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Internacional

Polónia vai criminalizar a expressão “campos da morte polacos”

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Campo de concentração de Auschwitz, na Polónia

JANEK SKARZYNSKI/GETTY IMAGES

É mais uma tentativa de limitar o debate público, e negar a História, por parte de um governo com forte inclinação nacionalista

Luís M. Faria

Jornalista

Campos da morte. Campos de extermínio. Campos de concentração. Qualquer destas expressões, se lhe acrescentarem o adjetivo ‘polacos’, deve passar a ser crime na Polónia. É o que diz uma proposta de lei já aprovada pelo Governo e que tem excelentes hipóteses de passar no parlamento. Com penas que vão até aos três anos de cadeia, o seu propósito declarado é castigar quem se atreva a “insultar e difamar o bom nome da Polónia”, atribuindo ao país, implicitamente que seja, uma eventual medida de responsabilidade nos crimes cometidos pelos nazis entre 1939 e 1945.

“Não foram as nossas mães, nem os nossos pais, os responsáveis pelos crimes do Holocausto, que foram cometidos por criminosos nazis e alemães em território polaco ocupado. A nossa responsabilidade é defender a verdade e a dignidade do Estado polaco e da nação polaca, bem como os nossos pais, as nossas mães e os nossos avós”, explicou Zbigniev Ziobro, o ministro da Justiça.

A lei, integrada na estratégia geral de exaltação da história polaca que o partido Lei e Justiça (atualmente no poder) tem vindo a seguir, resulta em parte de um aparente descuido de Barack Obama. Em 2012, o Presidente norte-americano usou a expressão “campos da morte polacos” ao condecorar com a Medalha da Liberdade, a título póstumo, o diplomata Jan Karski, um dos primeiros a denunciar ao mundo os campos de extermínio nazis. Na altura, o Governo polaco reagiu furiosamente, com o primeiro a acusar Obama de “ignorância, falta de conhecimento, más intenções”.

O massacre de Jedwabne

O assunto é extremamente sensível na Polónia. A ocupação do país pelos nazis em 1939 levou a Grã-Bretanha a declarar guerra à Alemanha e foi o rastilho imediato da II Guerra Mundial. Ao todo, seis campos de extermínio foram criados no país, incluindo Auschwitz e Treblinka. Em muitos outros locais foram cometidas atrocidades. Só no ghetto de Varsóvia e massacres subsequentes, terão morrido pelo menos 300 mil pessoas. Mas em décadas recentes, histórias algo diferentes, mais embaraçosas para a própria Polónia, foram sendo reveladas. Entre elas, a do pogrom cometido em 1941 na vila de Jedwabne, onde 340 judeus foram queimados vivos num celeiro.

Em 2011, o então presidente polaco Bronislaw Komorowski reconheceu a responsabilidade de polacos no massacre e pediu desculpa. Mas o assunto continuou polémico. Um presidente anterior, Aleksander Kwasniewski, já o tinha feito em 2001. Mas o assunto continuou polémico, e hoje o tom oficial é muito diferente. “Não se pode comparar antissemitas e polacos”, disse a atual ministra da Educação, Anna Zalewska, especificamente em referência a Jedwabne.

Nesse contexto de negação, a lei agora elaborada faz sentido. Como não terá aplicação fora da Polónia – onde, ao fim e ao cabo, seria mais decisivo que tivesse – muita gente pensa que o seu verdadeiro objetivo é gerar um efeito intimidatório que limite a discussão do papel polaco no Holocausto dentro do país.