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E ao 428.º dia, Trump pediu desculpa

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CARLO ALLEGRI/REUTERS

Num candidato que se tornou notado por fazer afirmações tidas como escandalosas, o facto valeu notícia

Luís M. Faria

Jornalista

Ao 428.º dia de campanha, Trump pediu desculpa. Aconteceu num comício em Charlotte (Carolina do Norte) e foi tão invulgar que fez manchete. Trump passou o último ano a fazer declarações consideradas ofensivas para muitas categorias de pessoas, desde os mexicanos e os muçulmanos até às mulheres e os deficientes, e as reações nunca o incomodaram. O seu estilo espontâneo foi, aliás, uma das principais razões por que conseguiu a nomeação republicana, contra todas as expectativas. Mas agora que está em causa a eleição nacional e um público bastante mais vasto, o registo ofensivo tem-se mostrado problemático.

Em particular, as trocas de palavras de Trump com os pais de um muçulmano, que morreu quando servia no Iraque como capitão do exército americano, fizeram-no cair abruptamente nas sondagens. Com a campanha em risco de desagregação - há vozes no Partido Republicano a pedir que todos os recursos disponíveis sejam orientados para as eleições no Congresso, onde os republicanos têm melhores hipóteses do que na presidencial - havia que tomar medidas. Há dias, Trump mudou o pessoal dirigente da sua campanha, introduzindo duas novas figuras de topo. O efeito dessas mexidas parece já se notar no discurso de ontem, o qual, ao contrário do que é habitual, ele leu num teleponto.

“Como sabem, não sou um político”, disse Trump. “Trabalhei nos negócios, criando emprego e reconstruindo bairros toda a minha vida. Nunca quis aprender a linguagem dos 'insiders', e nunca fui politicamente correto - leva demasiado tempo, e muitas vezes torna as coisas mais difíceis.”

Feita a introdução, foi direto ao ponto: “Às vezes, no calor do debate e ao falar sobre uma quantidade de assuntos, não escolhemos as palavras certas ou dizemos a coisa errada. Eu fiz isso, e, acreditem ou não, lamento, em especial quando possa ter causado dor a alguém. Está demasiado em causa para nos deixarmos consumir por estes assuntos”. E antes começasse a tomá-lo por um político igual aos outos, acrescentou: “Uma coisa vos posso prometer: direi sempre a verdade. Digo a verdade por todos vós, e por todos neste país que não têm uma voz”.

“Hillary alguma vez pediu desculpa?”

A seguir, Trump passou ao ataque, tornando a desculpa que acabara de fazer num novo argumento contra a sua rival: “Digam-me, Hillary alguma vez pediu desculpa por mentir sobre o seu servidor ilegal de email e apagar 33 mil emails? Pediu desculpa por transformar o Departamento de Estado numa operação a cobrar onde favores são vendidos a quem oferece mais? Pediu desculpa por mentir às famílias que perderam entes amados em Bengasi? Pediu desculpa por meter o caminho para ter armas nucleares? Pediu desculpa pelo Iraque? Pela Líbia? Pela Síria? Pediu desculpa por meter o ISIS à solta no mundo?”.

A campanha de Hillary não demorou a responder. Disse Christina Reynolds, uma porta-voz: “Donald Trump começou literalmente a sua campanha insultando pessoas. Continuou a fazê-lo ao longo de cada um dos 428 dias até agora, sem vergonha ou remorso. Soubemos hoje que o seu autor de discursos e o seu teleponto sabem que ele tem muito de que devia pedir desculpa. Mas o pedido de desculpas hoje é apenas uma frase bem escrita até ele nos dizer qual dos seus muitos comentários ofensivos, prepotentes e divisivos ele lamenta - e mudar completamente o seu tom”.

Não é provável que nada disso aconteça. Trump é conhecido por nunca pedir desculpa. Ele próprio explicou um dia, quando o questionaram sobre o assunto numa entrevista, que acha óptimo pedir desculpa - quando se está errado. E ele nunca está. “Nunca gosto de pedir desculpa, porque isso significa que houve um erro”, explicou a altura. “Provavelmente, a última vez que pedi desculpa foi há muito tempo.”

A sua nova 'manager' de campanha, Kellyanne Conway, garante que o discurso feito ontem, “é todo dele”. “São as suas palavras. E espero que toda a gente a gente que o criticou por ser insensível ou gozar com alguém ao menos mostre algum reconhecimento e algum perdão.”