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Uma bomba para impressionar Estaline

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Há 71 anos caía uma bomba de plutónio na cidade japonesa de Nagasaki, acelerando a rendição japonesa e mostrando à URSS que os EUA tinham novas armas

Para a esmagadora maioria das pessoas, falar de bombas atómicas sobre o Japão equivale a falar de Hiroshima (6 de agosto de 1945), cidade este ano visitada pelo presidente norte-americano, Barack Obama (27 de maio). Contudo, faz hoje 71 anos, uma segunda bomba atómica era lançada sobre a cidade portuária japonesa de Nagasaki (uma das primeiras onde haviam aportado os navegadores portugueses, no século XVI).

Causou cerca de metade das vítimas de Hiroshima (40 mil contra 90 mil, estimando unicamente os efeitos diretos das explosões e não as consequências posteriores da exposição às radiações ionizantes) mas provocando um impacto psicológico devastador que levaria à derrota do império do sol nascente. Ao ponto de o imperador Hirohito, no discurso de rendição, falar de “uma arma nova, extremamente cruel”. O império nipónico viria a render-se sem condições menos de um mês depois, a 2 de setembro de 1945, pondo termo à II Guerra Mundial.

A justificação oficial das autoridades norte-americanas para este duplo ataque atómico foi quebrar a resistência nipónica. A não ter sido assim – dizem os defensores desta tese – um eventual desembarque aliado no arquipélago japonês poderia ter-se saldado por centenas de milhares de vidas, só do lado dos atacantes.

Nem todos os historiadores concordam com esta análise. O império japonês estava de rastos, sem combustível, sem comida e com o grosso do seu poder aeronaval destruído. Quanto tempo teria o arquipélago, onde já reinava a fome, resistido a um bloqueio naval americano?

De resto, havia indícios de que a férrea vontade nipónica de resistir até ao fim se quebrara. Em Okinawa (abril a junho de 1945) que, tecnicamente falando, já era território japonês, se é verdade que houvera mais de uma centena de milhar de vítimas entre os defensores, também se haviam verificado as primeiras rendições em massa: pelo menos dez mil prisioneiros e um número ainda maior de civis.

O fator novo é que em princípios de agosto de 1945 a União Soviética declarara guerra ao Japão e iniciara operações militares na Manchúria, Coreia e ilhas Sacalinas. Durante a conferência de Ialta (4 de fevereiro 1945) o presidente norte-americano, Roosevelt, tentara, em vão, alertar o líder soviético, Estaline, de que os EUA possuíam uma nova arma capaz de mudar completamente a face da guerra.

Daí que num certo sentido, a bomba de Hiroshima tivesse um segundo significado, para além da intimidação do Japão: mostrar ao aliado soviético que os EUA tinham ganho superioridade tecnológica absoluta, ao acederem à arma atómica.

Para bombardear Hiroshima os americanos usaram a única bomba de urânio enriquecido que possuíam, já que o processamento do U235 era caro e moroso. Querendo atacar segunda vez tiveram que recorrer a uma arma diferente, a bomba à base de plutónio, elemento radioativo produzido industrialmente, do qual os EUA possuíam maiores reservas.

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Acessoriamente, aos peritos militares norte-americanos interessava verificar o poder destrutivo de ambos os armamentos, na perspetiva de futuras utilizações. Se a bomba de Hiroshima (denominada Little Boy) era menos potente (equivalente a 13 mil toneladas de TNT), do ponto de vista tecnológico era mais simples. A bomba de plutónio lançada sobre Nagasaki (Fat Man) era mais poderosa (equivalente a 21 quilotoneladas) mas tecnologicamente mais complexa. Contudo, caiu longe do alvo e o efeito de ecrã das colinas que rodeavam a cidade limitou (relativamente falando) as baixas civis.

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Artigo publicado na edição do Expresso diário de 09/08/2016