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Katrin Himmler: “Desde criança que o meu nome é sentido como um fardo. Ainda pensei em mudá-lo, mas o que mudaria realmente?”

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Katrin Himmler é sobrinha neta do Reichführer das SS e ideólogo dos campos de extermínio. E só isso tornou a sua vida diferente. Tem-na passado a investigar o passado nazi do seu país e da sua família e publicou recentemente um livro com a correspondência de Heinrich Himmler à mulher. Publicamos nesta edição, em formato pergunta-resposta, a versão integral da entrevista que lhe fizémos no âmbito do trabalho “Em nome do pai”, publicado na revista E do passado sábado, 13 de agosto. Com ela concluímos a série de três entrevistas sobre o nazismo publicadas no Expresso Diário

PESQUISAR. Katrin Himmler tornou-se especialista nos crimes do seu tio-avô Heinrich, um dos homens de confiança de Hitler

PESQUISAR. Katrin Himmler tornou-se especialista nos crimes do seu tio-avô Heinrich, um dos homens de confiança de Hitler

Katrin Himmler vive em Berlim. Tem 49 anos e, enquanto politóloga, toda a sua atividade está relacionada com o estudo do passado nazi. Não é de admirar que assim seja. Ao fazê-lo, está a investigar a sua própria história: a de uma família profundamente implicada no regime, com vários membros filiados no partido nacional-socialista e alguns nas fileiras das SS. Um em especial, o seu tio-avô, foi apenas um dos piores assassinos do III Reich. O Reichführer das SS de 1929 até ao fim da guerra, ideólogo dos Einsatzgruppen [esquadrões de morte] e o homem por trás dos campos de extermínio, Heinrich Himmler era um vincado antissemita e a sua afinidade com Hitler muito mais do que política ou de cariz oportunista. Era, como Katrin viria a descobrir na investigação para o seu livro “Correspondência de Heinrich Himmler” [agora traduzido pela Bertrand], alguém muito mais próximo do Führer do que se pensava, que logo desde os anos 20 se manteve ao seu lado, organizando os seus discursos e empreendendo com ele viagens longas e produtivas.

ESTADO MAIORHeinrich Himmler (à esquerda) com Hitler e Martin Bormann (à direita), em 1939, num local não especificado

ESTADO MAIORHeinrich Himmler (à esquerda) com Hitler e Martin Bormann (à direita), em 1939, num local não especificado

AFP/getty

Ser uma Himmler provocou em Katrin vários cataclismos. O principal ligado ao seu próprio nome, que sempre sentiu como um fardo e até pensou em mudar. O segundo aconteceu ao casar-se com um judeu israelita, filho de polacos que escaparam da Polónia nos anos 30, com quem teve um filho, hoje com 16 anos, ao qual teve de explicar as razões por que a família da mãe teria exterminado a do pai.

Quando se apercebeu de quem era realmente o seu tio-avô?
Soube-o desde pequena, pois na minha família isso nunca foi segredo. O meu pai era muito crítico relativamente ao tio e estava sempre a ler tudo o que aparecia sobre o assunto. Ele tinha crescido com tudo aquilo e falava disso abertamente, e sempre deixou claro que o tio era um criminoso, um dos piores assassinos do nazismo. Foi importante para o meu pai falar-nos, a mim e à minha irmã, dessa história.

E para si, o que é que isso representou?
Não foi fácil. Desde criança que o meu nome é sentido como um fardo, como algo que é preciso carregar e contra o qual não é possível lutar. Na adolescência estava sempre à espera de que as pessoas o reconhecessem — o que raramente aconteceu. Ainda pensei em mudá-lo, pois não me sentia bem com ele. Porém, com o tempo, tudo se foi normalizando. Viver com este nome afinal não era nada de extraordinário. E porque haveria de mudar um nome que pertencia a toda a minha família? O que aconteceria se o mudasse? O que mudaria realmente? Não teria feito diferença.

Quando começou a escavar no passado da sua família?
Em 1997. Comecei porque o meu pai me pediu para consultar o arquivo federal, pois podia haver aí algum documento sobre o seu pai. Depois disso, continuei a indagar sobre o passado nazi de toda a família, sobre o qual se sabia muito pouco.

Descobriu que o seu avô Ernst também era membro do partido nazi.
Do partido e das SS. Na investigação para o meu primeiro livro [“The Himmler Brothers”], descobri que o meu avô se filiou no partido logo em 1931. E com ele outros membros da família. Todos eles, depois da I Guerra Mundial, combateram contra a nova democracia na Alemanha. Mas só Heinrich Himmler continuou nessa via de forma constante, trabalhando junto a partidos de direita nos anos 20.

Teve um grande choque quando descobriu que a sua avó era também simpatizante do partido. Porquê?
Porque temos esta imagem de que as mulheres não tinham qualquer poder dentro do partido nazi e que só os homens eram passíveis de culpa. Este foi também o argumento delas depois de 1945: sempre disseram — e toda a gente acreditou — que eram apenas donas de casa a tomar conta dos filhos, que nunca fizeram nem viram nada. Claro que isto não é verdade: muitas mulheres fizeram carreira, embora não chegassem tão longe quanto os homens e fossem em muito menor número. A minha avó não era membro do partido mas votou a favor dos nazis e lucrou imenso com isso. Teve uma boa vida durante aqueles anos e no pós-guerra teve contacto com ex-criminosos nazis. Isto chocou-me e foi duro de aceitar. O meu avô Ernst morreu em 45 e era para mim uma figura distante, quase um estranho. Mas conheci muito bem a minha avó, e amava-a. E nunca pude falar disto com ela.

Como é que os seus familiares reagiram à sua pesquisa?
Têm posições divididas até hoje. A família mais próxima considerou-a importante. Mas alguns parentes não gostaram que eu tenha empreendido uma investigação crítica sobre os seus próprios pais. Porque alimentavam a ilusão de que o único 'mau' era Heinrich e que todos os outros eram bons, estavam 'limpos' de nazismo ou não tinham essa bagagem. E ficaram muito desagradados com o facto de ter de mudar essa imagem. Houve também uma situação diferente, que envolveu a própria filha de Himmler, Gudrun, que durante anos apoiou antigos nazis e pessoas que tinham sido condenadas por crimes contra a humanidade.

Ficou zangada consigo?
Claro! Ela era ativista numa organização nazi chamada Stille Hilfe [Ajuda Silenciosa] e ajudou a erguer, em 1952, a organização Wiking-Jugend, que era a continuação da Juventude Hitleriana e só foi proibida no início dos anos 90. Gudrun foi sempre absolutamente leal ao seu pai, que ela amava. Eu não tenho qualquer tipo de relação com ela, sobretudo porque ela não quer. Tentei contactá-la, mas recusa-se a falar comigo.

E sobre o seu tio Heinrich, qual foi o aspeto mais chocante que descobriu?
A informação sobre ele está à vista e é conhecida. A sua história já foi escrita. No entanto, no meu segundo livro [“Correspondência de Heinrich Himmler”, traduzido agora pela Bertrand] relato aspetos relacionados com o seu lado mais privado. Trata-se das cartas que ele escreveu à mulher, Magda, desde 1927, que permitem esclarecer algumas coisas — e até explicar melhor a história do Holocausto. Claro que nada disto é referido diretamente. Ele apenas escreve sobre assuntos normais e quotidianos, sobre questões de saúde ou sobre os filhos. Mas, por vezes, fala das viagens que anda a fazer.... O interessante é confrontar isto com os documentos históricos e ver que bastava ele visitar um sítio para no dia seguinte acontecer um pogrom. Ou o contrário: bastava haver um massacre de milhares de judeus para no dia seguinte ele lá estar, a dizer aos soldados: “Este é um trabalho duro mas continuem assim.” Outra coisa importante que descobrimos nestas cartas é que o seu papel nos primeiros anos do partido nazi foi muito mais relevante do que os historiadores pensaram.

Em que sentido?
Nunca tinha ficado claro qual era a sua relação com Hitler e quão próximo era dele. A sua carreira parecia ter surgido de repente em 1933 e ninguém tinha realmente compreendido como este homem medíocre conseguiu ter uma ascensão tão impressionante. Isto fica mais claro com as cartas, onde ele explica à futura mulher o que andava a fazer e qual era a sua função. E afinal ele era muito próximo de Hitler e viajaram muitas vezes juntos. Organizava os seus discursos, uma tarefa importante que mostra que já na altura tomava muitas decisões. Tinha, por exemplo, o poder de decidir se algum partido pequeno ou algum lugar na província devia ter ou não a presença de Hitler como orador. As viagens significam também que passaram muito tempo juntos, a conversar. Não sabemos de que falavam, mas é evidente que existia um consenso entre ambos, uma cumplicidade. Tinha de haver pelo menos uma ideia comum de como queriam construir o Reich. Pelas cartas, também percebemos que isto aconteceu durante um longo período de tempo, desde os anos 20 até 1945. Foram 20 anos em que trabalharam lado a lado, de uma forma muito próxima.

As cartas ajudaram-na a perceber melhor quem era Himmler?
Percebi melhor como ele funcionava e como pensava, embora permaneça sempre aquela estranheza — é tão estranho, tão bizarro, tão perverso que não posso dizer que o compreendo verdadeiramente. O que as cartas esclarecem é que ele foi alguém que, uma vez que decidiu o que queria e no que acreditava, seguiu esse caminho pelo resto da vida. Decidiu ligar-se à ideologia que deu origem ao nacional socialismo no início dos anos 20, aquilo assentou-lhe bem e nunca mais o abandonou. Nunca mudou nem teve dúvidas.

Era uma peça na engrenagem ou sabia o que estava a fazer?
As duas coisas. Gostava de pensar em si próprio como estando ao serviço de um ideal maior, como um homem modesto que agia em função de um grande projeto. Mas, por outro lado, foi sempre um homem muito consciente do seu poder, muito ambicioso. A sua influência cresceu constantemente e nos últimos anos da guerra tornou-se no número dois de Hitler. Esta não é uma posição que se atinja seguindo ordens, é preciso ser-se muito ativo.

No seu livro nota-se que discorda com o conceito de “banalidade do mal”, formulado por Hannah Arendt. Por quê?
Penso que, no que toca a Himmler, esse conceito não se aplica. Ele não era um homem banal ou um burocrata. Decidia cada passo a dar conscientemente, sempre em função de um projeto que foi sendo planeado durante cem ou duzentos anos. Para ele, o assassínio de milhões de pessoas era apenas um passo necessário no sentido de estender o Reich alemão para o leste da Europa. Himmler não era um homem que separasse o trabalho da vida privada. Tudo funcionava em conjunto.

A sua área é a ciência política. Na sua opinião, como é que a Alemanha lidou com o passado nazi?
Penso que é uma nação que lidou com o seu passado furiosamente, na tentativa de o encaixar. Temos memoriais por toda a parte — vivo em Berlim e não posso caminhar dois passos sem me deparar com um, e isso é importante. Mas é só uma parte da questão. O que ainda falta, e só começou há poucos anos, é falar da memória das famílias. Há uma grande distância entre a memória oficial e a privada: as pessoas sabem muito sobre o passado nazi do país, sobre os factos, mas não fazem ideia de como lidar com isso dentro das suas casas. E quando o assunto deixa de ser tabu, ouvem-se as histórias dos bombardeamentos, em que as pessoas perderam tudo ou tiveram de fugir. As que envolvem o papel de vítimas, não o de perpetradores. Não se ouve falar de quem lucrou com o nazismo, de quem teve privilégios, ou se calou, ou colaborou. Hoje há um boom entre os jovens, que começaram a perguntar. O problema é que em muitos casos já é tarde, os parentes mais velhos morreram e pode não haver registos — talvez apenas um cartão de filiação ao partido. Nada mais. E o documento em si não explica nada.

Casou-se e teve um filho com um judeu israelita, de origem polaca. Foi difícil explicar ao seu filho o que a sua família representava?
Não foi tão difícil como pensava que seria. Foi um processo gradual — não lhe contámos tudo de uma vez. Eu estava a fazer o 'trabalho sujo', a pesquisar os secretos familiares. E agora que estão escritos já não há lugar para a especulação. Os factos são claros. Isso foi uma grande ajuda, porque permitiu ao meu filho, que tem 16 anos, concentrar-se noutras coisas e perseguir os seus próprios interesses. Por outras palavras, aquele era um problema meu, que resolvi. Nunca foi um problema dele.

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