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Internacional

Tráfico de nigerianas para prostituição na Europa atinge nível sem precedentes

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PIUS UTOMI EKPEI

Gabinete da ONU alerta que 80% das mulheres nigerianas que chegaram a Itália vindas da costa líbia na primeira metade deste ano vão ser forçadas a prostituir-se. “Os mafiosos vêm ao campo de regugiados e escolhem as mulheres que querem. Tão fácil como ir ao supermercado”, aponta um vice-procurador italiano

O tráfico de nigerianas da Líbia para Itália está a atingir níveis "de crise" assustadores, com os traficantes a usarem os centros de receção de migrantes e refugiados no território italiano como armazéns antes de distribuírem estas mulheres e crianças por toda a Europa, obrigando-as a prostituir-se.

O aviso foi feito esta segunda-feira pela Organização Internacional da ONU para as Migrações (OIM), com base em dados compilados nos últimos meses sobre as chegadas e registos de mulheres naturais da Nigéria, que têm sido forçadas pelos traficantes a partilhar a rota dos refugiados no Mediterrâneo para entrarem na União Europeia.

De acordo com a OIM, cerca de 3600 nigerianas desembarcaram em Itália nos primeiros seis meses deste ano, mais do dobro do número registado no período homólogo de 2015, antecipando-se que mais de 80% destas mulheres sejam traficadas e obrigadas a prostituir-se em Itália e em vários outros países do continente.

"O que estamos a ver este ano é uma crise que é absolutamente inédita e que representa o maior aumento dos últimos dez anos no número de mulheres nigerianas que chegam a Itália", diz Simona Moscarelli, especialista de combate ao tráfico humano da OIM, citada pelo "The Guardian". "Os nossos indicadores apontam que a maioria destas mulheres está a ser deliberadamente trazida [para Itália] com propósitos de exploração sexual. Há cada vez mais gangues criminosos e redes de tráfico a explorar mulheres e raparigas nigerianas, que são cada vez mais jovens."

Apesar de a indústria de tráfico sexual estar a operar entre a Nigéria e Itália há mais de três décadas, houve um claro aumento nos números de mulheres e raparigas nigerianas não acompanhadas que chegam ao país de entrada na UE em botes vindos da Líbia. Em 2014, cerca de 1500 nigerianas chegaram a Itália de barco, um número que subiu para 5633 em 2015. "Agora, já vimos quase 4000 chegarem nos primeiros seis meses deste ano e estamos à espera que os números subam outra vez até ao final do ano", aponta Moscarelli.

"Só na semana passada seis raparigas desapareceram de um centro de registo de migrantes na Sicília, foram simplesmente levadas num carro", aponta a especialista, que alerta para a urgência de se alterar a atual política de colocar mulheres nigerianas nestes centros entre milhares de outros migrantes e refugiados.

Tal, explica a investigadora, só facilita o trabalho dos traficantes. "Existe muito pouco entendimento sobre as dinâmicas e a natureza desta forma de tráfico. A maioria das mulheres nigerianas que chegam a Itália já são vítimas de tráfico, muitas foram sujeitas a graves explorações sexuais durante a viagem, muitas são forçadas a prostituir-se na Líbia. E agora são cada vez mais novas, vemos muitas menores não acompanhadas, e a violência a que são sujeitas por estes gangues está a piorar. São tratadas como escravas", relata Moscarelli.

Salvatore Vella, vice-procurador de Agrigento, na Sicília, que levou a cabo a primeira grande investigação às redes de tráfico de mulheres nigerianas em Itália há dois anos, confirma que os centros de receção de migrantes e refugiados estão cada vez mais a ser usados como pontos de recolha pelas redes de tráfico humano.

"Os mafiosos vêm simplesmente ao campo e escolhem as mulheres que querem. Tão fácil como ir ao supermercado. É assim que estas mulheres estão a ser tratadas, como objetos de comércio, compradas, exploradas e vendidas, e os centros de receção são uma espécie de armazém onde são temporariamente mantidas. [Os traficantes] esperam até que uma mulher consiga visto de residência ou estatuto de refugiada e depois vão buscá-la."