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“Chocante”: Médicos Sem Fronteiras denunciam milhares de casos de violação em região sul-africana

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Uma menina durante uma manifestação contra a violência sobre as mulheres e criança na Cidade do Cabo

RODGER BOSCH/ Getty Images

Trata-se da região sul-africana de Rustenburg. “Muitas mulheres têm medo de denunciar a violação porque temem a humilhação pública, o julgamento e receiam ficar isoladas da comunidade”

Em cada quatro mulheres, uma já foi violada em Rustenburg, uma área de extração de platina na África do Sul. Os resultados “chocantes mas não incomuns” são agora revelados pelos Médicos Sem Fronteiras no relatório “Violência crua: A necessidade da paciente centrada nos cuidados a sobreviventes de violência sexual no Platinum Mining Belt”.

“Extrapolando esta estatística para o nível da população total, aproximadamente 50 mil mulheres e meninas na região de Rustenburg já passaram por uma violação pelo menos uma vez na sua vida”, lê-se no documento, sendo que a cada ano há 11 mil novas violações.

Entre as vítimas, 40,5% foram violadas por alguém que não é o seu parceiro, 28,2% foram forçadas pelo companheiro a ter relações e 31,2% das mulheres já passaram por ambas as situações.

“Parte das mulheres e meninas está continuamente exposta à violação ou a outras formas de violência. Podem estar expostas ao VIH e a outras infeções sexualmente transmitidas, mas muitas delas não contam o que lhes aconteceu”, explica Beatrice Mogale, enfermeira, citada pelos Médicos Sem Fronteiras no relatório.

Apesar de muitas das vítimas terem noção do perigo e dos riscos que a violação pode ter na sua saúde, grande parte opta pelo silêncio (95%). O medo e a vergonha sobrepõem-se à necessidade de ajuda. As poucas que contam fazem-no junto de familiares (27% à mãe, 26% a amigos, 18% à irmã e 10% ao pai). As autoridades raramente são notificadas (8% reportam à polícia, 5% numa unidade de saúde e 3% a um funcionário dos serviços sociais).

“Muitas mulheres têm medo de denunciar a violação porque temem a humilhação pública, o julgamento e receiam ficar isoladas da comunidade”, diz Caroline Walker, responsável pela promoção da área da saúde nos Médicos Sem Fronteiras.

É precisamente devido ao silêncio que se torna mais difícil fazer chegar os cuidados médicos necessários às vítimas com o objetivo de mudar o estigma associado à violação, prevenir infeções por VIH e a gravidez indesejada.

“É urgente melhorar o acesso a serviços médicos para os sobreviventes de violência sexual e providenciar uma resposta ao paciente mais centrada na violência sexual, tanto em Rustenburg, como em toda a África do Sul”, conclui. Carolina Walker.