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A mulher que venceu os homens que a acusam de usar maquilhagem

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FOTO REUTERS

Nesta cidade há um “avançado modernismo e um entrosado tradicionalismo” - os homens sempre mandaram. “Não podemos deixar Tóquio nas mãos de uma mulher que usa demasiada maquilhagem”, diz um deles. Mas há uma mulher que que os venceu politicamente - e que vai mandar no que alguns deles sempre acharam que nunca seria governado por uma ela. Portugueses e japoneses que lá vivem contam-nos tudo

Facto relevante para entendermos a dimensão política e social da prosa que há de vir: Tóquio, que vai receber em 2020 os próximos Jogos Olímpicos, é a cidade com maior PIB do mundo – e quando comparada com países inteiros, fica abaixo de apenas 11 (sendo que a sua economia vale mais que a de países como a Austrália e a Coreia do Sul). A mulher eleita para liderá-la - até aqui, Tóquio foi sempre dirigida por homens - tem um currículo à altura e uma vitória política relevante para justificar a esperança que ela própria anuncia a uma cidade que há muito desconfia dos seus governantes: Yuriko Koike sabe falar inglês e árabe de forma fluente, estudou no Egipto e foi jornalista antes de ser seduzida pela política - e ganhou estas eleições por uma margem de quase um milhão de votos para o maior rival, apesar de não ter o apoio do seu próprio partido.
É por todas estas razões – e ainda outras, mas já lá vamos – que o nome de Yuriko Koike chegou aos jornais de todo o mundo - e também por ser a primeira mulher a liderar a cidade. A nova governadora de Tóquio, eleita com 2,9 milhões de votos (batendo assim 21 concorrentes ao mesmo posto), tem uma herança difícil: desde 2012, a cidade já teve quatro governadores e os últimos dois demitiram-se por suspeitas de gestão danosa e corrupção.

“Vou governar Tóquio de uma forma sem precedentes, como uma Tóquio que nunca viram”, prometeu a nova governadora no seu discurso de vitória. André Moreira, designer de jogos de vídeo a viver em Tóquio há cinco anos, explica ao Expresso que a promessa é mesmo aquilo de que os japoneses precisam: “Os recentes escândalos financeiros com os anteriores governadores da cidade podem ter levado os japoneses a tentar um novo rumo. Yuriko Koike pode ter transmitido segurança aos japoneses de que iria praticar uma política limpa”.

FOTO GETTY.

Um currículo original

Apesar do passado como jornalista, tradutora e intérprete – Yuriko estudou na Universidade Americana do Cairo e foi lá que tirou o curso de Sociologia e aprendeu árabe antes de voltar ao Japão –, não é uma estranha no mundo da política. Ministra do Ambiente entre 2003 e 2005, mediatizou a sua campanha “Cool Biz”, em que propunha aos homens deixarem de vestir fato e gravata para trabalhar no verão de forma a poupar no ar condicionado.

A mais recente experiência de governação aconteceu em 2007, quando se tornou a primeira ministra da Defesa no feminino noutro Governo do atual primeiro-ministro, Shinzo Abe, para substituir o antecessor Fumio Kumya, depois de este ter sugerido que os ataques nucleares ao Japão no final da segunda guerra mundial teriam sido inevitáveis. Mas a experiência foi curta – Koike só segurou o cargo durante um mês, acabando por se demitir para assumir as responsabilidades por uma fuga de informação na Marinha japonesa.

João Ponces de Carvalho, professor universitário de Cinema que vive no Japão, onde constituiu família, sublinha que a experiência foi de facto “muito efémera” e que “a experiência no Governo não é nada parecida com a gestão de uma autarquia ou de uma zona metropolitana gigantesca como Tóquio”.

A falta de experiência neste tipo de cargos e a recusa do seu próprio partido, o Partido Liberal Democrata de Shinzo Abe, em apoiá-la pareciam ser grandes obstáculos para Koike e foram ultrapassados. Agora, do Japão chegam avisos de que Koike pode ter vencido uma batalha, mas deve sarar as feridas que ficaram. Sayuri Daimon, editor do “The Japan Times”, explica ao Expresso que “no seu primeiro dia [segunda-feira], Koike visitou os gabinetes dos membros do partido para os cumprimentar, mas apenas três deles apareceram para a saudar. Será importante estabelecer um canal de diálogo com eles para poder trabalhar sem percalços”.

Da mesma opinião é Masaru Kohno, professor de Ciência Política na Universidade de Waseda. “Fazer as pazes com os membros da assembleia da prefeitura de Tóquio do seu partido vai ser a primeira e mais desafiante tarefa dos próximos tempos. Não se sabe neste momento se ela vai adotar uma postura mais dura ou conciliadora, mas tem de forjar uma boa relação com eles para o seu mandato.” O professor acrescenta que o facto de não ter tido apoio do partido poderá ter sido precisamente um trunfo para Koike – “os últimos dois governadores, ambos apoiados pelo partido, falharam, e por causa disso qualquer candidato apoiado pelos liberais democratas teria menos hipóteses”. Foi o caso do segundo concorrente ao cargo, Hiroya Masuda, que deu a cara pelo partido e reuniu 1,8 milhões de votos; já o terceiro, o jornalista Shuntaro Torigoe, conseguiu 1,3 milhões de apoiantes (“simplesmente faltavam-lhe ideias políticas”, considera Kohno).

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Maquilhagem

O académico acrescenta que o facto de Yuriko ter sido eleita não deve levar a grandes euforias – “não é como Hillary Clinton tornar-se a mais poderosa líder do mais poderoso país do mundo”. Mas nem toda a gente está de acordo. Depois de Koike ter feito uma campanha em que referiu símbolos femininos como Joana d’Arc e prometeu legislação centrada na igualdade de género para que em Tóquio “tanto homens como mulheres possam brilhar”, está a ser vista como a esperança das mulheres numa sociedade que André Moreira descreve como “muito machista”.

“O Japão é um país com duas facetas marcadas: um avançado modernismo e um entrosado tradicionalismo, que não se coaduna de forma nenhuma com a primeira. O papel da mulher na sociedade ainda é visto com grandes reservas”, explica João Ponces de Carvalho. “Mas a realidade é que os seus opositores e mesmo muitos eleitores veem-na como um homem de saias e dizem que é muito mais terrível e inflexível do que um homem”.
Os ataques começaram por chegar mesmo do próprio partido, nomeadamente da boca do antigo governador da capital: “Não podemos deixar Tóquio nas mãos de uma mulher que usa demasiada maquilhagem”. O comentário, repudiado pelos apoiantes de Koike, mereceu apenas uma resposta da candidata que diz admirar políticas como Hillary Clinton ou Margaret Thatcher: “Já estou habituada”.

A arquiteta Ana Silva Menino, portuguesa a viver em Zurique e que morou durante quase um ano em Tóquio (onde tenciona regressar, “sem dúvida”), cedo se apercebeu das desigualdades de género que ali se vivem: “Algo em que reparei imediatamente foi a escassez de mulheres no mercado de trabalho. Não só no Japão mas como um pouco por toda a Ásia, é ainda bastante patente o papel da mulher enquanto doméstica e mãe”.
As promessas de Koike não se referem apenas às mulheres – ela diz querer uma sociedade mais igual também entre os vários grupos sociais e apoio para os mais velhos. André Moreira explica que “as mulheres têm uma forte esperança nas decisões de Yuriko Koike”. “Existe uma grande vontade de querer que o país melhore a nível das condições para a criação de crianças, pois a população está cada vez mais envelhecida - e devido a esse mesmo facto, o apoio aos idosos também se torna num ponto indispensável daqui para a frente”.

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Rigor e coerência, o lema dos próximos quatro anos

As palavras de ordem de Yuriko, assegura a arquiteta portuguesa, são “rigor e coerência” e poderão ser importantes para enfrentar não só os escândalos financeiros que afligem a cidade como o grande desafio dos próximos quatro anos: a realização dos Jogos Olímpicos de 2020 em Tóquio, até agora envolta em polémica. Ana Menino pertencia ao escritório que ganhou o segundo concurso para a construção do estádio polémico – o primeiro, da arquiteta Zaha Hadid (que faleceu recentemente), acabou por ser rejeitado devido aos elevados custos.

Para mais, o logótipo inicial também teve de ser recusado por acusações de plágio – e as acusações de corrupção no que toca à escolha da cidade como a próxima anfitriã dos Jogos continuam.

“A derrapagem e o descontrolo de custos para o evento são assim temas fulcrais nos próximos tempos, e sinto que é esperado que Koike cumpra a promessa de liderar Tóquio de forma rigorosa e transparente”, explica a arquiteta. André Moreira partilha a mesma opinião: “Numa altura em que os Jogos Olímpicos de 2020 se aproximam, penso que também não é tempo para andar com brincadeiras financeiras que possam pôr em risco o sucesso dos mesmos, bem como a imagem do país que seria transmitida a todo o mundo”.

“Ela está agora sob imenso escrutínio para garantir que não tem esqueletos no armário. Tem de ir ao Rio de Janeiro para o início dos Jogos, por isso não vai poder começar a fazer muito para já”, explica Chris Betros, editor do “Japan Today”. Resta saber se quando voltar Yuriko vai cumprir as promessas que fez aos japoneses – e cumprir, ao contrário dos seus antecessores, o mandato até ao verão dos próximos Jogos Olímpicos.