brasil. A cocaína pela qual esperava em vão tinha sido apanhada quando se encontrava em trânsito em Espanha. A polícia reconstituiu a fechadura do contentor e permitiu-lhe continuar a sua rota até Itália, numa tentativa de identificar todos os cabecilhas da rede.

Na discussão que se instalou entre os compradores da ’Ndrangheta e os seus vendedores no Brasil, Nicola Assisi interveio para restaurar a ordem. Resolveu a disputa e deu conta de que podia ser um truque da polícia. “Vou arranjar telemóveis novos para toda a gente, estes estão um pouco gastos”, ouviu-se numa escuta. Na verdade, a polícia tinha conseguido intercetar e descodificar o sistema Blackberry de mensagens encriptadas da família Assisi e dos seus parceiros. Dezassete anos depois, estavam prestes a apanhá-lo outra vez.

Como primeira medida, o filho de Assisi, Patrick, com quem Grasso estivera em contacto via telemóvel quando se encontrava junto ao contentor MSC U356 5753 no porto de Gioia Tauro, montou ele próprio uma armadilha a fim de determinar se a polícia estava de facto a segui-los. Enviou para Gioia Tauro um contentor apenas com um pequeno carregamento de cocaína. Mas a polícia deixou-o passar, para não comprometer a vigilância.

UMA AGENDA VALIOSA

O ponto de viragem mais importante na carreira de Assisi aconteceu em 2002. Quatro anos antes, o ritmo glacial da justiça italiana permitira-lhe sair da cadeia ao fim de apenas um ano, enquanto esperava julgamento após a sua detenção em Turim em 1997. Ainda não havia acusação formal, e o juiz recusou prolongar a prisão preventiva.

E então, em 2002, Pasquale Marando desapareceu. No seu tempo, Pasquale tinha sido o mais importante empresário da droga da ’Ndrangheta. Fora o primeiro a lidar diretamente com os cartéis colombianos da cocaína na América Latina, dispensando intermediários e aumentando assim as suas margens de lucro. Até aí, a Costa del Sol espanhola funcionara como uma plataforma de retalho onde os vendedores dos cartéis colombianos vendiam à ’Ndrangheta.

Pasquale Marando tinha sido um mentor de Nicola Assisi desde o início dos anos 90 e o seu desaparecimento constituiu um forte golpe. O seu corpo nunca foi encontrado. Muito provavelmente, foi vítima de um acerto de contas em 2002. Mas Assisi transformou a morte de Pasquale numa vantagem pessoal. Os investigadores policiais acreditam que ele herdou os contactos dos fornecedores de droga mais importantes que Pasquale Marando mantinha na América do Sul. Registos judiciais mostram que Assisi lhe sucedeu como representante de dois líderes seniores da ’Ndrangheta em Turim que estavam ligados por casamento à família de Marando. Ambos foram presos no ano passado após comprarem cocaína a Assisi.

Em 2007, dez anos depois de Assisi ter sido preso em Turim, o tribunal ia finalmente proferir a sua sentença. Segundo a lei italiana, uma pessoa não pode ser presa duas vezes pelo mesmo crime. “Exatamente dez dias antes do veredicto final que o condenou a 14 anos de cadeia, Assisi fugiu para a Costa del Sol e daí, presumimos, para a América Latina”, diz Gianni Abbate, o agente da polícia que investigou Assisi nos anos 90. O escritório de Abbate em Turim ainda está cheio de recordações da velha investigação.

Os procuradores italianos têm andado atrás tanto dos brokers como dos chefes da ’Ndrangheta que estão ligados ao negócio da cocaína. Mas os intermediários não se consideram mafiosos. “Quando apanhámos e interrogámos Assisi em 1997, ele admitiu que vendia droga à máfia, mas se lhe chamássemos mafioso ficava realmente ofendido”, revela Abbate. “Porém, as famílias da ’Ndrangheta respeitavam-no como um ‘homem de honra’”, recorda o investigador. E referiam-se a ele com o termo com que os membros da máfia se tratam uns aos outros.

Para os brokers, o segredo do negócio está na capacidade de comprar cocaína diretamente aos produtores locais. Nicola Gratteri, um dos principais procuradores italianos na luta contra a máfia, diz ao CORRECTIV que os melhores conseguem comprar um quilo de cocaína aos cartéis sul-americanos por um preço tão baixo como 1200 euros. À ’Ndrangheta vendem depois cada quilo a 30 mil euros. Os clãs sem acesso aos brokers têm de recorrer a clãs rivais, que cobram preços mais altos. Isto significa que os intermediários que compram diretamente aos fornecedores são os mais procurados pelos vários grupos da ’Ndrangheta, já que oferecem as maiores margens de lucro. Intermediários como Assisi.

DE PAI PARA FILHO

Num dia frio de inverno, em janeiro de 2013, Patrick Assisi caminhava sobre um mosaico que retrata uma enorme medusa. Era a entrada de um dos melhores restaurantes de peixe em Turim, perto do local onde uma gélida corrente alpina desagua no Po, o maior rio de Itália. Patrick levava ténis, calças de ganga e um casaco, o uniforme padrão da juventude turinense.

No restaurante, foi cumprimentado por representantes de alguns dos clãs mais poderosos da ’Ndrangheta, que queriam comprar de alguém diretamente no Brasil. Entre os pratos de peixe e pizza e os copos de vinho, os homens discutiram os detalhes do negócio. Após a refeição, abraçaram-se uns aos outros. Tinham chegado a acordo. Era o primeiro vislumbre que a polícia italiana voltava a ter dos Assisi.

Patrick e o seu irmão Pasquale entraram no negócio. Tornava-se imediatamente claro que Patrick — que não era procurado em Itália, ao contrário do pai — atuava como o braço de Nicola em Turim, fechando negócios com algumas das figuras mais importantes da ’Ndrangheta, incluindo do clã Aquino-Coluccio.

O negócio dos Assisi tinha-se tornado maior do que nunca, trazendo cocaína da América Latina em grandes quantidades. Os investigadores creem que os Assisi compravam cocaína ao mais importante cartel da droga brasileiro, o Primeiro Comando da Capital (PCC), e aos cartéis colombianos baseados no Peru.

O PCC, juntamente com os cartéis colombianos e mexicanos, controlam a parte sul da América Latina, chamada Cono Sur, uma área que inclui a Argentina, o Chile, o Uruguai e o Paraguai, bem como o sul do Brasil. Um território que a imprensa local designa por “Narcosur”. É aí que Nicola e os seus filhos, hoje ambos na casa dos 30, fazem os seus negócios. Documentos judiciais revelam como eles se gabavam, a dada altura, da cocaína comprada no Peru, no Paraguai e no Brasil.

O Paraguai está cada vez mais a tornar-se um importante país de trânsito para a cocaína com destino à Europa. Pequenos clãs familiares organizam os carregamentos, sempre debaixo do controlo do PCC no Brasil. “Estou aqui no Paraguai, para os telefones e para trabalhar”, dizia Assisi a um dos seus parceiros em Turim numa conversa intercetada pela polícia. “Estou a preparar coisas novas.”

No Brasil, os Assisi são praticamente invisíveis. As comunicações com os seus fornecedores brasileiros são feitas de forma segura. Os vendedores fornecem aos Assisi uma peça de madeira na qual entalharam o número de contentor e o código para a fechadura do contentor. Os Assisi enviam essa informação via telemóvel encriptado para os seus contactos na Calabria.

ÚLTIMA PARAGEM: LISBOA

Após o encontro de Patrick no restaurante em Turim, a polícia voltou a seguir os Assisi. A família não declarava rendimentos às finanças mas levava uma vida de luxo. Andavam de BMW X3 e até possuíam uma vivenda em Portugal alugada a 10 mil euros por mês.

Uma preocupação constante dos traficantes de droga é como usar o dinheiro ilícito. A rede de droga liderada pelos Assisi servia-se de correios para levar malas de notas a uma bomba de gasolina próxima de Turim, onde outros correios as recolhiam, levando-as para o Brasil. Centenas de milhares de euros de cada vez.

Apesar disso, a mulher de Assisi, que os investigadores julgam funcionar como a tesoureira do grupo, queixou-se uma vez ao seu filho Patrick de que a casa deles em Turim já não tinha espaço para guardar mais dinheiro. Quando a polícia revistou a vivenda, encontrou mais de quatro milhões de euros.

Muito do trabalho policial está focado em aceder ao sistema de comunicações dos traficantes. A polícia italiana conseguiu finalmente isso em 2014. Ao escutar o telefone de um confidente próximo dos Assisi, em Itália, identificou os telefones do grupo e os respetivos códigos de segurança.

A partir daí, infligiu vários golpes aos traficantes, apreendendo meia tonelada de cocaína enviada pelos Assisi ao longo de quatro meses. Nesse ano, a 27 de agosto, Nicola foi preso pela segunda vez na sua vida. Ao chegar do Brasil com uma identidade argentina falsa, emitida em nome de “Javier Varela”, tinha à sua espera funcionários alfandegários no aeroporto de Lisboa.

É possível que Assisi tenha assumido o risco de viajar para a Europa a fim de estabelecer a base para uma nova forma de enviar cocaína para a Europa. Registos policiais mostram que o grupo planeava usar um Falcon 50, um jato privado de longo curso, para fazer os carregamentos a partir da América Latina e usando como pista de aterragem uma escola de aviação na Alemanha. As drogas seriam depois transportadas para Itália num camião. Não se sabe se este plano chegou alguma vez a ser implementado.

Embora o tráfico e os traficantes não conheçam fronteiras, a cooperação judicial dentro da União Europeia é, na melhor das hipóteses, fragmentária. Após a prisão de Assisi no aeroporto, o Tribunal da Relação de Lisboa pô-lo em prisão domiciliária ao fim de três meses. Enquanto as autoridades italianas se esforçavam por conseguir fazer avançar com o processo de extradição, Assisi convenceu os juízes a libertá-lo da pulseira eletrónica com que se encontrava instalado num apartamento na capital portuguesa. E voltou a desaparecer.

No final, a armadilha estendida pela polícia italiana no porto de Gioia Tauro teve o efeito contrário ao pretendido. Levou os Assisi a usar um sistema de encriptação de dados mais fiável. Patrick comprou smartphones Sony com um programa Android de chat encriptado que até hoje tornou impossível às autoridades italianas intercetar as comunicações dos traficantes.

O CORRECTIV tentou falar com os Assisi e com Rosario Grasso através dos seus advogados. Nenhum deles respondeu às perguntas enviadas. Grasso encontra-se na prisão a aguardar julgamento. “Il Porco”, o funcionário alfandegário corrupto do porto de Gioia Tauro, ainda não foi identificado pela polícia. Entretanto, Nicola e os seus filhos mantêm-se ativos no Brasil — onde também se julga estar escondida a sua mulher, a tesoureira. Não se sabe que aspeto tem Nicola hoje. As fotos de passaporte que ele chegou a usar mostram um rosto amigável e anafado.

Patrick agora também é procurado pela polícia italiana. No ano passado, segundo um registo comercial obtido pelos autores desta investigação, criou formalmente uma pequena companhia, chamada Poli Pat 9, num escritório de advogados em Ferraz de Vasconcelos. Essa zona pobre de São Paulo é considerada um centro de lavagem de dinheiro dos traficantes de droga do PCC.
E foi o último rasto que os Assisi deixaram.

Esta investigação é uma colaboração entre o CORRECTIV e o IRPI, com o apoio do Flanders Connect Continents Grant. Investigação adicional por Giuseppe Legato em Turim, Juan Carlos Lezcano do “ABC” em Asunción, Micael Pereira do Expresso em Lisboa, Aramis Castro do “Convoca” em Lima e Alana Rizzo em São Paulo. Editor: Frederik Richter

*Tradução de Luís M. Faria

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 13 agosto 2016